Governos de nove países da América do Sul se reúnem em Brasília nesta quarta e quinta-feira (11 e 12), para buscar soluções conjuntas diante dos impactos da mudança do clima sobre a agricultura, o abastecimento de alimentos, a soberania alimentar e a segurança nutricional na região.
O encontro é promovido pela Rede de Sistemas Públicos de Abastecimento e Comercialização de Alimentos (Rede SPAA) na América Latina e Caribe, atualmente presidida pelo governo brasileiro, por meio da Companhia Nacional de Abastecimento (Conab), e coordenado pela Organização das Nações Unidas para a Alimentação e Agricultura (FAO/ONU).
O seminário Desafios e Soluções para as Mudanças Climáticas: impactos na agricultura e nos sistemas agroalimentares do futuro terá início nesta quarta-feira (11), a partir das 9 horas, no Centro de Desenvolvimento de Recursos Humanos (CDRH) da Conab, no Setor de Indústria e Abastecimento (SIA).
O evento reunirá representantes de governos do Brasil, Argentina, Chile, Colômbia, Equador, Paraguai, Peru, Uruguai e Venezuela, organismos internacionais e especialistas para discutir políticas públicas, instrumentos de abastecimento e estratégias capazes de tornar os sistemas agroalimentares mais resilientes aos eventos climáticos extremos.
Serviço
Desafios e soluções para as mudanças climáticas: impactos na agricultura e nos sistemas agroalimentares do futuro Datas: Quarta-feira (11) e quinta-feira (12) de março de 2026 Horários: Quarta (11), de 9h às 18h | Quinta (12), de 08h30 às 18h Abertura: Quarta-feira, 11 de março 2026, a partir das 9h Encerramento: Quinta-feira, 12 de março de 2026, a partir das 17h Local: Centro de Desenvolvimento de Recursos Humanos (CDRH) da Conab Endereço: SIA Q 6 C – SIA, Brasília/DF – CEP: 71200-040
O mercado brasileiro de soja registrou uma terça-feira (10) de preços predominantemente mais baixos. Segundo o analista da Safras & Mercado, Rafael Silveira, o dia foi marcado por um mercado apenas nominal, com várias tradings fora de atividade e sem apresentar ofertas consistentes de preços.
“Foi um dia marcado por negócios da mão para a boca, poucos players no mercado. O produtor ficou de fora, querendo spreads melhores. Mas com a situação de aversão ao risco, o mercado seguiu travado”, comentou Silveira.
De acordo com ele, a Bolsa de Chicago teve volatilidade limitada, com as atenções voltadas para o relatório de oferta e demanda de março do Departamento de Agricultura dos Estados Unidos. O dólar e os prêmios registraram apenas pequenas alterações e não tiveram impacto relevante no mercado físico brasileiro.
Preços de soja no Brasil
Passo Fundo (RS): desceu de R$ 127,00 para R$ 124,50
Santa Rosa (RS): desceu de R$ 128,00 para R$ 125,50
Cascavel (PR): desceu de R$ 121,50 para R$ 120,00
Rondonópolis (MT): desceu de R$ 110,00 para R$ 109,00
Dourados (MS): permaneceu em R$ 110,00
Rio Verde (GO): subiu de R$ 110,00 para R$ 111,00
Paranaguá (PR): desceu de R$ 132,50 para R$ 131,00
Rio Grande (RS): desceu de R$ 133,00 para R$ 130,50
Soja em Chicago
Os contratos futuros da soja negociados na Bolsa de Mercadorias de Chicago fecharam a terça-feira com alta para o grão e o farelo, enquanto o óleo recuou. A sessão foi marcada por forte volatilidade, com o mercado oscilando entre altas e baixas dentro de margens reduzidas.
Os investidores repercutiram o relatório de março do Departamento de Agricultura dos Estados Unidos, que reduziu em 1 milhão de toneladas a estimativa de produção mundial de soja para a safra 2025/26.
Ao final da sessão, prevaleceu a expectativa de novas compras de soja norte-americana por parte da China, diante da possibilidade de encontro entre representantes dos dois países no próximo final de semana, segundo informações da Dow Jones. A queda significativa do dólar frente a outras moedas também deu suporte às cotações.
USDA
O USDA projetou a safra mundial de soja em 2025/26 em 427,18 milhões de toneladas. Em fevereiro, a estimativa era de 428,18 milhões.
Para o Brasil, a projeção foi mantida em 180 milhões de toneladas para 2025/26, enquanto o mercado esperava 179,3 milhões. Para 2024/25, a estimativa permanece em 171,5 milhões de toneladas. Já a produção da Argentina em 2025/26 foi projetada em 48 milhões de toneladas, abaixo dos 48,5 milhões estimados em fevereiro. O mercado apostava em 48,1 milhões.
Nos Estados Unidos, a safra de soja em 2025/26 foi indicada em 4,262 bilhões de bushels, o equivalente a 116 milhões de toneladas, com produtividade de 53 bushels por acre, repetindo as projeções do relatório anterior.
Os estoques finais foram projetados em 350 milhões de bushels, ou 9,53 milhões de toneladas, também sem alterações. O mercado esperava 343 milhões de bushels, ou 9,33 milhões de toneladas.
Contratos futuros de soja
Os contratos da soja em grão com entrega em maio de 2026 fecharam a US$ 12,01 3/4 por bushel, alta de 5,50 centavos de dólar, avanço de 0,45%. A posição julho de 2026 encerrou a US$ 12,15 por bushel, ganho de 6,00 centavos ou 0,49%.
Nos subprodutos, o farelo para maio de 2026 fechou a US$ 314,50 por tonelada, alta de US$ 1,00 ou 0,31%. Já o óleo para maio terminou cotado a 65,62 centavos de dólar por libra peso, recuo de 0,48 centavo ou 0,72%.
Câmbio
O dólar comercial encerrou a sessão em queda de 0,15%, cotado a R$ 5,1572 para venda e R$ 5,1552 para compra. Durante o dia, a moeda norte-americana oscilou entre a mínima de R$ 5,1328 e a máxima de R$ 5,1848.
A Emater atualizou, nesta terça-feira (10), os números da safra de verão 2025/2026 no Rio Grande do Sul. A nova estimativa indica queda na produção total de grãos no estado, com impacto da estiagem principalmente nas lavouras de soja. Os dados foram apresentados durante a Expodireto Cotrijal, em Não-Me-Toque (RS).
Segundo o levantamento, a produção total das principais culturas de verão está estimada em 32,8 milhões de toneladas. O volume representa uma queda de 7,1% em relação à estimativa preliminar, quando eram projetadas cerca de 35,3 milhões de toneladas. Na prática, a redução corresponde a uma perda de aproximadamente 2,5 milhões de toneladas na safra gaúcha.
Cultura da soja
A soja, principal cultura do estado, foi a mais impactada pela falta de chuva. A produção está estimada em 19 milhões de toneladas, com recuo de 11,3% em relação à projeção inicial. De acordo com a Emater, a estiagem registrada em diversas regiões do Rio Grande do Sul comprometeu o desenvolvimento das lavouras e reduziu o potencial produtivo.
Milho
Já o milho, por outro lado, teve revisão positiva. A produção foi estimada em 5,96 milhões de toneladas, um aumento de cerca de 3% em relação ao levantamento preliminar.
Feijão e arroz
No caso do feijão, a primeira safra deve atingir 41 mil toneladas, com queda de 11,6%, enquanto a segunda safra está estimada em 11,6 mil toneladas, redução de 28,6%.
Já a produção de arroz está projetada em 7,8 milhões de toneladas, segundo dados do Instituto Rio Grandense do Arroz (Irga), responsável pelo monitoramento da cultura no estado.
Total do RS
A área total cultivada com as principais culturas de verão no Rio Grande do Sul está estimada em 8,35 milhões de hectares, redução de 1,6% em relação à projeção inicial. De acordo com a Emater, a revisão dos números reflete principalmente os impactos da estiagem registrados em diferentes regiões do estado ao longo do ciclo da safra.
A ocorrência de chuva na Antártica está se tornando cada vez mais frequente, especialmente na Península Antártica, região que se projeta em direção à América do Sul. O fenômeno preocupa cientistas porque, tradicionalmente, a precipitação no continente ocorre na forma de neve, não de chuva.
Segundo o meteorologista, Arthur Müller, o aumento das chuvas está relacionado ao aquecimento dos oceanos e da atmosfera, que vem elevando as temperaturas na região. A Península Antártica, em particular, tem aquecido mais rapidamente do que outras áreas do continente e também acima da média global.
Com o clima mais quente, a precipitação que antes caía como neve passa a ocorrer em forma de chuva, alterando o equilíbrio natural da região. Essa mudança pode afetar o habitat de diversas espécies, como os pinguins, além de impactar diretamente as geleiras.
“As geleiras no outono e no inverno se expandem e na primavera e no verão contrai”, destaca Müller. No entanto, dados recentes mostram que, mesmo com a recuperação sazonal, a área de gelo tem apresentado retração nos últimos anos.
Efeitos a longo prazo
O estreito entre a ponta da América do Sul e a Península Antártica funciona como um corredor natural para a passagem de ciclones. Caso o aquecimento das águas e o derretimento do gelo avancem, há risco de alteração na rota desses sistemas.
Na prática, isso poderia modificar a circulação de massas de ar frio e até influenciar o regime de chuvas em outras regiões do planeta.
“Isso significa na prática que talvez possa ter menos incursão de ar frio e até alterar o regime de chuva. Isso tem um impacto direto em eventos climáticos extremos. Neste momento, não tem impacto nenhum, mas estamos acendendo esse alerta para o futuro”, explica Müller.
Mudanças visíveis
A tendência preocupa pesquisadores, que alertam para possíveis mudanças no ecossistema da região. Além disso, esse cenário também levanta dúvidas sobre a permanência de espécies adaptadas ao frio extremo, como os pinguins, que dependem da neve e do gelo para sobreviver.
“Vamos começar a ver uma Antártica cada vez mais verde e quem sabe nem mais os pinguins estejam lá, porque o pinguim é acostumado com a neve e não com a chuva gelada. Ou seja, preocupação”, alerta Müller.
Relatório do Conselho dos Exportadores de Café do Brasil (Cecafé) mostrou que o país embarcou 2,618 milhões de sacas de 60 kg de todos os tipos do produto em fevereiro, com receita cambial de US$ 1,062 bilhão.
Em comparação com o mesmo mês de 2025, houve queda de 23,5% em volume e de 14,7% em valores.
Com esse desempenho, as exportações de café do Brasil chegaram a 26,038 milhões de sacas no acumulado dos oito primeiros meses do ano safra 2025/26, declínio de 22,6% em relação a idêntico intervalo anterior.
Já a receita cambial apresentou uma evolução de 5,3% entre julho do ano passado e fevereiro deste ano ante os oito primeiros meses da safra 2024/25, chegando a US$ 10,301 bilhões.
Exportações no ano civil
No primeiro bimestre de 2026, as remessas brasileiras de café ao exterior totalizam 5,410 milhões de sacas, volume que representa recuo de 27,3% frente aos dois primeiros meses do ano passado. Segundo o Cecafé, em valores, a perda é de 13%, com os ingressos de dólares no país saindo de US$ 2,575 bilhões para os atuais US$ 2,241 bilhões.
O presidente do Conselho, Márcio Ferreira, destaca que o cenário de baixa nas exportações, neste ano, ocorre, principalmente, com a variedade arábica, cujas cotações vêm sofrendo queda acentuada e rápida na Bolsa de Nova York.
Segundo ele, os fundos estão liquidando posições compradas substancialmente, antecipando uma disponibilidade bem maior do produto na próxima safra, cenário que, aliado ao recuo expressivo do dólar frente ao real e ao fato de os produtores, capitalizados, com remanescente ajustado da safra corrente, acaba por dosar a oferta brasileira a níveis não competitivos para novos negócios frente às demais origens.
“Essa tendência deve permanecer até a entrada da próxima safra, ocasionando perda de market share do Brasil para outras origens produtoras, o que, obviamente, não é favorável em médio e longo prazos”, comenta.
Ferreira completa que esse movimento pode se acentuar com as tensões geopolíticas no Oriente Médio e os gargalos logísticos.
“A tendência de recuperação é esperada a partir da próxima safra que se avizinha e já ocorre com o conilon, que conta com maiores estoques de passagem e cuja colheita comercializada a partir de maio será também importante. No caso arábica, a expectativa de recuperação dos embarques é aguardada a partir de junho, com a chegada da nova safra, com volume bem mais relevante que a que se encerrará”, pondera.
Principais destinos
Entre os principais destinos dos cafés brasileiros no primeiro bimestre de 2026, destacam-se:
Alemanha: importação de 786.589 sacas, equivalente a 14,5% do total (-20,1% na comparação com o acumulado entre janeiro e fevereiro de 2025);
Estados Unidos: 12,1% de representatividade, adquiriram 655.998 sacas (-45,8%);
Itália: compra de 568.598 sacas (+5,9%);
Bélgica: 331.747 sacas (-6,8%); e
Japão: 315.816 sacas (-34,5%).
Tipos de café
Foto: Pixabay
Em janeiro e fevereiro deste ano, o café arábica, com o envio de 4,423 milhões de sacas ao exterior, permaneceu como o mais exportado pelo Brasil. Esse montante equivale a 81,8% do total embarcado, apesar de representar queda de 28,9% frente ao primeiro bimestre de 2025.
Na sequência, com o equivalente a 573.301 sacas remetidas para fora do país, apareceu o segmento do café solúvel, com um declínio de 11,5% na comparação com os dois primeiros meses do ano passado. Esse tipo de produto respondeu por 10,6% das exportações totais no período atual.
Os cafés canéforas (conilon + robusta), com 408.446 sacas – recuo de 27,7% e 7,5% do total –, e o produto torrado e torrado e moído, com 5.572 sacas (-38,7% e 0,1% de representatividade), completam a lista.
Cafés diferenciados
Os cafés que possuem qualidade superior, certificados de práticas sustentáveis e/ou especiais responderam por 19,8% das exportações totais brasileiras no primeiro bimestre deste ano, com a remessa de 1,069 milhão de sacas ao exterior. Esse volume é 40,7% inferior ao registrado no agregado de janeiro e fevereiro de 2025.
A um preço médio de US$ 461,74 por saca, a receita cambial com os embarques dos cafés diferenciados foi de US$ 493,5 milhões, o que correspondeu a 22% do obtido com todos os embarques de café no primeiro bimestre do ano passado. No comparativo anual, o valor é 31,2% menor do que o registrado nos dois primeiros meses de 2025.
A Alemanha também liderou o ranking dos principais destinos dos cafés diferenciados, com a compra de 137.770 sacas, o equivalente a 12,9% do total desse tipo de produto exportado.
Fechando o top 5, aparecem EUA, com 132.179 sacas e representatividade de 12,4%; Bélgica, com 130.484 sacas (12,2%); Itália, com 124.249 sacas (11,6%); e Holanda (Países Baixos), com 86.253 sacas (8,1%).
Portos brasileiros
O Cecafé aponta que o Porto de Santos foi o principal exportador dos cafés do Brasil no primeiro bimestre, com 4,217 milhões de sacas e representatividade de 77,9% no total.
Na sequência, vieram o complexo portuário do Rio de Janeiro, que respondeu por 18,2% dos embarques ao remeter 983.890 sacas ao exterior, e o Porto de Paranaguá (PR), que exportou 66.954 sacas e teve representatividade de 1,2%.
O movimento de alta nos preços do bezerro não é novidade para quem acompanha o mercado. A pecuária vive uma mudança de ciclo, após o intenso abate de fêmeas registrado nos últimos anos. Com a maior retenção de matrizes e escassez de animais para reposição, a valorização da categoria era inevitável.
“Era esperado que o aumento do preço do bezerro já acontecesse no final de 2024 e, em 2025, ele começou a dar sinais mais claros”, afirma o diretor técnico da Associação dos Criadores de Mato Grosso (Acrimat), Francisco Manzi. Segundo dados do Cepea, a categoria está sendo negociada acima dos R$ 3 mil na maior parte do país.
Manzi destaca que a reposição é um dos principais custos para o pecuarista que faz recria e engorda. Por isso, a alta nos preços de reposição impacta diretamente a rentabilidade da atividade.
Em Mato Grosso do Sul, por exemplo, o bezerro acumula alta de mais de 20% em um ano, passando de R$ 2.682,98 em março de 2025 para R$ 3.252,70 em março de 2026.
Custo da reposição pesa mais para sistemas a pasto
De acordo com o diretor da Acrimat, os impactos da valorização do bezerro variam conforme os sistemas de produção.
“Para a pecuária feita totalmente a pasto, o impacto é maior, porque o bezerro está mais valorizado e o animal acaba permanecendo mais tempo na fazenda. Isso torna o custo da reposição mais expressivo”, diz Manzi.
Segundo ele, nos sistemas mais intensivos, o custo da alimentação um pouco mais baixo ajuda a aliviar parte da pressão. “Uma ração mais atrativa acaba compensando um pouco, mas ainda assim é um impacto importante.”
Mesmo com a valorização da arroba do boi gordo, Manzi avalia que a margem pode não ser a mesma registrada em períodos em que o bezerro estava mais barato.
Bezerro tem espaço para subir ainda mais
Sazonalmente, março e maio são os meses que apresentam os maiores patamares de preços de reposição. Isso porque esse é o período em que ocorre a maior parte das desmamas nas fazendas.
Apesar da maior oferta de animais nessa época do ano, a expectativa segue positiva para o mercado. “Os preços do bezerro devem continuar firmes e com valorizações. A expectativa é de uma oferta mais limitada de animais, o que abre espaço para o mercado subir”, afirma Hyberville Neto, diretor da HN Agro.
Ele ressalta, porém, que o comportamento da reposição também depende do desempenho do mercado do boi gordo. Neto explica que quando o mercado apresenta oscilações, a relação de troca pode se deteriorar e gerar mais cautela por parte de quem compra animais para recria e engorda.
Guilherme Tonhá, diretor comercial da Estância Bahia Leilões, também avalia que a oferta restrita de animais deve continuar sustentando o mercado.
“A tendência é manter os preços firmes porque a oferta está muito baixa, tanto nos leilões quanto nas negociações diretas nas fazendas”, diz.
O pecuarista, contudo, não deixará de investir na reposição por causa dos preços em alta. “Quando não tem oferta, o comprador acaba sendo obrigado a pagar mais caro”, reforça. Segundo ele, os valores já superam os patamares registrados no último pico do ciclo pecuário, em 2021.
Estratégia e controle de custos ganham peso
Apesar do cenário positivo para quem vende bezerro, os especialistas alertam que a reposição mais cara exige maior planejamento por parte dos pecuaristas que atuam na recria e engorda.
“Quando a reposição fica mais cara, o pecuarista precisa redobrar o cuidado para que a conta feche. A eficiência da porteira para dentro passa a ser ainda mais importante”, diz Tonhá.
O diretor técnico da Acrimat, Francisco Manzi, tem uma percepção semelhante. “Preço não é margem. O mais importante é o pecuarista ter noção exata de cada custo, desde a reposição e os insumos até mão de obra e impostos”, observa.
De acordo com ele, como a pecuária é uma atividade de longo prazo, decisões tomadas hoje podem impactar a rentabilidade apenas anos depois.
Por isso, Manzi reforça que a eficiência dentro da propriedade se torna cada vez mais decisiva. “Hoje não tem mais espaço para amador. O pecuarista precisa calcular bem cada decisão para que a conta feche no final.”
Programas estaduais estão incentivando a construção e a reforma de novas moradias no campo em Santa Catarina, um apoio para a sucessão rural e para garantir que a juventude permaneça nas propriedades com habitações de qualidade. O recurso, limitado a R$ 100 mil por família em financiamentos do PRONAF, é facilitado pelo governo catarinense, que subsidia parte dos juros para jovens produtores entre 18 e 29 anos por meio do PRONAMPE AGRO SC – Projeto Fortalecimento de Cadeias Produtivas.
A produtora rural Andrielli Caraffa, de Erval Velho, no Meio Oeste catarinense, é a terceira geração em sua propriedade de 50 hectares. A chegada da casa nova, construída conforme desejavam, concretizou um sonho antigo da família.
“É um sonho que a gente tem desde que o pai trabalhava na lavoura de arrendamento, sempre guardava aquele dinheiro e dizia: ‘vamos fazer nossa casa’. Fomos atrás de uma construtora e vimos que nosso dinheiro não dava. Então fomos fazer um financiamento,” relata Andrielli.
O jovem Nathan Del Re, que supervisiona a construção de seu novo imóvel, compartilha o mesmo anseio. Produtor de leite e suínos, ele busca conquistar a casa própria na propriedade da família para ter mais autonomia. “Começar a minha vida, minha vez de avançar na propriedade. Ter minhas próprias coisas, minhas granjas. Está na hora já, né?”, diz Nathan.
A habitação de qualidade é um fator fundamental, especialmente considerando que quase um milhão de habitantes escolheram viver no campo em Santa Catarina, com a maior concentração populacional rural (quase 300 mil pessoas) no Oeste catarinense.
Incentivo direto para o jovem
O programa de subsídio do governo estadual tem o foco em tornar o crédito mais acessível para os jovens.
Carlos Chiodini, Secretário da Agricultura/SC, explica a visão do governo: “As pessoas vão trabalhar no meio rural e não têm onde morar. Então o governador Jorginho nos demandou essa pauta, tratar de habitação rural junto com sucessão familiar, melhorando a condição do homem no campo. Nós entendemos que isso só será vencido com a participação ativa do governo, com a união das esferas de poder, e vamos sim, dentro de vários outros desafios que nós temos, levar esse assunto a sério.”
A Epagri/SC atua na orientação aos produtores. “Eles buscam fornecedores ou empresas que constroem a casa, ou só material, ou ainda, material e mão de obra. Não interferimos nisso, no tipo de casa ou custo. Orientamos as melhores formas de crédito e a ter o melhor custo-benefício,” esclarece Túlio Dassi, gerente regional da Epagri/SC.
Conforto motiva a permanência
O incentivo à moradia é um forte motivador para a permanência dos jovens na atividade. Na propriedade de Andrielli, a casa antiga, feita com materiais reaproveitados, está sendo desmontada para dar lugar a mais conforto.
“Questão de conforto nem se fala, né. Ver o nosso antes e o nosso depois nem se compara. Ficou do jeitinho que a gente imaginou e até melhor. Então não tem explicação,” comemora Andrielli.
Nathan, que está construindo sua casa e investindo na ampliação de sua granja, vê o programa como um grande auxílio. “Isso ajuda bastante, incentivo bom que ajuda todos os jovens. Juro a 3%, ajuda muito. Não é só ter uma granja boa, galpão, tem que ter uma casa boa também, um conforto. […] Não vejo a hora de me mudar para cá. Vai ser uma vida ótima.”
Assista esta reportagem da Série Santa Catarina e o Agro 5.0 aqui:
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A mudança cria um dilema prático no calendário de comercialização – Foto: Pixabay
Mudanças nas regras tributárias voltadas ao setor rural colocam produtores diante de decisões que podem afetar diretamente a rentabilidade das safras e o planejamento financeiro das propriedades. Segundo Caíque Pedrozo, especialista em contabilidade no agronegócio, a implementação da Lei Complementar nº 224/2025 inaugura uma fase de atenção redobrada para quem comercializa produção agrícola no país.
A partir de 1º de abril de 2026 entram em vigor novas alíquotas do Funrural, com reajuste médio de cerca de 10% na carga tributária incidente sobre a receita bruta. Até 31 de março, produtores rurais pessoa física recolhem 1,50%. Após essa data, a alíquota passa para 1,63%. No caso dos produtores pessoa jurídica, a cobrança sobe de 2,05% para 2,23%.
A mudança cria um dilema prático no calendário de comercialização. Quem optar por faturar a produção até o fim de março mantém a alíquota atual e pode preservar entre 0,13% e 0,18% do faturamento bruto. Em operações de maior volume, essa diferença pode representar recursos suficientes para custear parte do frete ou de insumos da próxima safra. Além disso, a retenção menor na fonte garante maior liquidez imediata ao produtor.
Por outro lado, concentrar vendas antes da virada do mês pode gerar dificuldades logísticas. A pressa para emissão de notas e organização de carregamentos tende a pressionar o transporte e pode provocar concentração de oferta no mercado, com possível impacto nos preços das commodities no curto prazo.
Adiar a comercialização para abril também envolve cálculos. Caso a curva de preços indique valorização superior ao aumento tributário, estimado em torno de 0,2%, o produtor pode alcançar resultado líquido maior mesmo com a nova alíquota. Ainda assim, o aumento do Funrural representa um custo estrutural permanente, reduzindo a margem por saca ou arroba. Transições tributárias também costumam exigir atenção extra para evitar erros em notas fiscais ou instabilidades em sistemas.
O Brasil se acostumou a celebrar recordes de safra como sinônimo de prosperidade nacional. No entanto, quem percorre o “chão de fábrica” do agronegócio, especialmente nas lavouras de soja, ouve um relato bem diferente do otimismo das estatísticas.
O desabafo que recebo de produtores de todo o país é um só: a rentabilidade hoje é praticamente nula. Produzimos mais do que nunca, mas a sustentabilidade financeira do negócio ficou pelo caminho, esmagada entre o custo operacional e a asfixia do crédito.
O paradoxo da eficiência
Essa situação é dramática porque não decorre de incompetência técnica. O produtor brasileiro nunca foi tão eficiente — mas hoje trabalha para “trocar moedas”.
Quando colocamos na ponta do lápis os custos indiretos, a depreciação do maquinário e, principalmente, o serviço da dívida, a conta simplesmente não fecha.
Vivemos um cenário de juros elevados que drenam o caixa das fazendas. Em um ano eleitoral, a perspectiva de queda da Selic é minada pela preocupação com o gasto público e o aumento da dívida do Estado. Esse aperto monetário não pune apenas o governo; ele tira o fôlego do empresário rural, que se vê obrigado a financiar sua operação a taxas que o ciclo biológico da lavoura não consegue remunerar.
O poder de compra derretido
O termômetro real da crise é a deterioração da relação de troca. O poder de compra do produtor derreteu.
No caso do fertilizante MAP, a média histórica era de 33 sacas de soja por tonelada; hoje, são necessárias entre 43 e 45 sacas. Na prática, o agricultor ficou cerca de 30% mais pobre para adquirir o mesmo insumo de sempre.
O raio-x do ponto de equilíbrio (safra 25/26)
Estado
Custo Operacional (R$/ha)
Ponto de Equilíbrio (R$/sc)
Situação de Margem
Mato Grosso
R$ 7.100,00
R$ 122,41
Mínima / Risco
Rio Grande do Sul
R$ 6.350,00
R$ 115,45
Crítica / Dívida
Mato Grosso do Sul
R$ 6.115,83
R$ 109,21
Próxima de zero
Paraná
R$ 5.850,00
R$ 95,12
Baixa segurança
O risco sistêmico: 2026 e 2027 no alvo
A insegurança global, a volatilidade das commodities e o endividamento das nações criaram uma tempestade perfeita.
Se o Brasil não cuidar de sua base produtiva agora, as safras de 2026 e 2027 poderão ser marcadas por uma grave crise de liquidez.
O aperto monetário gera um reflexo direto na incapacidade de pessoas e empresas honrarem seus compromissos, criando um perigoso efeito dominó.
O caminho exige um novo pacto
Ação governamental: É urgente uma interação real para a revisão das linhas de crédito e para a criação de um seguro agrícola que proteja a renda, e não apenas o custeio. O país precisa dar sinais claros de responsabilidade fiscal para permitir a queda dos juros de longo prazo.
Postura do setor: O momento exige gestão financeira extrema. O produtor precisa buscar o máximo de profissionalização, fortalecer a governança e encontrar fontes alternativas de financiamento, reduzindo a dependência exclusiva do crédito bancário tradicional.
O mundo atravessa um momento crítico de endividamento. Se o governo e as lideranças ignorarem os sinais que vêm do campo, a fatura chegará com um peso que nem o solo mais fértil será capaz de sustentar.
É hora de agir antes que o recorde de produção se transforme em um recorde de recuperações judiciais.
*Miguel Daoud é comentarista de Economia e Política do Canal Rural
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