El Niño 2026/27 já é realidade
Segundo Gilberto Cunha, dados oceânicos e atmosféricos mais recentes confirmam o fenômeno em curso, que deve se intensificar até a primavera e influenciar o regime de chuvas em diferentes regiões do Brasil
O El Niño previsto para 2026/27 não é mais uma possibilidade, mas um fato confirmado por dados oficiais, afirma o engenheiro agrônomo Gilberto Cunha. Segundo ele, a atualização de 3 de agosto de 2026 do Centro de Previsão Climática dos Estados Unidos (CPC/NCEP/NOAA) mostra que a anomalia de temperatura da superfície do mar (TSM) na região Niño 3.4 — área de referência para o monitoramento do fenômeno — chegou a 1,5°C na última semana. Cunha destaca ainda que o Índice de Oscilação Sul (IOS), medido pelo Departamento de Meteorologia da Austrália (Bureau of Meteorology), ficou em -28,0 (ou -2,8, já que o serviço multiplica o valor por 10) nos 30 dias encerrados em 26 de julho.
Oceano e atmosfera “acoplados”
De acordo com Gilberto Cunha, El Niño é o nome dado ao aquecimento anormal das águas do Oceano Pacífico equatorial. Quando esse aquecimento ocorre junto com mudanças na pressão atmosférica entre as cidades de Tahiti e Darwin (Austrália), medidas pelo IOS, o fenômeno completo passa a ser chamado de El Niño – Oscilação Sul (ENOS). Segundo o engenheiro agrônomo, os dois componentes — o oceânico (El Niño) e o atmosférico (Oscilação Sul) — estão hoje em situação de acoplamento, ou seja, ocorrendo de forma conjunta e coerente.
Cunha cita ainda outros indicadores atmosféricos que reforçam esse cenário: os ventos alísios (correntes de ar que sopram regularmente sobre os oceanos tropicais) estão mais fracos ou invertidos, e os padrões de pressão e de nebulosidade também são compatíveis com o El Niño. Para ele, esse conjunto de evidências derruba a tese de que faltaria acoplamento entre oceano e atmosfera.
Intensidade “muito forte” e longa duração
Segundo Gilberto Cunha, grandes centros internacionais de meteorologia e institutos brasileiros — como o Instituto Nacional de Meteorologia (INMET) e o Centro de Previsão de Tempo e Estudos Climáticos (CPTEC/INPE) — apontam que o El Niño 2026/27 pode ser classificado como muito forte. Ele explica que a previsão é de crescimento em intensidade ao longo do segundo semestre de 2026, com ápice na primavera, podendo se estender até o outono de 2027.
O engenheiro agrônomo lembra que o El Niño de 1997-98 foi o mais forte registrado no século XX, seguido pelos eventos de 2015/16 e de 2023/24 — este último associado a impactos severos no Rio Grande do Sul.
O que pode acontecer em cada região do Brasil
Com base no padrão histórico do fenômeno, Cunha aponta possibilidades diferentes conforme a região do país, sempre no campo da previsão:
– Sul e parte do Sudeste: chuvas acima da média histórica.
– Centro-Oeste: ondas de calor, atraso no início da estação chuvosa e distribuição irregular das chuvas.
– Amazônia e Nordeste: tendência de seca, sendo que, no caso do Nordeste, o resultado também depende da configuração do Dipolo do Atlântico (padrão de diferença de temperatura entre as águas do norte e do sul do Oceano Atlântico Tropical, que influencia o regime de chuvas na região).
Para o engenheiro agrônomo, essas anomalias climáticas podem ser preocupantes, mas não devem ser tratadas como paralisantes.
E para o agronegócio?
Segundo Gilberto Cunha, o acompanhamento de fenômenos como o El Niño tem relação direta com o planejamento da atividade agropecuária, já que chuvas acima ou abaixo do padrão, atrasos na estação chuvosa e ondas de calor afetam diretamente o calendário de plantio, a disponibilidade hídrica das lavouras e a logística da produção nas diferentes regiões do país. Por isso, ele defende que a previsão climática baseada no El Niño – Oscilação Sul deve ser tratada como informação estratégica, capaz de ajudar produtores e autoridades a reduzir prejuízos e aproveitar melhor as condições favoráveis, em vez de ser ignorada ou colocada em dúvida.
O engenheiro agrônomo faz ainda uma reflexão histórica sobre esse aprendizado: no livro “Once Burned, Twice Shy?” (“Gato escaldado tem medo de água fria?“), do sociólogo Michael Glantz, publicado em 2001 pela The United Nations University, a pergunta do título questiona se a sociedade realmente aprendeu, com a experiência do El Niño de 1997-98, a lidar melhor com o fenômeno nas vezes seguintes.

