Como reduzir terra e pedras na cana colhida
A presença de terra, areia, pedras e torrões na cana-de-açúcar colhida continua sendo um dos principais desafios para as usinas, porque aumenta o desgaste da moenda, reduz o rendimento industrial e eleva os custos de transporte e manutenção. O problema é influenciado principalmente pelas condições de colheita mecanizada, pela regulagem da frente de corte e pelo manejo do solo e do trânsito de máquinas ao longo do ciclo da lavoura.
Em regiões com mecanização consolidada, como São Paulo, Goiás, Minas Gerais, Mato Grosso do Sul e Paraná, a colheita sem queima é predominante, o que exige maior precisão no ajuste das colhedoras para limitar a quantidade de solo recolhida junto aos colmos. Pequenos aumentos no teor de impurezas minerais podem reduzir o ATR efetivamente aproveitado na usina, aumentar o consumo de energia na moagem e acelerar o desgaste de facas, moendas, transportadores e outros equipamentos.
As impurezas minerais entram no processo principalmente durante o corte de base, quando facas trabalham abaixo da superfície do solo ou arrancam toletes com grande quantidade de terra aderida. O problema também se intensifica quando a colheita ocorre em áreas muito úmidas, com lama sendo carregada pelas rodas e esteiras da máquina, e durante o transporte em estradas internas degradadas ou encharcadas.
O impacto industrial é direto. Parte da carga recebida pela usina deixa de ser cana aproveitável e passa a ser solo, o que reduz a capacidade efetiva de moagem e aumenta as perdas de açúcar durante os processos de limpeza. A presença de sólidos insolúveis também dificulta etapas de clarificação e filtragem do caldo, exigindo mais ajustes operacionais.
Para identificar se o problema está acima do aceitável, as usinas costumam acompanhar as análises de recebimento da matéria-prima e comparar os níveis de impurezas entre diferentes frentes de corte, talhões, operadores e regulagens de máquina. A observação visual da base dos colmos cortados, da presença de torrões nos transbordos e do desgaste anormal de componentes da colhedora também ajuda a indicar excesso de contaminação mineral.
A regulagem do corte de base é considerada uma das medidas mais importantes para reduzir a entrada de solo. O objetivo é cortar o colmo o mais baixo possível, mas sem penetrar excessivamente no solo nem arrancar raízes e toletes. A altura de corte, a pressão dos rolos de base e a relação entre velocidade de avanço e rotação das facas precisam ser ajustadas conforme o tipo de solo, o relevo e o estado do canavial.
A velocidade da colhedora também influencia diretamente a quantidade de terra recolhida. Em solos muito soltos, pedregosos ou úmidos, velocidades elevadas aumentam o arraste de solo para dentro da máquina. Por isso, a recomendação é adequar o ritmo da operação às condições do terreno e evitar a colheita em áreas saturadas por chuva, especialmente nos períodos mais chuvosos da safra.
Outro ponto decisivo é a regulagem dos extratores primário e secundário, responsáveis pela limpeza a seco da cana dentro da colhedora. Rotações muito altas removem mais palha e parte das impurezas, mas podem expulsar fragmentos de colmos e aumentar perdas de matéria-prima. Rotações muito baixas, por outro lado, deixam passar mais terra e palhiço. O ajuste precisa buscar equilíbrio entre limpeza e preservação da cana picada.
O manejo do trânsito de máquinas ao longo do ciclo da lavoura também tem efeito acumulativo sobre a contaminação mineral. Concentrar o tráfego em faixas permanentes reduz o revolvimento do solo na linha de cana, diminuindo a quantidade de terra disponível para ser arrastada pela colhedora. Sulcos muito profundos, áreas mal niveladas e pontos com erosão tendem a aumentar o problema.
O planejamento da frente de colheita pode ajudar a reduzir a contaminação, principalmente em períodos chuvosos. Talhões com melhor drenagem e estrutura de solo mais estável costumam ser priorizados, enquanto áreas mais suscetíveis à formação de lama podem ser deixadas para janelas mais secas. A definição das rotas de transporte também é importante para evitar atolamentos e excesso de terra carregada pelos caminhões.
A redução das impurezas não depende apenas da colhedora. Variedades com colmos mais eretos facilitam um corte mais limpo, a manutenção da palhada ajuda a proteger o solo contra erosão e o preparo adequado da área contribui para uma superfície mais uniforme e compatível com a colheita mecanizada.
Os ajustes em colhedoras e sistemas de limpeza devem seguir as recomendações do fabricante e as normas de segurança do trabalho. Treinamento dos operadores, uso de equipamentos de proteção individual e acompanhamento técnico da usina e da equipe agronômica são considerados fundamentais para manter a qualidade da matéria-prima ao longo da safra.
Em resumo, a combinação de canaviais bem formados, colheita em condições adequadas de umidade do solo, regulagem precisa do corte de base e dos extratores e monitoramento constante da qualidade da cana recebida pela usina é a estratégia mais eficiente para reduzir a entrada de terra e pedras no processo industrial, preservar o ATR e diminuir o desgaste dos equipamentos. O conteúdo tem caráter informativo e não substitui a avaliação de um engenheiro agrônomo em condições reais de campo.

