Zerar impostos do diesel ajuda no curto prazo, mas guerra gera incertezas, diz economista

As medidas adotadas pelo governo federal para reduzir o preço do diesel podem ajudar a amenizar os impactos imediatos do aumento do combustível no Brasil. No entanto, a duração desse alívio dependerá da evolução do conflito no Oriente Médio e das oscilações do mercado internacional de petróleo.
A avaliação é do economista Francisco Vila, que analisou os efeitos da decisão do governo de zerar as alíquotas de PIS/Cofins sobre o diesel e conceder subsídios temporários ao combustível.
Segundo ele, a iniciativa é positiva no curto prazo, especialmente em um momento sensível para o agronegócio brasileiro, que está em plena fase de colheita.
“O governo reagiu bem ao reduzir impostos e conceder subsídio. Essas medidas ajudam a aliviar o impacto imediato no preço do combustível”, afirma.
Diesel mais caro pressiona transporte e custos do agro
Para o economista, a alta recente do diesel tem origem principalmente no cenário internacional, impulsionado pela escalada do conflito no Oriente Médio, que elevou os preços do petróleo.
Ele lembra que o valor do barril passou por oscilações intensas nos últimos meses.
“O diesel subiu por causa da guerra e da alta do petróleo. O barril chegou a sair de cerca de US$ 80 para perto de US$ 120 e depois recuou novamente”, explica.
Esse movimento tem impacto direto sobre o agronegócio, principalmente nos custos logísticos.
O diesel é o principal combustível do transporte rodoviário de cargas no Brasil, utilizado tanto no escoamento da produção agrícola quanto na distribuição de alimentos.
“Tem impacto no transporte da safra, no custo dos fertilizantes e em várias etapas da produção. No final, isso chega até a mesa do consumidor”, diz Vila.
Colheita amplia sensibilidade do agro aos preços do combustível
O economista destaca que o momento atual aumenta a sensibilidade do setor ao preço do diesel. Isso porque o Brasil está no período de colheita, quando grandes volumes de grãos precisam ser transportados rapidamente.
Segundo ele, a falta de capacidade de armazenagem nas propriedades intensifica essa pressão.
“Estamos na fase da colheita e grande parte da produção precisa ser transportada rapidamente porque não temos silos suficientes para armazenar no campo”, afirma.
Com isso, a produção precisa ser enviada para armazéns ou portos, elevando a demanda por transporte rodoviário e, consequentemente, pelo consumo de diesel.
Além disso, o aumento do combustível também afeta os custos de exportação.
“Os grãos vão para os portos e os navios também passam a cobrar mais. Isso pode aumentar o preço final em até 10% ou 15%”, avalia.
Medidas são temporárias e dependem do cenário externo
Apesar de considerar a reação do governo adequada, Vila ressalta que as medidas são temporárias e têm custo fiscal elevado.
Segundo ele, o pacote de redução de impostos e subsídios pode representar cerca de R$ 30 bilhões, valor que terá impacto nas contas públicas.
“Essas medidas são emergenciais. Alguém vai pagar essa conta, direta ou indiretamente”, afirma.
Para o economista, o cenário ainda é incerto e depende da evolução do conflito no Oriente Médio.
“Hoje ninguém sabe exatamente como essa guerra vai evoluir. Isso cria um ambiente de muita incerteza”, diz.
Logística é gargalo
Além da crise atual, Vila destaca que o aumento do diesel também expõe um problema estrutural da economia brasileira: a dependência excessiva do transporte rodoviário.
Diferentemente de países como os Estados Unidos, que possuem sistemas logísticos mais diversificados, o Brasil depende fortemente do transporte por caminhões.
“Transportamos quase tudo por rodovias, usando diesel. Os Estados Unidos têm navios e ferrovias muito mais desenvolvidos”, afirma.
Segundo ele, ampliar o uso de ferrovias e hidrovias é essencial para reduzir a vulnerabilidade do país às oscilações no preço dos combustíveis.
O economista também aponta oportunidades para melhorar a logística de exportação brasileira.
Um exemplo é o avanço da rota bioceânica, que conecta estados como Mato Grosso e Mato Grosso do Sul aos portos do Pacífico, facilitando o comércio com a Ásia.
Segundo ele, essa alternativa pode reduzir significativamente o tempo de transporte até mercados como a China.
“A nova rota pode reduzir em cerca de 14 dias o tempo de transporte para a China”, afirma.
Conflitos e clima ampliam incertezas
Para Vila, além da guerra, outro fator que deve continuar pressionando o setor agropecuário é a instabilidade climática.
Ele avalia que eventos climáticos cada vez mais imprevisíveis têm afetado o planejamento agrícola.
“Hoje o clima é muito mais instável. Lugares onde sempre chovia agora enfrentam seca, e regiões onde não chovia passam a ter excesso de chuva”, afirma.
Transição energética ganha importância
Diante desse cenário, o economista destaca que investimentos em biocombustíveis e transição energética podem ajudar a reduzir a dependência de combustíveis fósseis.
Para ele, essa mudança será fundamental para garantir estabilidade de custos no longo prazo.
“Investir em biocombustíveis é um caminho importante para reduzir a vulnerabilidade da economia a choques externos”, conclui.
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