domingo, agosto 9, 2026
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O brasileiro não teme o fim do mundo. Teme o fim do mês


Inflação de setembro tem alta de 0,26%
Divulgação

Existe uma brincadeira que resume bem o momento atual: o brasileiro não tem medo do fim do mundo; tem medo do fim do mês, quando chegam os boletos.

A frase provoca risos, mas esconde uma realidade preocupante. O emprego cresceu, a renda média avançou e o desemprego está entre os menores níveis da história. Mesmo assim, uma parcela enorme da população sente que está ficando mais pobre.

Uma reportagem publicada neste fim de semana pelo jornal O Estado de S. Paulo, baseada em levantamento da Tendências Consultoria, ajuda a explicar esse paradoxo. A resposta está na diferença entre aquilo que entra no bolso e o que realmente sobra depois das contas.

A renda subiu, mas a sobra sumiu

Segundo o IBGE, o desemprego caiu para 5,4% no trimestre encerrado em junho. O rendimento médio real do trabalhador chegou a R$ 3.738, com crescimento de 2,8% em relação ao mesmo período do ano passado.

A fotografia parece positiva. Mas ela não mostra o orçamento completo das famílias.

O estudo citado pelo Estadão aponta que, depois de pagar despesas essenciais, impostos, juros e amortizações, restam apenas 21% da renda para o brasileiro. É o menor percentual desde o início da série, em 2011, quando a sobra chegou a 27,2%.

Traduzindo: de cada R$ 100 recebidos, aproximadamente R$ 79 já têm destino certo. Sobram R$ 21 para roupas, lazer, manutenção da casa, algum imprevisto e, se for possível, poupança.

É por isso que a renda pode subir na estatística e desaparecer no orçamento.

O crédito virou complemento do salário

O endividamento deixou de ser apenas uma forma de antecipar uma compra. Para milhões de brasileiros, tornou-se um complemento da renda.

A família usa o cartão para comprar comida, parcela medicamentos, adia a conta de luz e recorre ao cheque especial para atravessar os últimos dias do mês. O crédito deixa de financiar o futuro e passa a financiar a sobrevivência do presente.

Em julho, 82% das famílias brasileiras tinham alguma dívida a vencer, segundo a Confederação Nacional do Comércio. Entre os endividados, quase 30% da renda mensal estava comprometida com os credores. Para 19% das famílias, as prestações já consumiram mais da metade dos rendimentos.

O problema se agrava porque o custo do dinheiro permanece proibitivo. Embora a Selic tenha sido reduzida para 14% ao ano, o juro médio do crédito livre às famílias chegou a 64% ao ano em junho, o maior nível em quase uma década.

A Selic começou a cair, mas o alívio ainda não chegou ao boleto.

A inflação que pesa mais

Outro ponto importante é que a inflação oficial não atinge todas as famílias da mesma maneira.

Alimentos, energia, transporte, medicamentos e produtos de higiene consomem uma parcela muito maior da renda dos mais pobres. No primeiro semestre, os alimentos consumidos dentro de casa subiram 5,3%, acima da inflação geral do período.

Para quem tem renda elevada, uma alta nos alimentos exige algum ajuste. Para quem ganha pouco, ela significa reduzir a quantidade, trocar marcas, substituir produtos e, em muitos casos, recorrer novamente ao crédito.

A inflação pode até desacelerar nos próximos meses, mas a queda do índice não significa redução generalizada de preços. Significa apenas que os preços estão aumentando mais devagar. O patamar elevado permanece e o poder de compra perdido não retorna automaticamente.

O comércio já sente o aperto

Quando a renda livre desaparece, o primeiro impacto aparece no consumo.

A família adia a troca da geladeira, desiste do carro, corta o restaurante, reduz o lazer e procura produtos mais baratos. O consumidor continua entrando na loja, mas compra menos, troca de marca e parcela mais.

O varejo ampliado já apresenta perda de força. As vendas caíram em abril e maio, enquanto os supermercados também registraram recuo. A confiança do consumidor caiu pelo terceiro mês consecutivo, e a piora foi mais intensa justamente entre as famílias de menor renda.

Isso é muito ruim para a economia. O consumo das famílias representa aproximadamente dois terços do PIB brasileiro. Quando o consumidor fecha a carteira, o comércio vende menos, a indústria reduz encomendas, o investimento é adiado e a geração de empregos perde força.

O impacto também chega ao agronegócio. O consumidor não deixa de comer, mas muda o que coloca no prato. Troca cortes nobres por opções mais baratas, reduz produtos premium, procura embalagens menores e substitui proteínas. Essa mudança percorre supermercados, frigoríficos, laticínios, agroindústrias e, no final da cadeia, alcança o produtor rural.

Não basta oferecer mais crédito

A ampliação da isenção do Imposto de Renda e o novo Desenrola ajudam a aliviar parte do orçamento. São medidas importantes, mas insuficientes diante do tamanho do problema.

Não se resolve uma crise de endividamento apenas oferecendo mais crédito. Se a renda continuar comprometida e os juros permanecerem elevados, o novo empréstimo poderá apenas empurrar a dificuldade para a frente.

O Brasil precisa atacar as causas: controlar a inflação dos produtos essenciais, reduzir o custo do crédito, reorganizar as dívidas das famílias, aumentar a produtividade e recuperar a responsabilidade fiscal.

Juros sustentavelmente menores não são produzidos por decreto. Dependem de confiança, equilíbrio das contas públicas e estabilidade econômica.

O grande paradoxo brasileiro está diante de nós: nunca tivemos tanta gente trabalhando, mas também nunca tivemos tantas famílias endividadas e com tão pouco dinheiro livre.

A renda entra, os boletos chegam e a sobra desaparece.

Para milhões de brasileiros, o fim do mundo pode esperar. O problema urgente continua sendo chegar ao fim do mês.

Miguel Daoud

*Miguel Daoud é comentarista de Economia e Política do Canal Rural


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