Veja onde o clima pode ameaçar lavouras nos próximos 3 meses
O novo prognóstico climático do Instituto Nacional de Meteorologia (Inmet) aponta cenários distintos para a agricultura brasileira entre agosto e outubro de 2026. Segundo dados divulgados pelo Inmet, o período deve ser marcado por chuvas abaixo da média e temperaturas elevadas em grande parte do Norte, Nordeste, Centro-Oeste e Sudeste, enquanto a Região Sul tende a registrar precipitações acima do padrão climatológico.
O cenário previsto para o trimestre agosto-setembro-outubro (ASO) exige atenção dos produtores, principalmente nas áreas de sequeiro e durante a transição para a safra de verão 2026/27. Ao mesmo tempo, o excesso de umidade esperado no Sul pode reduzir as janelas de trabalho no campo e aumentar a pressão de doenças nas lavouras.
Segundo dados divulgados pelo Inmet, o prognóstico foi elaborado a partir do modelo objetivo multimodelo desenvolvido em cooperação com o Centro de Previsão de Tempo e Clima do Instituto Nacional de Pesquisas Espaciais (CPTEC/INPE) e a Fundação Cearense de Meteorologia e Recursos Hídricos (Funceme).
No Norte, a previsão indica predominância de precipitações abaixo da média climatológica em grande parte da região. Em extensas áreas do Amazonas, Roraima e do Baixo Amazonas, os desvios podem chegar a 100 milímetros abaixo da média, enquanto no extremo norte de Roraima podem alcançar 200 milímetros.
As temperaturas também devem ficar acima da média em grande parte da região, com anomalias de até 3 °C no nordeste do Amazonas, sul de Roraima e áreas do sudoeste do Pará.
No início do trimestre, algumas áreas ainda apresentam boa disponibilidade de água no solo. Segundo dados divulgados pelo Inmet, os níveis podem superar 60% da capacidade de água disponível no noroeste do Amazonas, norte de Roraima, extremo norte do Amapá e áreas do nordeste do Pará.
Essa condição tende a favorecer as lavouras de milho de terceira safra em Roraima, que estarão em fases de floração e enchimento de grãos. Em Rondônia, Tocantins e grande parte do Pará, por outro lado, a menor disponibilidade hídrica e a maior frequência de períodos secos devem beneficiar a colheita do milho de segunda safra.
Ao longo do trimestre, porém, a água armazenada no solo tende a diminuir progressivamente. Em outubro, o déficit hídrico poderá superar 150 milímetros no norte de Roraima e no norte e leste do Pará.
A combinação entre estiagem e temperaturas elevadas pode aumentar o estresse hídrico e térmico em culturas perenes, como cacau, dendê, açaí e frutíferas, especialmente no centro e leste do Amazonas e no Pará. Nessas áreas, cresce a necessidade de irrigação suplementar, quando disponível.
O cenário também pode elevar o risco de incêndios em vegetação, com possíveis impactos sobre áreas agrícolas, pastagens e remanescentes de vegetação nativa.
No Nordeste, o Inmet prevê chuvas abaixo da média climatológica e temperaturas acima da média histórica durante o trimestre. Os maiores desvios de temperatura podem ocorrer no Maranhão, oeste da Bahia e sudoeste e sudeste do Piauí, com anomalias de até 2 °C.
A disponibilidade de água no solo tende a permanecer baixa em grande parte do interior nordestino e diminuir gradualmente durante o período. Na faixa litorânea entre o Rio Grande do Norte e a Bahia, o cenário inicialmente é mais favorável, mas os níveis de armazenamento também devem cair em outubro.
Segundo dados divulgados pelo Inmet, o déficit hídrico pode superar 150 milímetros em outubro no centro e leste do Maranhão, Piauí e áreas do Vale do São Francisco, na Bahia.
O cenário merece atenção para as lavouras de feijão e milho de terceira safra conduzidas em regime de sequeiro no SEALBA e no semiárido. Em fases sensíveis, como floração e enchimento de grãos, a restrição de água pode reduzir o pegamento das flores, o enchimento das vagens e o potencial produtivo.
No MATOPIBA, que inclui áreas do sul do Maranhão, sudoeste do Piauí e extremo oeste da Bahia, o tempo seco tende a favorecer a colheita do milho de segunda safra e do algodão, contribuindo para a secagem natural dos grãos e dos capulhos.
A persistência da deficiência hídrica, porém, pode dificultar o preparo das áreas agrícolas e o estabelecimento da safra de verão 2026/27, que depende do retorno mais regular das chuvas ao final do trimestre.
Nas áreas irrigadas do semiárido e do agreste, especialmente no Vale do São Francisco, culturas como manga e uva podem demandar mais irrigação. Com isso, o consumo de água e energia tende a aumentar, elevando os custos operacionais.
A pecuária extensiva também pode ser afetada pela restrição hídrica, com redução da oferta de forragem e maior necessidade de suplementação alimentar e manejo da dessedentação dos animais.
No Centro-Oeste, o prognóstico aponta chuvas abaixo da média e temperaturas acima do padrão histórico durante o trimestre. As anomalias de temperatura podem chegar a 2 °C em Goiás, Distrito Federal, Mato Grosso e Mato Grosso do Sul.
O tempo mais firme e seco deve favorecer a colheita do milho de segunda safra, algodão e sorgo, além da conclusão do ciclo de lavouras mais tardias, como trigo e feijão de terceira safra.
Segundo dados divulgados pelo Inmet, as condições devem facilitar as operações de campo e a secagem natural de grãos e capulhos, reduzindo perdas associadas ao excesso de umidade.
Por outro lado, a maior demanda evaporativa da atmosfera pode agravar a deficiência hídrica, principalmente em agosto e setembro, no norte de Mato Grosso e nas porções norte e nordeste de Goiás. Nessas áreas, o déficit pode superar 130 milímetros, enquanto o armazenamento de água no solo pode ficar abaixo de 20% da capacidade disponível.
As lavouras de trigo e feijão ainda em enchimento de grãos podem exigir maior atenção à irrigação suplementar, especialmente onde houver restrição hídrica.
O cenário também pode comprometer o desenvolvimento das pastagens, reduzir a disponibilidade de água para a pecuária e limitar a umidade necessária para o preparo do solo e a implantação da safra de verão 2026/27.
No sudoeste de Mato Grosso do Sul, a condição tende a ser mais favorável, com armazenamento de água no solo superior a 50% da capacidade disponível ao longo do trimestre.
No Sudeste, apenas o sul de São Paulo deve apresentar precipitações próximas da média climatológica. Para as demais áreas, a previsão indica chuvas abaixo da média, com maiores desvios negativos em grande parte de Minas Gerais, Rio de Janeiro e Espírito Santo.
As temperaturas devem permanecer acima da média em toda a região. Em grande parte de Minas Gerais e São Paulo, as anomalias podem variar entre 1 °C e 2 °C.
A disponibilidade de água no solo tende a permanecer elevada, acima de 70% da capacidade disponível, no sul e leste de São Paulo. Nas demais áreas, a atuação de massas de ar seco e períodos mais quentes deve contribuir para a manutenção ou intensificação do déficit hídrico.
Segundo dados divulgados pelo Inmet, a deficiência hídrica pode superar 30 milímetros em praticamente toda Minas Gerais, Espírito Santo e nas porções norte de São Paulo e Rio de Janeiro.
O cenário ganha importância porque o trimestre coincide com a transição entre a estação seca e o início do período chuvoso, além da preparação e implantação da próxima safra.
Em São Paulo, a semeadura da soja começa, em grande parte das áreas produtoras, a partir do fim de setembro. Em Minas Gerais, o plantio se concentra principalmente a partir de outubro.
A previsão de chuvas abaixo da média aumenta o risco de atraso na semeadura da soja em áreas de sequeiro. Também pode haver falhas de estande e necessidade de replantio caso a implantação ocorra com umidade inadequada no solo ou seja seguida por períodos prolongados de estiagem.
Na cafeicultura, a manutenção de condições secas em agosto tende a favorecer a indução e uniformização da dormência das gemas florais. Já chuvas irregulares em setembro e outubro, associadas a temperaturas elevadas, podem estimular floradas antecipadas e desuniformes.
Esse comportamento aumenta o risco de abortamento floral e pode comprometer a uniformidade do pegamento dos frutos.
Para o trigo, as condições previstas tendem a favorecer a conclusão do ciclo e a colheita em áreas de sequeiro do sul de São Paulo e em áreas irrigadas de Minas Gerais, desde que a disponibilidade hídrica permaneça adequada nas fases de maior demanda.
Na Região Sul, o cenário é oposto ao observado na maior parte do país. Segundo dados divulgados pelo Inmet, as precipitações devem ficar acima da média climatológica em praticamente toda a região, com exceção do oeste e norte do Paraná, onde os volumes devem permanecer próximos da média histórica.
Os maiores desvios positivos, entre 50 e 100 milímetros, são esperados no oeste e centro-sul de Santa Catarina. Na parte central do Rio Grande do Sul, as anomalias podem superar 100 milímetros.
As temperaturas também devem ficar acima da média em toda a Região Sul, com anomalias de até 1 °C no setor leste e entre 1 °C e 2 °C no oeste.
A combinação de temperaturas elevadas e maior volume de chuva deve garantir boa disponibilidade hídrica, mas pode reduzir a quantidade de dias secos disponíveis para as operações agrícolas.
Segundo dados divulgados pelo Inmet, o armazenamento de água no solo deve superar 70% da capacidade disponível em toda a Região Sul durante o trimestre. Apesar da boa oferta de água, o excesso hídrico exige atenção. Em agosto, os excedentes podem superar 100 milímetros no Rio Grande do Sul. Em setembro e outubro, áreas do estado, centro de Santa Catarina e sul do Paraná podem registrar excedentes superiores a 150 milímetros em cada mês.
A elevada umidade pode reduzir as janelas de manejo, dificultar o tráfego de máquinas e atrasar operações de adubação e aplicações fitossanitárias. Também aumenta o risco de doenças associadas ao prolongamento do período de molhamento foliar.
O impacto pode ser especialmente relevante para as culturas de inverno, que estarão em fases como florescimento, enchimento de grãos e maturação, além do início da colheita de trigo, cevada, canola e triticale.
Em agosto, o Rio Grande do Sul deve concentrar os maiores excedentes hídricos. A condição pode favorecer a disseminação de doenças fúngicas nas lavouras e exige maior atenção ao monitoramento fitossanitário e ao manejo.
Em setembro e outubro, a expansão das áreas mais úmidas pode interferir nas operações de colheita, reduzir os dias favoráveis ao trabalho de campo e dificultar o tráfego de máquinas em solos saturados.
A maior umidade também pode elevar o risco de atolamento de equipamentos, perdas qualitativas e aumento da umidade dos grãos colhidos.
O início da safra de verão também exige planejamento. Chuvas frequentes e episódios de maior intensidade podem limitar a entrada de máquinas, atrasar o preparo e a semeadura e prejudicar a emergência e o estabelecimento inicial de culturas como milho, arroz irrigado e soja.
Nas pastagens, o excesso de umidade, a elevada nebulosidade e a menor disponibilidade de radiação solar podem reduzir o crescimento e o rebrote das forrageiras. O manejo do pastejo também requer atenção para evitar o excesso de pisoteio em solos úmidos, que pode favorecer compactação e degradação da estrutura do solo.
O prognóstico para agosto, setembro e outubro mostra, portanto, que o principal desafio climático para o agronegócio brasileiro será regionalmente distinto. Enquanto o Norte, Nordeste, Centro-Oeste e Sudeste devem enfrentar maior pressão de déficit hídrico e temperaturas elevadas, o Sul terá de administrar o excesso de chuva e seus impactos sobre as operações agrícolas.
Para o produtor, a diferença entre os cenários reforça a necessidade de ajustar o planejamento conforme a região, a cultura e a fase do ciclo produtivo, considerando tanto a disponibilidade de água quanto as condições para entrada de máquinas, manejo fitossanitário, colheita e implantação da próxima safra.

