Brasil tem tudo isso de jumento? Especialistas dizem que não

A divulgação de uma estimativa internacional que aponta a existência de 730 mil jumentos no Brasil reacendeu o debate sobre a real dimensão da população desses animais no país.
Pesquisadores e entidades afirmam que o número está superestimado e pode mascarar o risco de extinção da espécie, especialmente no Nordeste. Uma carta aberta assinada por cientistas e organizações critica os dados e aponta inconsistências metodológicas.
Segundo o grupo, o número mais recente calculado por pesquisadores brasileiros indica cerca de 78 mil jumentos em 2025 — quase dez vezes menos que a projeção divulgada.
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Base de dados é questionada
A principal crítica recai sobre a origem das estimativas.
Os dados utilizados internacionalmente têm como base informações da Organização das Nações Unidas para Alimentação e Agricultura (FAO), que não realiza censos próprios e trabalha com projeções a partir de dados secundários.
Especialistas explicam que, no caso dos jumentos, essas estimativas são ainda mais frágeis. Isso porque a espécie tem menor relevância nas estatísticas globais de produção agropecuária, o que reduz a precisão das informações.
Além disso, o Brasil deixou de divulgar dados oficiais específicos sobre jumentos na Pesquisa da Pecuária Municipal em 2013. Desde então, as projeções passaram a ser feitas com modelos estatísticos, que tendem a suavizar quedas ou oscilações mais bruscas.
Diferença entre estimativas e dados oficiais
A divergência entre números não é recente. Em 2017, o Censo Agropecuário do Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística (IBGE) registrou cerca de 376 mil jumentos no Brasil, enquanto estimativas internacionais apontavam mais de 800 mil animais no mesmo período.
Para pesquisadores, essa diferença indica limitações das projeções e reforça que os dados não devem ser usados para análises detalhadas ou formulação de políticas públicas.
Na prática, a leitura de crescimento populacional sugerida pelos números mais recentes não condiz com a realidade observada no campo.
Abate e falta de cadeia produtiva pressionam espécie
Especialistas apontam que a redução da população está diretamente ligada ao abate de jumentos para exportação de peles, prática autorizada desde 2016.
O país conta atualmente com apenas um frigorífico ativo nesse segmento. A atividade, segundo estudos, não possui uma cadeia produtiva estruturada, sem controle sobre reprodução, reposição de animais ou previsibilidade de oferta.
Esse modelo é considerado extrativista e pode levar ao esgotamento do recurso ao longo do tempo.
Demanda internacional e pressão sobre o rebanho
A pele dos jumentos é utilizada na produção de ejiao, um produto da medicina tradicional chinesa. A demanda global é elevada e, segundo organizações internacionais, exige milhões de peles por ano.
Esse cenário tem levado à redução de rebanhos em diferentes regiões do mundo. Na África, por exemplo, países já proibiram a exportação de peles para conter o avanço da atividade.
Risco de extinção e falta de monitoramento
Levantamentos recentes indicam uma queda expressiva da população de jumentos no Brasil nas últimas décadas. Estimativas apontam redução de até 94% desde os anos 1990.
Pesquisadores alertam que o jumento nordestino, considerado um ecótipo único, está entre os mais ameaçados.
A ausência de dados atualizados e de políticas públicas estruturadas de monitoramento agrava o cenário. Especialistas defendem a criação de séries históricas confiáveis e mecanismos de acompanhamento mais precisos para orientar ações de preservação.
Sem isso, há o risco de que estimativas imprecisas continuem a distorcer a realidade e dificultem o enfrentamento do problema.
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