A safra recorde que pode virar dívida recorde

O Brasil se acostumou a celebrar recordes de safra como sinônimo de prosperidade nacional. No entanto, quem percorre o “chão de fábrica” do agronegócio, especialmente nas lavouras de soja, ouve um relato bem diferente do otimismo das estatísticas.
- Veja em primeira mão tudo sobre agricultura, pecuária, economia e previsão do tempo: siga o Canal Rural no Google News!
O desabafo que recebo de produtores de todo o país é um só: a rentabilidade hoje é praticamente nula. Produzimos mais do que nunca, mas a sustentabilidade financeira do negócio ficou pelo caminho, esmagada entre o custo operacional e a asfixia do crédito.
O paradoxo da eficiência
Essa situação é dramática porque não decorre de incompetência técnica. O produtor brasileiro nunca foi tão eficiente — mas hoje trabalha para “trocar moedas”.
Quando colocamos na ponta do lápis os custos indiretos, a depreciação do maquinário e, principalmente, o serviço da dívida, a conta simplesmente não fecha.
Vivemos um cenário de juros elevados que drenam o caixa das fazendas. Em um ano eleitoral, a perspectiva de queda da Selic é minada pela preocupação com o gasto público e o aumento da dívida do Estado. Esse aperto monetário não pune apenas o governo; ele tira o fôlego do empresário rural, que se vê obrigado a financiar sua operação a taxas que o ciclo biológico da lavoura não consegue remunerar.
O poder de compra derretido
O termômetro real da crise é a deterioração da relação de troca. O poder de compra do produtor derreteu.
No caso do fertilizante MAP, a média histórica era de 33 sacas de soja por tonelada; hoje, são necessárias entre 43 e 45 sacas. Na prática, o agricultor ficou cerca de 30% mais pobre para adquirir o mesmo insumo de sempre.
O raio-x do ponto de equilíbrio (safra 25/26)
| Estado | Custo Operacional (R$/ha) | Ponto de Equilíbrio (R$/sc) | Situação de Margem |
|---|---|---|---|
| Mato Grosso | R$ 7.100,00 | R$ 122,41 | Mínima / Risco |
| Rio Grande do Sul | R$ 6.350,00 | R$ 115,45 | Crítica / Dívida |
| Mato Grosso do Sul | R$ 6.115,83 | R$ 109,21 | Próxima de zero |
| Paraná | R$ 5.850,00 | R$ 95,12 | Baixa segurança |
O risco sistêmico: 2026 e 2027 no alvo
A insegurança global, a volatilidade das commodities e o endividamento das nações criaram uma tempestade perfeita.
Se o Brasil não cuidar de sua base produtiva agora, as safras de 2026 e 2027 poderão ser marcadas por uma grave crise de liquidez.
O aperto monetário gera um reflexo direto na incapacidade de pessoas e empresas honrarem seus compromissos, criando um perigoso efeito dominó.
O caminho exige um novo pacto
Ação governamental:
É urgente uma interação real para a revisão das linhas de crédito e para a criação de um seguro agrícola que proteja a renda, e não apenas o custeio. O país precisa dar sinais claros de responsabilidade fiscal para permitir a queda dos juros de longo prazo.
Postura do setor:
O momento exige gestão financeira extrema. O produtor precisa buscar o máximo de profissionalização, fortalecer a governança e encontrar fontes alternativas de financiamento, reduzindo a dependência exclusiva do crédito bancário tradicional.
O mundo atravessa um momento crítico de endividamento. Se o governo e as lideranças ignorarem os sinais que vêm do campo, a fatura chegará com um peso que nem o solo mais fértil será capaz de sustentar.
É hora de agir antes que o recorde de produção se transforme em um recorde de recuperações judiciais.

*Miguel Daoud é comentarista de Economia e Política do Canal Rural
O Canal Rural não se responsabiliza pelas opiniões e conceitos emitidos nos textos desta sessão, sendo os conteúdos de inteira responsabilidade de seus autores. A empresa se reserva o direito de fazer ajustes no texto para adequação às normas de publicação.
O post A safra recorde que pode virar dívida recorde apareceu primeiro em Canal Rural.









