Produtor precisará entregar mais soja para pagar insumos
Os impactos da geopolítica mundial, da desvalorização do dólar e da alta dos fertilizantes dominaram as discussões do ENSSOJA 2026. Durante palestra no evento, o sócio-diretor da Agroconsult, André Pessoa, alertou para um cenário de pressão crescente sobre a rentabilidade do produtor rural brasileiro, mesmo diante de mais uma safra recorde de soja.
Segundo ele, parte da sustentação atual dos preços da soja não está ligada diretamente aos fundamentos tradicionais de oferta e demanda, mas sim aos efeitos macroeconômicos provocados pelo cenário internacional.
“A desvalorização do dólar promove uma inflação de commodities. Parte do preço que a soja tem hoje não é porque mudou a oferta e a demanda, mas porque o dólar se desvalorizou contra qualquer moeda”, explicou durante a apresentação no ENSSOJA 2026.
De acordo com a análise apresentada, se o dólar tivesse hoje a mesma força frente às moedas globais observada há um ano, os preços da soja precisariam recuar quase 10% para representar o mesmo valor real.
Além do câmbio, os conflitos geopolíticos também têm sustentado volatilidade no mercado internacional. A insegurança sobre abastecimento global, energia e fertilizantes acabou adicionando um componente extra de incerteza às commodities agrícolas.
No campo, o Brasil registrou mais uma safra histórica. Segundo os dados apresentados por André Pessoa, o país cultivou cerca de 49 milhões de hectares de soja e deve colher quase 185 milhões de toneladas, com produtividade média próxima de 63 sacas por hectare.
Mesmo com uma produção recorde, os estoques finais permaneceram relativamente apertados nos últimos anos, variando entre 5 e 7 milhões de toneladas na virada das temporadas.
No entanto, o cenário para 2025/26 começa a mudar. Com os Estados Unidos novamente ativos no mercado internacional desde dezembro, a oferta global ganhou força. Ainda assim, o Brasil deverá exportar volumes recordes, estimados em pelo menos 112 milhões de toneladas, além de registrar processamento doméstico acima de 61 milhões de toneladas.
Apesar disso, a expectativa é que o país encerre o ciclo com estoques maiores pela primeira vez em três ou quatro anos.
“Chicago subiu, mas o câmbio e o prêmio tiraram o que Chicago nos deu”, resumiu André Pessoa ao comentar a dificuldade de reação dos preços internos.
Em regiões produtoras como Sorriso, no Mato Grosso, as cotações praticamente ficaram estáveis ao longo da safra, variando de cerca de R$ 101 para R$ 103 por saca.
Ao mesmo tempo, os custos de produção seguem pressionados. O esperado era que o dólar mais baixo reduzisse os preços de fertilizantes e defensivos em reais. Porém, a escalada dos conflitos no Oriente Médio elevou os custos internacionais dos insumos e anulou parte desse efeito cambial.
Segundo a análise apresentada no ENSSOJA 2026, apenas os impactos do conflito internacional já representam um aumento mínimo equivalente a 1,5 saca de soja por hectare no custo da próxima safra.
As relações de troca também pioraram. Dependendo da região do país, o produtor precisa comprometer entre 3 e 6 sacas adicionais para adquirir os mesmos insumos básicos da safra passada.
Entre os fertilizantes, André Pessoa destacou preocupação maior com o fósforo, considerado o problema mais estrutural no momento. Isso porque o produto depende diretamente do enxofre, cujo abastecimento global passa por regiões afetadas pelas tensões no Oriente Médio.
“O enxofre há dois ou três anos era menos de 100 dólares a tonelada. Hoje está em 1.000 dólares”, afirmou.
Outro alerta feito durante o painel no ENSSOJA 2026 envolve a mudança de estratégia das empresas de fertilizantes. Após prejuízos registrados durante a guerra da Ucrânia, muitas companhias passaram a importar apenas produtos já vendidos e contratados previamente pelos produtores.
Na prática, isso reduz a formação de estoques antecipados e aumenta os riscos logísticos caso haja agravamento dos conflitos internacionais ou atraso nas compras da próxima safra.

