quinta-feira, junho 18, 2026
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Produtor de cacau tem 3 oportunidades para enfrentar margens apertadas


cacau
Foto: Pixabay

Nos últimos dois anos, os produtores de cacau viveram uma situação incomum. A forte redução da oferta mundial, provocada principalmente por problemas climáticos e fitossanitários em países africanos, elevou as cotações internacionais a níveis históricos. Em determinado momento, a tonelada do cacau chegou a ser negociada acima de US$ 13 mil.

No entanto, a realidade mudou rapidamente. Em 2026, os preços recuaram de forma significativa, gerando preocupação entre produtores brasileiros, especialmente os pequenos e médios, que ampliaram investimentos quando o mercado estava aquecido e agora enfrentam margens mais apertadas.

O Brasil ocupa posição de destaque na produção mundial de cacau, com cultivos concentrados no sul da Bahia e em expansão no Pará. Além da importância econômica, a atividade possui relevante função ambiental, sobretudo no sistema conhecido como cabruca, em que o cacaueiro é cultivado sob a sombra de árvores nativas da Mata Atlântica.

A principal questão é que o produtor de cacau continua excessivamente dependente das oscilações do mercado internacional. Quando os preços sobem, a renda melhora. Quando caem, muitos enfrentam dificuldades para manter a atividade.

Previsibilidade para investir

É possível construir mecanismos que ofereçam maior previsibilidade ao setor. Pontuo três alternativas:

  1. Fortalecer a política de garantia de preços mínimos, assegurando remuneração compatível com os custos de produção em períodos de baixa das cotações;
  2. Incentivar contratos de longo prazo entre produtores e a indústria de chocolates, estabelecendo volumes, padrões de qualidade e faixas mínimas de remuneração. Isso reduziria a exposição às oscilações diárias das bolsas internacionais.
  3. Criação de um programa de compras institucionais de derivados de cacau. Produtos à base de cacau poderiam integrar a alimentação escolar, hospitais públicos, quartéis e programas de segurança alimentar. Essa demanda permanente ajudaria a sustentar a renda dos produtores e estimularia o processamento nacional.

Preservar a floresta também gera valor

Além disso, os produtores que preservam florestas por meio do cultivo em cabruca poderiam ser remunerados por serviços ambientais, reconhecendo o papel da atividade na conservação da biodiversidade.

O desafio do setor cacaueiro não é apenas alcançar preços elevados em momentos de escassez mundial. O verdadeiro objetivo deve ser garantir estabilidade econômica para que os produtores continuem investindo, gerando empregos e preservando áreas florestais.

Mais do que uma commodity agrícola, o cacau brasileiro pode se consolidar como um produto associado à sustentabilidade, à agregação de valor e ao desenvolvimento regional. Para isso, é necessário criar instrumentos que permitam ao produtor planejar o futuro com maior segurança e menor dependência das oscilações do mercado internacional.

O produtor de cacau não precisa de euforia passageira. Precisa de renda previsível para continuar produzindo, preservando e investindo.

Miguel Daoud

*Miguel Daoud é comentarista de Economia e Política do Canal Rural


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