Safra Cheia no Mar Negro Dita a Pressão nos Preços
O clima provou ser o grande fiel da balança para a oferta global de trigo na safra 2026/27, desenhando um cenário estatístico de fortes contrastes no relatório de junho. Do ponto de vista macroeconômico, a dinâmica foi expansionista: todas as categorias do balanço mundial do cereal (oferta, consumo, comércio e estoques) sofreram revisões altistas para o ciclo. A estimativa de oferta global subiu 1,7 milhão de toneladas, consolidando a robusta marca de 1.100 milhões de toneladas.
Esse fôlego produtivo injetado no mercado tem sua base fincada no clima quase ideal registrado na Eurásia. A Rússia, teve sua previsão de colheita elevada em 2,0 milhões de toneladas, alcançando a marca de 88,0 milhões de toneladas. Segundo o relatório, o volume extra decorre de um regime de chuvas acima da média que alavancou expressivamente o rendimento das lavouras de trigo de inverno, fator que compensou de forma folgada a redução na área colhida de trigo de primavera no país.
A Turquia também foi altamente beneficiada pela meteorologia favorável na primavera do hemisfério norte, com sua projeção saltando 1,5 milhão de toneladas e estabelecendo um recorde histórico produtivo de 22,5 milhões de toneladas. O vizinho Mar Negro acompanhou a tendência: a Ucrânia teve um acréscimo de 0,5 milhão de toneladas, elevando sua safra para 23,5 milhões. Essa abundância concentrada aumentou os estoques finais globais da temporada para 275,4 milhões de toneladas e fomentou a demanda. O consumo mundial foi revisado para cima em 1,4 milhão de toneladas, cravando 824,6 milhões, impulsionado substancialmente pelo maior uso de trigo como ração animal (feed and residual use) dentro da própria Rússia. O fluxo logístico global absorveu o impacto, com o comércio mundial subindo 0,3 milhão de toneladas (para 212,0 milhões) puxado pelas maiores exportações ucranianas.
Na contramão da “onda de trigo”, a Austrália e os Estados Unidos operaram com fundamentos de retração. A safra australiana sofreu um corte brusco de 2,0 milhões de toneladas, regredindo para 28,0 milhões, impacto direto da menor área colhida constatada nos dados de campo.
Nos Estados Unidos, o aperto no balanço foi provocado por um desempenho fraco no segmento do trigo. A produção norte-americana total perdeu 18 milhões de bushels e estacionou em 1.543 milhões, penalizada por um recuo na produtividade média, que caiu para 47,0 bushels por acre. Consequentemente, as reservas encolheram: a projeção de estoques finais dos EUA caiu para 744 milhões de bushels, volume 20% menor que o registrado na safra anterior.
Contudo, a regra econômica de precificação provou que a força global suplanta a realidade local. Apesar do evidente enxugamento nos estoques e na safra norte-americana, a avalanche de trigo no Mar Negro afundou as perspectivas de cotação. O relatório cravou que o produtor americano sofrerá uma redução na rentabilidade, cortando a expectativa de preço médio da safra 2026/27 (season-average farm price) em agressivos US$ 0,50 neste mês, fixando-a em US$ 6,00 por bushel. O USDA atrelou o movimento às fracas expectativas dos mercados futuro e físico, consolidando um ambiente em que a superoferta internacional é a dona dos preços.

