Score de risco produtivo é criado para aliviar pressão sobre inadimplência do agro

Em 2025, as empresas ligadas ao agronegócio foram responsáveis por 30,1% dos pedidos de recuperação judicial, conforme estudo da Serasa Experian divulgado na terça-feira (7). Por conta disso, instituições financeiras exigem de produtores cada vez mais salvaguardas à concessão de crédito rural.
Diante do cenário, a Picsel lançou uma nova tecnologia de avaliação de risco no agronegócio: o primeiro score de risco produtivo do mercado brasileiro.
A solução mede a capacidade produtiva das lavouras e oferece a bancos, cooperativas de crédito e empresas do setor uma nova camada de informação para apoiar decisões financeiras envolvendo produtores rurais.
Em suma, a ferramenta é semelhante aos tradicionais scores de crédito utilizados pelo sistema financeiro e incorpora variáveis diretamente ligadas à produção agrícola. De acordo com o CEO da empresa, Vitor Ozaki, a tecnologia analisa o comportamento produtivo das áreas agrícolas a partir de mais de 30 anos de dados históricos, avaliando até 30 safras agrícolas.
No modelo, as cinco safras mais recentes recebem maior peso na análise, permitindo que o indicador reflita com maior precisão as condições produtivas atuais das propriedades. Esse histórico utilizado no modelo cobre todo o território nacional e abrange as principais regiões agrícolas do país.
De acordo com Ozaki, a base de dados da solução contempla 100% da produção nacional de soja e milho, as duas principais culturas analisadas pela tecnologia. Juntas, essas culturas representam aproximadamente 88% da produção de grãos do país, o que permite que o modelo capture grande parte da dinâmica produtiva do agronegócio brasileiro.
Dívidas rurais

O lançamento do score para o campo ocorre em um cenário de maior fragilidade no financiamento do agro. Segundo dados do Banco Central, o volume de dívidas rurais renegociadas no país já alcança R$ 37 bilhões, enquanto a inadimplência do crédito rural chegou a cerca de 6,5% em 2025, mais que o dobro do nível registrado no ano anterior.
De acordo com especialistas do setor, custos elevados de produção, volatilidade nos preços das commodities agrícolas e eventos climáticos extremos que têm afetado a produtividade em diversas regiões do país ajudam a explicar o cenário de inadimplência.
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Diante da atual realidade, Ozaki acredita que o atual momento evidencia uma lacuna na forma como o risco é avaliado no agronegócio: a maior parte das análises ainda considera predominantemente informações financeiras e histórico de crédito, sem incorporar indicadores diretos da capacidade produtiva das propriedades rurais.
“O mercado financeiro sempre avaliou o produtor rural principalmente sob a ótica do crédito. Mas no agronegócio existe um fator determinante que muitas vezes não entra na equação: a capacidade de produzir. Quando ocorre uma quebra de safra, o impacto na capacidade de pagamento é imediato”, ressalta.
Geração do score
Para gerar o score, a solução integra diferentes fontes de informação, como imagens de satélite, dados climáticos históricos, informações de solo e bases públicas como MapBiomas e o Cadastro Ambiental Rural (CAR).
Assim, as análises utilizam a combinação de diferentes sistemas de satélites, incluindo modelos como o Sentinel e bases de dados da Nasa, além de informações meteorológicas, indicadores de produtividade, características de solo e tipo de cultura cultivada em cada área.
Segundo Ozaki, esses dados são processados por modelos proprietários de inteligência artificial que geram um índice único de risco produtivo. A análise é feita sobre áreas produtivas específicas, e não necessariamente sobre o produtor rural.
Isso significa que um mesmo produtor pode ter diferentes avaliações de risco associadas a cada uma de suas propriedades ou talhões agrícolas.
A avaliação resulta em uma pontuação entre 0 e 1000 pontos, em que valores mais altos indicam menor risco produtivo e maior estabilidade na produção agrícola.
Além da classificação de risco, a plataforma também entrega uma estimativa da capacidade produtiva média da área analisada, expressa em quilos por hectare, permitindo que instituições financeiras projetem com maior precisão o potencial de geração de receita das propriedades rurais.
Na prática, o indicador funciona como um termômetro de risco agrícola para bancos, fintechs, cooperativas de crédito, tradings e empresas da cadeia agroindustrial. A ideia é que, com essa informação, as instituições possam calibrar melhor suas políticas de concessão de crédito, ajustando taxas, exigindo garantias adicionais ou ampliando limites para produtores com menor risco produtivo.
A ferramenta também permite relacionar diretamente quebra de safra e inadimplência, informação que pode impactar processos como gestão de risco e provisionamento para perdas de crédito (PDD), além de tornar as análises financeiras mais aderentes à realidade do campo.
Segundo Ozaki, a incorporação da dimensão produtiva na avaliação de risco tende a transformar a forma como o mercado financeiro se relaciona com o agronegócio.
“Quando incluímos a capacidade produtiva na análise de risco, passamos a entender o produtor de forma muito mais completa. Isso permite calibrar melhor as operações financeiras e construir ofertas realmente adequadas ao perfil de cada produtor”, afirma.
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