segunda-feira, abril 27, 2026
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Queda do dólar e perda de força dos EUA: o impacto no agro brasileiro


Close-up do dólar
Foto: Freepik

Perto do fim da Segunda Guerra Mundial, em 1944, potências globais decidiram que o sistema financeiro precisava de maior fluidez. Até então, o valor do dinheiro era lastreado no ouro — com o Padrão-Ouro, cada nota emitida precisava ter um equivalente em metal guardado em um cofre.

Em Bretton Woods, no estado de New Hampshire, nos Estados Unidos, delegados de 44 nações aliadas do governo norte-americano definiram que o dólar seria a única moeda conversível em ouro. Foi a criação do chamado Padrão Dólar-Ouro. De lá para cá, o dólar se consolidou no comércio internacional e se transformou na principal moeda de reserva do mundo.

Mais de 80 anos depois, o cenário em que o dólar está inserido é diferente. Em destaque, a saída recorde de capitais do mercado de títulos norte-americano e o aumento da dívida e da inflação no país. O índice DXY, que mede a força do dólar contra uma cesta de moedas principais, caiu de níveis acima de 100 no início do mês para cerca de 98,34 em 27 de abril.

Desvalorização: estratégia ou tiro no pé?

Segundo o presidente dos Estados Unidos, Donald Trump, um dólar excessivamente valorizado prejudica as exportações e acelera a desindustrialização do país. O que o governo norte-americano quer, na prática, é tornar os produtos “Made in USA” mais baratos e competitivos no exterior.

Fernando Berardo, chefe de Commodities da Barchart no Brasil, classifica o movimento de Trump como relevante, mas sem risco do ponto de vista da segurança econômica global.

“Isso já havia ocorrido alguns anos atrás e se estendeu no segundo governo do presidente Donald Trump. A própria China, desde cerca de 2010, começou a vender parte das suas posições em títulos do Tesouro americano, migrando principalmente para ouro”, diz.

Apesar de não ser exatamente uma surpresa para o mercado financeiro, o especialista aponta uma deterioração do “soft power” dos Estados Unidos, minando a influência do país perante o mundo. “Na minha visão, não está claro qual é a estratégia do governo americano, mas o efeito é uma desvalorização da moeda com perda de credibilidade”, afirma.

Berardo também cita a relação direta da guerra no Oriente Médio — iniciada por EUA e Israel contra o Irã — como um fator decisivo para a desvalorização do dólar. Segundo ele, os investidores não reagem bem a conflitos e tensões geopolíticas. “O mercado financeiro não gosta de incerteza”, pontua.

Diante desse cenário, outros ativos e moedas emergentes acabam ganhando relevância. “O Brasil aparece como um porto relativamente seguro”, explica o especialista. A taxa de juros elevada também contribui para a valorização do real, bem como os impactos limitados do conflito no Oriente Médio na economia brasileira.

O ‘tombo’ do dólar e o impacto nos preços agrícolas

Mas afinal, o que o enfraquecimento da moeda tem a ver com a economia e o agronegócio brasileiro? Carlos Cogo, consultor em agronegócios, explica que o exemplo da soja é o melhor para demonstrar o forte tombo do dólar e o impacto sobre os preços.

“Desde o início de 2025, em dólares ao produtor brasileiro, a soja subiu 10%”, afirma.

O resultado, contudo, não é tão positivo quanto se imagina. De acordo com ele, nesse mesmo período o câmbio recuou 20%, fazendo com que o preço ao produtor brasileiro acumulasse queda de 12%. Isso significa que com a queda do dólar e a consequente valorização do real, o lucro acabou sendo diluído na conversão.

Em 2026, o cenário ficou ainda mais crítico, quando o dólar registrou um novo recuo de 8%. Segundo Cogo, enquanto a cotação de referência da soja em Chicago oscilou pouco, com queda de apenas 2%, o preço em reais sofreu um impacto muito mais severo, acumulando um recuo de 11% apenas neste início de ano.

“Ou seja, se esse tombo do dólar favorece a importação de fertilizantes, a queda no valor da commodity em dólar é a mesma, anulando qualquer ganho na relação de troca”, pondera o consultor.

O ouro pode substituir o dólar?

A cotação do ouro encerrou o ano passado na casa dos US$ 4.200 – US$ 4.300, com uma valorização acumulada em 2026 que até o momento gira em torno de 9% a 11%. Questionado se o metal poderia desbancar o dólar no futuro, Berardo afirma que não.

“O ouro é um ativo de segurança, não uma moeda que vai substituir o dólar”, reforça. Atualmente, segundo o especialista, não existe uma moeda forte o suficiente para competir com o dólar. “O yuan [moeda chinesa] ainda não tem essa escala”, diz.

O enfraquecimento do dólar também levanta dúvidas sobre o possível fim da hegemonia econômica norte-americana. Na avaliação dele, se por um lado a China deve ultrapassar o país comandado por Donald Trump muito em breve, isso não significa que a maior economia vai desaparecer.

“Para o dólar perder força de forma relevante, seria necessário surgir um ativo com o mesmo nível de segurança do Tesouro americano — o que hoje ainda não existe”, conclui.

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