quarta-feira, março 25, 2026
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O agro brasileiro precisa de um novo modelo


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Colheitadeiras de soja em fazenda no oeste da Bahia. Foto: Jefferson Aleffe

O mundo não deixou de precisar de comida. A demanda segue forte, sustentada por população e renda, especialmente na Ásia. Foi esse movimento que transformou o Brasil em potência agropecuária. Saímos de importadores para protagonistas, apoiados em tecnologia, produtividade e capacidade de adaptação.

A agropecuária brasileira fez sua parte. Investiu, inovou, preservou e passou a competir globalmente. Tornou-se o principal pilar da economia. Mas, pela experiência de quem acompanha o setor há anos, é evidente: o jogo começou a mudar.

O mundo não quer mais apenas comprar comida. Quer controlar a comida

A China, principal compradora global, continua dependente de importações, mas não aceita mais vulnerabilidade. Investe em tecnologia, adquire empresas de sementes, diversifica fornecedores e impõe novas exigências. Restrições à soja e cotas para carne são sinais claros dessa virada.

Quem dependia da demanda, agora precisa disputar espaço

O Brasil abre novas portas, como o acordo com a União Europeia, com oportunidades relevantes, especialmente em frutas, onde nossa produção o ano inteiro encontra um mercado sazonal. Mas a oportunidade não garante resultado.

Chegamos a esse novo ciclo fortes na produção, mas frágeis na estratégia. Seguimos dependentes de fertilizantes importados, convivendo com distorções no preço do diesel e presos a um desequilíbrio fiscal que impede juros mais baixos. Sem juros civilizados, não há investimento. E há outro ponto crítico: o seguro rural ainda não funciona como deveria. Com eventos climáticos cada vez mais extremos, a ausência de proteção amplia perdas e empurra o produtor para o endividamento.

Não falta mercado no Brasil. Falta renda para consumir

A concentração de renda limita o crescimento. Sem inclusão, não há consumo. E sem consumo, não há agregação de valor. O futuro do agro não será apenas produzir mais, mas transformar, industrializar e vender melhor,dentro e fora do país.

O Brasil tem tudo para isso. É rico em recursos naturais, possui uma das maiores áreas de florestas nativas preservadas do mundo e um subsolo extremamente valioso, com petróleo e minerais estratégicos. Poucos países reúnem esse conjunto de ativos.

Mas falta direção.

Hoje, o produtor continua fazendo sua parte, mesmo sob pressão de custos, clima e mercado. Só que o mundo ficou mais competitivo e mais estratégico.

O Brasil não pode continuar reagindo. Precisa decidir para onde quer ir

O agro sustenta o país, mas não pode sustentar sozinho o futuro. Com um projeto de nação, o Brasil pode transformar a produção em liderança global. Sem isso, continuará sendo apenas fornecedor de volume em um mercado cada vez mais disputado.

E isso, daqui para frente, já não será suficiente.

Miguel Daoud

*Miguel Daoud é comentarista de Economia e Política do Canal Rural


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