Incertezas globais e eleições no Brasil cria cenário desafiador para o agro

O cenário mudou, e mudou rápido. O que antes permitia planejamento hoje exige cautela. O que era risco pontual virou um conjunto de pressões que vêm de todos os lados. Lá fora, as tensões geopolíticas encarecem insumos, energia e frete. Aqui dentro, os juros seguem elevados, o crédito mais seletivo e o clima cada vez mais imprevisível.
É muita coisa acontecendo ao mesmo tempo.
E, no meio disso tudo, há um fator que pesa ainda mais: a ausência de direção.
O Brasil entrou em um ambiente onde a política parece mais preocupada com a próxima eleição do que com os próximos anos. O governo trabalha sob a lógica da reeleição, enquanto o Congresso, preso à polarização, se distancia das urgências reais do país. O campo, que sustenta boa parte da economia, acaba ficando à margem desse debate. Não se vê, neste momento, um movimento claro de construção de uma rede de proteção para o produtor, e isso faz diferença, porque quando o risco aumenta e o amparo não vem, a responsabilidade recai toda sobre quem está dentro da porteira.
Quando o risco aumenta e o apoio não vem, a conta fica inteira com o produtor.
Na prática, isso significa uma coisa simples: o produtor está mais exposto.
Nos últimos anos, o agro viveu um ciclo positivo. Houve crescimento, investimento, avanço tecnológico. Mas os ciclos mudam — e esse movimento já começou a aparecer. O aumento dos pedidos de recuperação judicial no setor não é exagero; é um sinal de que o ambiente ficou mais apertado e que o erro passou a custar mais caro.
O problema hoje não é produzir, é errar num momento em que não há margem para erro.
E o ponto central é que ninguém tem clareza do que vem pela frente. Não dá para cravar o rumo dos juros, do dólar ou dos conflitos lá fora. Quando o cenário fica assim, tentar antecipar o mercado deixa de ser estratégia e passa a ser risco.
Por isso, o caminho volta ao básico: olhar para dentro da propriedade, entender bem os custos, trabalhar com a margem real e tomar decisões com mais segurança. Não é sobre parar, é sobre ajustar o ritmo. Talvez não seja o momento de expandir, mas é, sem dúvida, o momento de consolidar e proteger o que foi construído.
Em tempos de incerteza, preservar vale mais do que crescer.
Perder uma oportunidade de ganho faz parte do jogo. O que não pode acontecer é perder o patrimônio que sustenta toda uma história. O agro brasileiro já mostrou inúmeras vezes sua capacidade de atravessar momentos difíceis, e é essa lucidez, mais do que ousadia, que fará a diferença agora.
E aos candidatos que vão bater na porteira em busca de voto: o campo tem memória. Quem não esteve presente nos momentos difíceis dificilmente encontrará respaldo agora. Talvez seja hora de pensar menos na eleição e mais em quem mantém o Brasil de pé.
Porque os ciclos passam, as oportunidades voltam, mas só aproveita quem consegue permanecer. Neste momento, manter-se de pé, com equilíbrio, já é uma grande vitória.

*Miguel Daoud é comentarista de Economia e Política do Canal Rural
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