O crédito fechou a porteira

O pedido de recuperação judicial das Casas Bahia, envolvendo dívidas de R$ 17,3 bilhões, produziu um impacto que vai muito além do varejo. Ele tornou visível um problema que já avançava silenciosamente: empresas e produtores estão encontrando dificuldades crescentes para pagar, renegociar ou simplesmente rolar suas dívidas.
Não se trata de um caso isolado. O Brasil já possui 9,1 milhões de empresas inadimplentes, com aproximadamente R$ 230 bilhões em dívidas atrasadas. Desde o segundo trimestre de 2023, o número de empresas em recuperação judicial aumentou quase 66%.
A Casas Bahia é apenas o retrato mais conhecido de uma crise de crédito muito mais ampla.
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O risco chegou aos bancos
Quando a inadimplência aumenta, os bancos precisam elevar as provisões para cobrir possíveis perdas. É uma medida prudencial, mas que tem consequências: reduz a rentabilidade, aumenta a percepção de risco e torna as instituições mais cuidadosas na concessão de novos empréstimos.
Os bancos passam a exigir mais garantias, reduzir prazos, aumentar os juros e selecionar com maior rigor quem terá acesso ao dinheiro.
Não estamos diante de uma crise bancária. O sistema financeiro brasileiro continua capitalizado e resiliente. O problema é que a reação defensiva dos bancos ocorre justamente quando empresas e produtores mais precisam de crédito.
Forma-se um círculo preocupante: a inadimplência aumenta as provisões; as provisões reduzem a disposição para emprestar; o crédito fica mais caro e escasso; e mais empresas encontram dificuldades para pagar suas dívidas.
No campo, a crise já está instalada
O agronegócio é um dos setores mais atingidos por essa deterioração. No segundo trimestre de 2026, aproximadamente 1.265 empresas do setor estavam em recuperação judicial, crescimento de 66% em apenas doze meses.
A inadimplência da população rural chegou a 8,8% no primeiro trimestre. Entre os grandes proprietários, alcançou 9,9%. Além disso, o agronegócio encerrou 2025 com quase 2 mil pedidos de recuperação judicial, o maior volume da série histórica da Serasa Experian.
Os números desmontam uma ideia bastante difundida: a de que uma grande safra significa, necessariamente, prosperidade para o produtor.
Produção não é renda. E o faturamento não é lucro.
O produtor pode colher mais e, ainda assim, terminar o ciclo com menos dinheiro. Basta que os preços recebidos caiam, os custos permaneçam elevados e os juros consumam a margem operacional.
A lavoura não carrega apenas a dívida de um ano
Parte da pressão atual começou em safras anteriores. Eventos climáticos comprometeram a produção, enquanto fertilizantes, defensivos, diesel, máquinas e crédito permaneceram caros.
Sem seguro rural suficiente, muitos produtores financiaram a safra seguinte carregando o prejuízo da anterior. A dívida não desapareceu: foi empurrada para a frente.
Agora, o produtor encontra preços internacionais pressionados, margens mais estreitas e instituições financeiras muito mais seletivas.
No campo, o crédito não serve apenas para ampliar a produção. Ele financia o custeio, a compra de insumos e o plantio da próxima safra. Quando esse dinheiro falta, o problema deixa de ser apenas financeiro e passa a ameaçar a própria capacidade produtiva.
O petróleo acrescenta uma nova pressão
A instabilidade no Oriente Médio tornou o cenário ainda mais delicado. A alta do petróleo pressiona combustíveis, fretes, logística e diversos componentes utilizados na produção de defensivos e outros insumos.
No caso dos fertilizantes, a situação também depende do gás natural, do custo de transporte e da segurança das rotas internacionais.
Portanto, mesmo que o produtor tenha eficiência dentro da porteira, permanece exposto a decisões geopolíticas tomadas a milhares de quilômetros de sua propriedade.
Não há, neste momento, uma perspectiva clara de normalização rápida no Oriente Médio. Isso significa que energia, inflação e juros devem continuar no centro das preocupações mundiais.
O mundo entra na prova do refinanciamento
A crise do crédito não é apenas brasileira. Segundo a OCDE, governos e empresas deverão captar cerca de US$ 29 trilhões no mercado de títulos em 2026, o dobro do volume registrado dez anos atrás.
É importante fazer a distinção: nem todo esse montante representa dívida vencendo. Mas, no caso dos governos dos países da OCDE, aproximadamente 78% das emissões serão utilizadas para refinanciar débitos existentes.
O mundo está entrando em uma gigantesca operação de rolagem de dívida justamente quando os juros de longo prazo voltam a subir.
Nos Estados Unidos, o rendimento dos títulos de 30 anos atingiu o maior nível em quase duas décadas. O mercado está exigindo uma remuneração maior diante da inflação, do petróleo, dos déficits públicos e do crescimento do endividamento.
Isso não significa que o Federal Reserve obrigatoriamente elevará sua taxa básica. Significa, porém, que o custo do dinheiro de longo prazo já está mudando.
O dinheiro procura segurança
Quando os títulos americanos oferecem rendimentos maiores, parte do capital internacional deixa os mercados considerados mais arriscados e procura a segurança dos Estados Unidos.
Por isso, não se pode atribuir a saída dos estrangeiros da Bolsa brasileira apenas à eleição. A insegurança política, o desequilíbrio fiscal e as dúvidas sobre o próximo governo pesam. Mas existe também um movimento global de precificação do risco.
Até 13 de agosto, os investidores estrangeiros já haviam retirado R$ 15,63 bilhões da Bolsa brasileira.
Para um país endividado, com juros elevados e baixa previsibilidade fiscal, a disputa internacional pelo dinheiro torna-se ainda mais difícil.
A boa safra pode esconder a crise
O pedido de recuperação judicial das Casas Bahia é um alerta. Mostra o que pode acontecer quando uma empresa muito endividada enfrenta juros altos, perda de receita e dificuldade para refinanciar suas obrigações.
No campo, essa combinação já está presente.
O produtor enfrenta o clima, preços internacionais mais baixos, custos elevados, petróleo pressionado e crédito cada vez mais seletivo. Mesmo quem ainda paga suas contas percebe que o banco está mais rigoroso, exige mais garantias e oferece condições menos favoráveis.
O grande risco é avaliarmos o agronegócio apenas pelo tamanho da safra. Podemos colher um volume recorde e, ao mesmo tempo, assistir ao avanço da inadimplência, das recuperações judiciais e da descapitalização no campo.
A próxima crise não precisa começar com a falta de produção. Ela pode começar com a falta de crédito para produzir.
Boa safra não paga dívida quando o preço cai, o custo sobe e o crédito fecha a porteira.

*Miguel Daoud é comentarista de Economia e Política do Canal Rural
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