terça-feira, abril 28, 2026
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Pesquisa inédita revela que remineralizadores reduzem efeito estufa em pastagens no Cerrado


Estudo em pastagens do Cerrado mostrou que remineralizadores à base de rochas silicáticas podem reduzir as emissões de gases de efeito estufa do solo quando comparados ao fertilizante convencional à base de potássio. Entre as fontes testadas, a biotita xisto apresentou o menor potencial de aquecimento global no período monitorado.

A técnica que utiliza rochas moídas para combater o aquecimento global teve sua eficácia conformada no bioma Cerrado. Pesquisa pioneira conduzida pela Embrapa Cerrados e pela Universidade de Brasília (UnB) comprovou que os remineralizadores de solo – conhecidos popularmente como “pós de rocha” – podem reduzir a emissão de gases de efeito estufa (GEEs) de pastagens, validando resultados antes observados apenas em clima temperado.

Foram testados dois tipos de pós de rocha: o basalto e a biotita xisto. A biotita xisto apresentou a menor emissão de gases de efeito estufa – quatro vezes menos em comparação com o fertilizante comercial cloreto de potássio (KCl). Foram 82 contra 415 quilos de dióxido de carbono (CO2) equivalente por hectare. Os resultados foram publicados na revista internacional Agronomy.

A mitigação das emissões de GEE é um dos desafios da agropecuária no bioma Cerrado. Na pecuária, o metano resultante da digestão dos alimentos pelos animais e o óxido nitroso emitido pelo uso de fertilizantes nitrogenados e manejos da pastagem contribuem para o efeito estufa. O óxido nitroso, embora menos conhecido que o dióxido de carbono (CO2), apesar de ser emitido em menor concentração, é quase 300 vezes mais potente para o aquecimento do planeta.

No Brasil, as pastagens ocupam cerca de 155 milhões de hectares, o que confere ao setor um papel estratégico, tanto no problema quanto na solução. Práticas que aumentem a eficiência do uso de nutrientes, promovam o sequestro de carbono no solo e reduzam perdas na forma de gases são consideradas fundamentais para viabilizar uma agropecuária de baixo carbono.

Novas alternativas para a pecuária

Diferente dos fertilizantes convencionais, como o cloreto de potássio (KCl), apesar de terem efeito imediato, os remineralizadores têm menor pegada ambiental, já que são obtidos pela moagem de rochas silicáticas, sem processos químicos.

Sobre o estudo realizado, Marcus Vinícius dos Santos, engenheiro agrônomo, bolsista da Embrapa e primeiro autor do artigo, destaca os resultados como positivos: “Registramos uma das menores emissões de óxido nitroso [N2O] com o uso da biotita xisto na dose, de 151 toneladas por hectare”.

Já a pesquisadora da Embrapa Cerrados e orientadora do estudo, Alexsandra de Oliveira, ressaltou o potencial desses materiais para o alcance de uma agricultura ambientalmente mais sustentável. “Estamos buscando alternativas que possam reduzir a dependência dos fertilizantes sintéticos importados que usamos para a adubação das pastagens, cuja produção, transporte e aplicação deixam elevadas pegadas ambientais. Com esses resultados, vimos que os remineralizadores demonstram potencial de reduzir as emissões de gases efeito estufa”, sustenta.

Os testes foram realizados em um experimento de longa duração, instalado em 2015 na área experimental da Embrapa Cerrados, em Planaltina (DF), com pasto de capim braquiária (Urochloa brizantha), cultivar BRS Paiaguás, forrageira desenvolvida pela Embrapa e uma das mais utilizadas na pecuária tropical brasileira. Naquele ano foram aplicados a biotita xisto e o basalto.

Durante seis meses, entre 2024 e 2025, a equipe utilizou câmaras instaladas no solo para capturar e medir cada micrograma (um milionésimo da grama) de gás emitido pela terra – óxido nitroso (N2O), metano (CH4) e dióxido de carbono (CO2). As medições contemplaram os períodos seco, a transição entre períodos e o chuvoso.

Os experimentos foram conduzidos com simulação de pastoreio, sem a utilização de animais. Após colheita do milho, os resíduos da lavoura foram removidos e feitos cortes para promover a rebrota do pasto.

Já o basalto, foi testado em duas doses: 8,3 toneladas por hectare e 40 toneladas por hectare. Os resultados mostraram que a primeira se mostrou mais eficiente, registrando um estoque de nitrogênio superior quando comparado aos demais tratamentos.

Outro ponto de atenção foi o aumento das emissões em período de chuva, quando foram registrados picos de emissão de óxido nitroso e gás carbônico, o que não ocorreu na época seca.

Além das emissões, foram avaliadas outras variáveis ambientais – temperatura e umidade do solo e teores de nitrato e amônio – fatores que atuam na modulação do comportamento dos GEEs. Além disso, foi acompanhada a atividade das enzimas relacionadas aos ciclos do carbono e do enxofre, como indicadores de saúde do solo, utilizados pela Bioanálise do Solo (BioAS).

O tratamento com a menor dose de basalto (8,3 toneladas por hectare) permitiu observar maiores estoques de carbono no solo, quando comparado aos demais tratamentos e ao controle. Essa também foi a opção com o melhor resultado para o estoque de nitrogênio. O nitrogênio impacta diretamente o sistema pecuário, podendo causar perdas de produtividade, além de danos ambientais.

O estudo mostrou ainda que a atividade das enzimas do solo avaliadas – arilsulfatase e ß-glicosidase – não apresentou diferenças significativas entre os tratamentos, seja com remineralizadores ou com o adubo convencional. Para os pesquisadores, esse resultado indica que os remineralizadores promovem mudanças graduais no solo, sem causar desequilíbrios biológicos. “A estabilidade da atividade enzimática sugere que o sistema mantém sua funcionalidade ao longo do tempo, o que é um indicativo importante de sustentabilidade ambiental”, destaca a pesquisadora da Embrapa Cerrados.

Caminho para menor emissão de gases efeito estufa em pastagens

Além do potencial ganho ambiental, o pó de rocha é um produto nacional. Atualmente, o país importa cerca de 95% do potássio que utiliza, principalmente da Rússia. Já o pó de rocha pode ser encontrado em território nacional, com fontes próximas às áreas rurais. “Cada lugar tem sua pedreira”, reforça, lembrando que o biotita xisto e o basalto são abundantes em diversos estados brasileiros, como Goiás, Minas Gerais e Mato Grosso.

“Os resultados reforçam que a transição para sistemas de pecuária de baixo carbono passa não só por ‘trocar o insumo’, mas por escolher a fonte certa e ajustar a dose para maximizar benefícios e evitar efeitos colaterais”, conclui Oliveira.





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