Análise de solo é como exame de sangue, diz especialista em trigo
Especialista explica que decisões tomadas antes da semeadura, como escolha de cultivar e análise física do solo, pesam mais na produtividade do que apenas seguir a média histórica da região
Decidir o manejo do trigo com base apenas na média histórica de produtividade da região pode não ser suficiente para garantir uma boa safra. É o que avalia o engenheiro agrônomo e doutor em Agronomia Ubirajara Fontoura, para quem fatores genéticos, ambientais e de manejo precisam ser analisados em conjunto para que a lavoura expresse seu potencial produtivo máximo na safra 2026/2027.
Segundo Fontoura, a produtividade do trigo pode ser observada por meio de três componentes principais: o número de espigas por unidade de área, o número de grãos por espiga e a massa média dos grãos, medida comumente pelo peso de mil grãos. Além da produtividade, o especialista destaca que a qualidade do grão também precisa ser considerada, já que existem variedades desenvolvidas para finalidades distintas, como produção de farinha para pão, massas, biscoitos, alimentação animal ou uso industrial.
Um dos pontos centrais levantados por Fontoura é o perfilhamento, processo de emissão de novos colmos que ocorre na fase vegetativa da planta. De acordo com o especialista, essa é uma característica genética da cultivar, mas que depende de condições ambientais adequadas para se expressar plenamente. “Essa capacidade de perfilhamento das variedades é basicamente uma característica genética, mas, para que ela se complete e mostre sua máxima capacidade, precisamos ter os fatores ambientais adequados”, afirma.
Entre esses fatores ambientais, o agrônomo cita o solo, a disponibilidade de água, a radiação solar, a temperatura, o fotoperíodo (comprimento do dia) e outros componentes climáticos, como ventos e variações bruscas de temperatura. Fontoura reforça que variedades desenvolvidas para regiões de clima temperado, como o Rio Grande do Sul, não têm o mesmo desempenho quando levadas para áreas de clima subtropical ou tropical, caso da transição entre Paraná e Mato Grosso do Sul até o Norte e o Nordeste do país. Segundo ele, a pesquisa vem trabalhando no desenvolvimento de variedades com maior capacidade de perfilhamento voltadas a essas regiões, principalmente quando associadas ao uso de irrigação.
Adubação e densidade de plantas exigem cautela
A prática de aumentar a adubação e a densidade de plantas para tentar elevar a produtividade, comum entre produtores, precisa ser avaliada com cuidado, segundo o especialista. Fontoura explica que a dosagem de nutrientes, especialmente nitrogênio, deve ser ajustada conforme a capacidade de perfilhamento da cultivar escolhida. “Em variedades com baixo potencial de perfilhamento, não adianta apertar na dose de nitrogênio para tentar resolver a situação, porque, se não tivermos planta, não vamos ter esse resultado positivo”, afirma.
O agrônomo alerta ainda que o excesso de adubação nitrogenada, sem o devido equilíbrio com outros nutrientes, como o potássio, pode gerar plantas mais fracas e suscetíveis ao acamamento. Segundo ele, o potássio participa da formação da estrutura da planta, e a relação entre os diferentes nutrientes aplicados precisa ser mantida em dosagens adequadas para evitar esse tipo de problema.
Para o planejamento da próxima safra, Fontoura destaca a importância da análise de solo como ferramenta de diagnóstico, indo além da avaliação química tradicionalmente feita pelos produtores. “A análise de solo é um diagnóstico primário. Eu sempre a comparo à ida ao médico: além do exame visual da nossa situação de saúde, uma das primeiras coisas que ele pede é o exame de sangue. Então, eu igualo a esse exame de sangue à análise de solo”, compara o especialista.
De acordo com Fontoura, a análise de solo deve contemplar tanto os aspectos químicos quanto os físicos. Camadas de compactação ou adensadas prejudicam o desenvolvimento do sistema radicular, fazendo com que as raízes cresçam lateralmente em vez de se aprofundarem verticalmente, o que compromete o aproveitamento de água e nutrientes. O especialista também chama atenção para a presença de alumínio tóxico, comum em solos com pH abaixo de 5 a 5,5, que prejudica o desenvolvimento das raízes e reduz a capacidade de absorção de nutrientes pela planta. Segundo ele, a presença adequada de cálcio e fósforo é importante para o bom desenvolvimento radicular, e ao todo cerca de 17 nutrientes são considerados relevantes para o desenvolvimento das plantas.
Irrigação exige variedades específicas e manejo equilibrado
A disponibilidade de água é outro fator determinante apontado por Fontoura, especialmente diante da expansão da triticultura para regiões subtropicais e tropicais por meio da irrigação. O agrônomo alerta que utilizar em áreas irrigadas do Norte e Nordeste variedades desenvolvidas para o Rio Grande do Sul não resolve o problema, já que é necessário utilizar cultivares específicas para essa condição. Segundo ele, a Embrapa vem desenvolvendo programas de melhoramento genético voltados à obtenção de variedades adaptadas à irrigação, com resultados que já alcançaram produtividade acima de 9 toneladas por hectare no Nordeste, quando associadas ao uso correto da tecnologia.
Mesmo nesses cenários de alta produtividade, o especialista pondera que outros fatores exigidos pela planta, como a fertilidade do solo, também precisam ser controlados. Na região Sul, ele cita o excesso de chuvas em períodos como a maturação e o final do ciclo da cultura como fator que favorece a ocorrência de doenças fúngicas, podendo causar germinação do grão ainda na espiga e dificultar a colheita.
Fontoura também aborda os riscos climáticos relacionados a geadas durante o espigamento e o florescimento do trigo, situação recorrente na região Sul do país. Segundo o especialista, as geadas provocam danos físicos à planta por meio do congelamento da seiva, o que causa estrangulamento dos tecidos e abortamento de flores, prejudicando a circulação de nutrientes. Como estratégia para reduzir esse risco, ele cita o exemplo de Mato Grosso do Sul, onde o plantio é concentrado em março e abril justamente para que o florescimento e o enchimento de grãos ocorram fora do período de maior incidência de geadas.
Planejamento antecipado é indicado para a safra 2026/2027
Ao tratar das decisões que devem ser tomadas neste momento, pensando na safra 2026/2027, Fontoura defende que o planejamento da atividade seja feito com antecedência, e não apenas na época da semeadura. Segundo o especialista, o produtor precisa avaliar previamente se está capacitado para atender às exigências da lavoura, considerando os custos com fertilizantes, sementes e defensivos, apontados por ele como os principais componentes do custo de produção da triticultura.
Fontoura recomenda que, na implantação da cultura, o produtor leve em conta o zoneamento de riscos climáticos definido para cada região, que envolve a combinação entre variedade, solo e época de semeadura. Segundo ele, essa combinação deve ser calibrada com o nível de manejo que será adotado, incluindo dosagens de fertilizantes, necessidade de adubação de cobertura com nitrogênio e eventual uso de micronutrientes, informações que podem ser obtidas por meio da análise de solo.
O especialista pontua que, embora tenha abordado de forma geral os fatores genéticos, ambientais e de manejo que influenciam o potencial produtivo do trigo, o tema comporta um detalhamento mais aprofundado, especialmente em relação às técnicas de manejo, que poderá ser explorado em uma próxima conversa.

