‘A gente não dorme mais’: produtores do RS temem que renegociação de dívidas não seja aprovada pelo Senado

Produtores rurais do Rio Grande do Sul acompanham com cautela e desânimo a tramitação do PL 5122, projeto que prevê a renegociação das dívidas acumuladas após sucessivas perdas provocadas pelo clima no estado. O setor teme que, sem a aprovação da proposta no Senado, a próxima safra seja fortemente impactada pela falta de acesso ao crédito rural.
O Rio Grande do Sul enfrenta problemas climáticos recorrentes há pelo menos seis safras consecutivas. Nesse período, produtores realizaram protestos, tratoraços em diferentes regiões do estado e até manifestações durante a Expodireto Cotrijal, uma das maiores feiras do agronegócio do país, em busca de uma solução para o endividamento no campo.
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Segundo a Federação da Agricultura do Estado do Rio Grande do Sul (Farsul), o volume de dívidas consideradas “estressadas”, aquelas com baixa capacidade de pagamento sem medidas emergenciais, já ultrapassa R$ 90 bilhões.
Apesar da expectativa em torno do PL 5122, produtores afirmam que as alterações feitas no texto durante a tramitação reduziram o alcance da proposta e dificultaram o acesso à renegociação.
De acordo com a Confederação da Agricultura e Pecuária do Brasil (CNA), o Rio Grande do Sul deixou de colher quase 49 milhões de toneladas de grãos nos últimos cinco ciclos produtivos em razão dos problemas climáticos. O impacto também provocou perda de competitividade do estado no cenário nacional.
O Rio Grande do Sul, que já ocupou a posição de vice-líder nacional na produção de soja, caiu para o quarto lugar. Para a próxima safra, a expectativa é de redução de até 30% na área plantada de trigo devido à dificuldade de acesso ao crédito.
“Juros abusivos até hoje, custos elevadíssimos agora na lavoura, muitos já venderam maquinários, venderam patrimônios para tentar manter o seu nome limpo e continuar na atividade. Agora nós precisamos de ajuda, precisamos da PL 512 para conseguir um fôlego para nos levantar novamente”, afirma Daniel Grotto, produtor rural de Tapera (RS).
A expectativa dos agricultores é que o projeto permita alongar prazos e reduzir os custos financeiros das dívidas acumuladas nos últimos anos.
“A PL vem para nos auxiliar e continuar o nosso trabalho. Assim a gente vai poder quitar essas dívidas antigas e vamos ter prazo, tempo e juros adequados pra gente poder fazer novamente o pagamento dessas parcelas, com uma carência. Porque faz seis anos aí que a gente não tem produto, a gente não consegue ter produção”, diz Luciane de Lima, produtora rural de Nicolau Vergueiro (RS).
Além das perdas produtivas, produtores relatam impactos emocionais provocados pelo endividamento crescente e pela pressão financeira.
“Então a gente vem com extrema dificuldade, a gente já não dorme mais, usa remédio para conseguir manter a ansiedade. É todo dia cobrança e cobrança. Os bancos não tão nem aí com juros abusivos. A gente pegou até assessoria jurídica para fazer cálculos. Teve juros de 35% em cima das contas que a gente tinha aberto no banco com essas CPRs abusivas”, relata Adelir Glienke, produtor rural de Victor Graeff (RS).
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