Exigências ambientais travam crédito rural no pior momento do agronegócio

A partir de abril, o crédito rural no Brasil entra em uma nova fase, mais técnica, mais rigorosa e, na prática, mais restritiva. O que antes era basicamente uma análise documental passa a incorporar critérios ambientais, cruzamento de dados e monitoramento por satélite, elevando o nível de exigência para o produtor acessar recursos.
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No centro dessas mudanças está a consolidação de regras do Conselho Monetário Nacional (CMN) que tornam obrigatória a validação das informações ambientais das propriedades, especialmente por meio do Cadastro Ambiental Rural (CAR) e de dados de satélite do Prodes, do INPE. Não basta mais declarar conformidade: será preciso comprová-la.
O crédito deixou de ser declaratório, agora é auditável.
Na prática, imóveis com inconsistências ambientais ou pendências cadastrais podem ter o financiamento bloqueado. A exigência começa a valer de forma mais efetiva agora e tende a se ampliar.
O problema é que a realidade no campo está longe de ser tão simples quanto a regra no papel.
Em regiões estratégicas, especialmente na franja do bioma amazônico, há milhares de produtores que fizeram tudo dentro da lei, mas não conseguem comprovar essa regularidade. Não por descumprimento, mas por falhas do próprio Estado. Processos de regularização fundiária travados, análise do CAR que não avança, sobreposição de cadastros e uma burocracia que se arrasta por anos.
O produtor cumpre a lei, mas o sistema não cumpre o produtor.
O resultado é perverso: quem deveria estar apto ao crédito acaba excluído por entraves administrativos que não controla. E, nesse novo modelo, sem regularidade comprovada, não há financiamento.
Essa mudança ocorre em um momento já delicado. O crédito rural vem se tornando mais escasso, com aumento da inadimplência e maior cautela por parte dos bancos.
Mais exigência em um cenário de menos dinheiro disponível.
Além disso, o sistema financeiro também endureceu. Com maior percepção de risco, os bancos passaram a exigir mais garantias e reduzir a exposição ao crédito rural, tornando o acesso ainda mais seletivo.
Para o produtor, isso representa uma mudança estrutural. A produtividade já não garante acesso ao financiamento. A nova regra é clara: é preciso estar regular no papel — mesmo quando o próprio Estado não entrega esse papel.
No novo agro financeiro, produzir bem já não basta, é preciso vencer a burocracia.
Entidades do setor alertam que essas exigências podem aprofundar desigualdades regionais, penalizando justamente áreas de expansão agrícola onde os gargalos fundiários e ambientais são mais evidentes.
No fim, o risco é restringir crédito em um momento de custo alto, margens apertadas e endividamento crescente.
Porque, no campo, a equação é direta: sem crédito, não há plantio, e sem plantio, não há Brasil.
Diante disso, o mínimo que se espera é bom senso. Essa medida precisa ser adiada.
Não se trata de negar a importância das exigências, mas de reconhecer o momento. Implementar esse nível de rigor em meio a uma crise financeira, com produtores descapitalizados e sem rentabilidade, é aprofundar um problema que já é grave.
Que se debata, que se ajuste, que se construa uma transição viável. Mas não agora, não quando o produtor já está sendo pressionado por todos os lados.
Exigir mais de quem já não tem margem não é solução, é empurrar o campo para o limite.

*Miguel Daoud é comentarista de Economia e Política do Canal Rural
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