terça-feira, março 10, 2026
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A safra recorde que pode virar dívida recorde


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Foto: Pedro Silvestre/Canal Rural

O Brasil se acostumou a celebrar recordes de safra como sinônimo de prosperidade nacional. No entanto, quem percorre o “chão de fábrica” do agronegócio, especialmente nas lavouras de soja, ouve um relato bem diferente do otimismo das estatísticas.

O desabafo que recebo de produtores de todo o país é um só: a rentabilidade hoje é praticamente nula. Produzimos mais do que nunca, mas a sustentabilidade financeira do negócio ficou pelo caminho, esmagada entre o custo operacional e a asfixia do crédito.

O paradoxo da eficiência

Essa situação é dramática porque não decorre de incompetência técnica. O produtor brasileiro nunca foi tão eficiente — mas hoje trabalha para “trocar moedas”.

Quando colocamos na ponta do lápis os custos indiretos, a depreciação do maquinário e, principalmente, o serviço da dívida, a conta simplesmente não fecha.

Vivemos um cenário de juros elevados que drenam o caixa das fazendas. Em um ano eleitoral, a perspectiva de queda da Selic é minada pela preocupação com o gasto público e o aumento da dívida do Estado. Esse aperto monetário não pune apenas o governo; ele tira o fôlego do empresário rural, que se vê obrigado a financiar sua operação a taxas que o ciclo biológico da lavoura não consegue remunerar.

O poder de compra derretido

O termômetro real da crise é a deterioração da relação de troca. O poder de compra do produtor derreteu.

No caso do fertilizante MAP, a média histórica era de 33 sacas de soja por tonelada; hoje, são necessárias entre 43 e 45 sacas. Na prática, o agricultor ficou cerca de 30% mais pobre para adquirir o mesmo insumo de sempre.

O raio-x do ponto de equilíbrio (safra 25/26)

Estado Custo Operacional (R$/ha) Ponto de Equilíbrio (R$/sc) Situação de Margem
Mato Grosso R$ 7.100,00 R$ 122,41 Mínima / Risco
Rio Grande do Sul R$ 6.350,00 R$ 115,45 Crítica / Dívida
Mato Grosso do Sul R$ 6.115,83 R$ 109,21 Próxima de zero
Paraná R$ 5.850,00 R$ 95,12 Baixa segurança

O risco sistêmico: 2026 e 2027 no alvo

A insegurança global, a volatilidade das commodities e o endividamento das nações criaram uma tempestade perfeita.

Se o Brasil não cuidar de sua base produtiva agora, as safras de 2026 e 2027 poderão ser marcadas por uma grave crise de liquidez.

O aperto monetário gera um reflexo direto na incapacidade de pessoas e empresas honrarem seus compromissos, criando um perigoso efeito dominó.

O caminho exige um novo pacto

Ação governamental:
É urgente uma interação real para a revisão das linhas de crédito e para a criação de um seguro agrícola que proteja a renda, e não apenas o custeio. O país precisa dar sinais claros de responsabilidade fiscal para permitir a queda dos juros de longo prazo.

Postura do setor:
O momento exige gestão financeira extrema. O produtor precisa buscar o máximo de profissionalização, fortalecer a governança e encontrar fontes alternativas de financiamento, reduzindo a dependência exclusiva do crédito bancário tradicional.

O mundo atravessa um momento crítico de endividamento. Se o governo e as lideranças ignorarem os sinais que vêm do campo, a fatura chegará com um peso que nem o solo mais fértil será capaz de sustentar.

É hora de agir antes que o recorde de produção se transforme em um recorde de recuperações judiciais.

Miguel Daoud

*Miguel Daoud é comentarista de Economia e Política do Canal Rural


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