domingo, maio 24, 2026
News

Estudo revela erro que compromete a produção de látex em seringueiras clonadas


Seringueira
Foto: Breno Lobato/Embrapa

Apesar do advento da borracha sintética, que encerrou definitivamente o ciclo de opulência que teve seu auge na Amazônia brasileira na virada do século 19 para o 20, a borracha natural continua insubstituível para vários usos, como a confecção de pneus para aeronaves e de equipamentos médicos.

A borracha natural distingue-se por combinar, de maneira única, flexibilidade e robustez, oferecendo aos objetos produzidos alta elasticidade e poder de recuperação da forma original e resistência à fadiga, ao aquecimento, ao rasgamento e à abrasão. Além disso, possui a virtude de ser uma matéria-prima de origem renovável e de as plantações poderem ajudar na captura de dióxido de carbono (CO2) da atmosfera.

Mercado e produção

No entanto, o Brasil perdeu a primazia na produção de borracha natural, hoje liderada por Tailândia (35%), Indonésia (25%) e Vietnã (8-10%), seguidos por China (6-7%) e Índia (5-6%). Com menos de 2% da produção mundial, o Brasil não consegue abastecer o mercado interno e precisa importar a matéria-prima.

Um dado surpreendente para os não especialistas é que o epicentro da produção brasileira se deslocou da Amazônia para o estado de São Paulo. Como a seringueira leva cerca de dez anos para entrar em sua fase produtiva plena, alguns fazendeiros sediados no território paulista, que se dedicam a outros cultivares como atividade principal, reservam uma parte da propriedade para o plantio da seringueira, como uma espécie de poupança para o futuro.

Baixa produtividade

O grande problema é que, na hora de começar a colher o látex, muitos se surpreendem com a baixa produtividade das árvores, apesar de terem introduzido na fazenda os melhores clones disponíveis no mercado. A explicação foi dada agora, com o rigor do método científico, por um estudo conduzido na Universidade Estadual de Campinas (Unicamp) e no Instituto Agronômico (IAC) e publicado no periódico The Plant Genome.

A pesquisa mostrou que o porta-enxerto (isto é, a planta que sustenta o clone enxertado) desempenha papel decisivo na produtividade da seringueira, podendo determinar diferenças expressivas na produção de látex.

“Investigamos, pela primeira vez, os mecanismos moleculares envolvidos na interação entre o enxerto e o porta-enxerto em seringueiras [Hevea brasiliensis], principal fonte mundial de borracha natural. Nossos achados evidenciam que os porta-enxertos não são apenas suportes para fixação dos clones, mas sim agentes ativos na regulação da expressão gênica do material enxertado, com impacto direto na produtividade e adaptabilidade da cultura”, afirma o pesquisador Wanderson Lima Cunha, primeiro autor do artigo.

Principais resultados

Para entender essa diferença tão marcante, os pesquisadores analisaram o transcriptoma – o conjunto de genes expressos) de árvores enxertadas em diferentes porta-enxertos. “Identificamos milhares de genes cuja expressão varia conforme a combinação enxerto-porta-enxerto, incluindo genes diretamente ligados à produção de látex”, informa Cunha.

Entre os principais resultados, o estudo identificou genes exclusivos e diferencialmente expressos relacionados às variações de produtividade, além de evidenciar a atuação de vias metabólicas, como a do jasmonato (hormônio vegetal ligado à resposta a estresses e à regulação metabólica) na produção de látex.

A pesquisa também apontou diferenças nas redes de coexpressão gênica, indicando distintos níveis de interação entre genes envolvidos na biossíntese da borracha. Os resultados reforçam que o porta-enxerto exerce um papel além do suporte físico, atuando diretamente na modulação da fisiologia da planta.

Segundo os pesquisadores, o desconhecimento sobre a importância do porta-enxerto tem causado prejuízos significativos aos produtores.

“Quando o agricultor vai comprar a muda, ele pede o clone, mas não pede o porta-enxerto. E ninguém o informa sobre isso. Como a seringueira demora anos para entrar em produção, o erro só é percebido tarde demais. O fazendeiro espera mais de uma década para descobrir que está produzindo muito menos do que poderia”, sublinha a professora titular do Departamento de Biologia Vegetal da Unicamp, Anete Pereira de Souza.

Além do avanço científico, o estudo tem forte aplicação prática. Com base nos resultados, o IAC está preparando uma cartilha para orientar viveiristas e produtores sobre as melhores combinações entre clones e porta-enxertos. Os autores defendem também a criação de políticas que exijam a identificação do porta-enxerto na comercialização de mudas.

Os resultados apontam para uma mudança de paradigma na cultura da seringueira. Até agora, os programas de melhoramento focavam quase exclusivamente nos clones enxertados. O estudo mostra que isso é insuficiente.

Ao incorporar o porta-enxerto como componente ativo, abre-se a possibilidade de aumentar a produtividade, melhorar a adaptação a estresses (como seca), reduzir doenças e tornar a cultura mais competitiva.

O post Estudo revela erro que compromete a produção de látex em seringueiras clonadas apareceu primeiro em Canal Rural.



Source link

Deixe um comentário

O seu endereço de e-mail não será publicado. Campos obrigatórios são marcados com *