quinta-feira, abril 2, 2026
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Febre aftosa na China expõe fragilidade, e pode reabrir portas ao Brasil


carne bovina China
Foto: Liu Lei/Xinhua

A China abateu cerca de 51 milhões de cabeças de gado em 2025 e produziu pouco mais de 8 milhões de toneladas de carne bovina, mas consome perto de 11 milhões de toneladas por ano.

Essa diferença mantém o país como maior importador global, com cerca de 30% do consumo dependente do mercado externo, em contraste com cotas e sobretaxas que chegam a 55% para conter, justamente, as compras externas.

A notícia de febre aftosa na China vai além de um problema sanitário. Ela expõe a tensão entre a necessidade de produzir mais e os limites do sistema produtivo, e seus efeitos chegam diretamente ao Brasil, sobretudo pelas exportações de carne.

A China precisa produzir mais, mas não consegue abrir mão de importar. O ponto central está no modelo.

Mais de 98% das propriedades são pequenas, com cerca de 15 milhões de produtores operando em baixíssima escala, muitas vezes abatendo menos de 10 animais por ano. Mesmo assim, respondem por mais da metade da produção. É um sistema pulverizado, com pouca padronização e difícil controle sanitário.

Mesmo com taxa de desfrute elevada (30% a 45%), fruto de sistemas mais intensivos, a China produz menos carne por animal que o Brasil. Abate mais, mas extrai menos, um sinal claro de limitação estrutural. A produção pulverizada aumenta o risco, e reduz o controle.

A pressão recente agravou o quadro. Cerca de 70% dos produtores operam no prejuízo, levando à liquidação de plantel e ao abate antecipado de matrizes. O resultado é um sistema mais fragilizado e exposto a problemas sanitários.

Para conter o desequilíbrio, o governo limitou importações. O Brasil passou a operar com volumes restritos. Mas fechar o mercado não resolve o problema de base, e pode ampliá-lo.

A experiência da Peste Suína Africana é um alerta. Após perdas expressivas, a China avançou para um modelo mais verticalizado na suinocultura. Na bovinocultura, essa mudança ainda é lenta.

Quando a sanidade falha, o mercado externo vira solução, não opção. Se a febre aftosa avançar, a prioridade será garantir o abastecimento. E isso significa ampliar importações.

Nesse cenário, o Brasil ganha espaço. Tem escala, oferta regular e sistema sanitário reconhecido. Mas não é garantia, é oportunidade.

No fim, a lição é direta: não há atalho para a segurança alimentar. Quando a produção falha, o mercado se ajusta, e quem está pronto ocupa espaço.

Miguel Daoud

*Miguel Daoud é comentarista de Economia e Política do Canal Rural


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