Especialistas e líderes do setor analisam os impactos da geopolítica na cotonicultura brasileira

Tudo o que acontece “da porteira para fora” exige atenção permanente do produtor rural — especialmente no caso de culturas fortemente conectadas ao comércio global, como a cotonicultura.
No combate às incertezas do mercado internacional, especialistas e lideranças do setor reunidos no Dia do Algodão, evento promovido pela Associação Baiana dos Produtores de Algodão (Abapa) no Oeste da Bahia, avaliaram que o momento exige cautela, mas também celebra a solidez alcançada pelo algodão brasileiro.
Apesar das recentes discussões sobre tarifas protecionistas e medidas comerciais dos Estados Unidos, os analistas apontam que fatores geopolíticos, como conflitos armados no Oriente Médio e variações climáticas decorrentes de fenômenos como o El Niño, exercem peso mais direto no custo de produção e na logística do que o protecionismo norte-americano.
Gestão rigorosa e custos sob controle
De acordo com o pesquisador Renato Garcia Ribeiro, do Centro de Estudos Avançados em Economia Aplicada da Escola Superior de Agricultura da Universidade de São Paulo (Cepea/Esalq-USP), o impacto direto de taxações de insumos agrícolas específicos nos custos das lavouras tende a ser limitado pela diversificação de fornecedores, mas a dinâmica global exige monitoramento constante.
“Boa parte dos insumos é importada da África, da Ásia e do Oriente Médio. Hoje, os conflitos internacionais e guerras impactam muito mais os custos com fertilizantes do que a taxação americana em si”, explicou Ribeiro.
O pesquisador alertou que a rentabilidade do negócio depende, mais do que nunca, da eficiência administrativa na propriedade.
“A gestão precisa ser feita na ponta do lápis. A agricultura não admite mais erros na tomada de decisão ou falhas de planejamento.”, disse.
Protagonismo e qualidade garantem mercado ao Brasil
A consolidação do Brasil como maior exportador mundial de algodão foi destacada como a principal blindagem do setor frente às instabilidades globais. O país envia para o exterior cerca de 80% de tudo o que produz na cotonicultura.
“O algodão brasileiro vive um excelente momento. Exportamos um produto de alta qualidade, rastreável e certificado. Isso abriu portas e nos dá um mercado garantido”, afirmou Gustavo Piccoli, presidente da Associação Brasileira dos Produtores de Algodão (Abrapa).
“Questões geopolíticas e taxações sempre vão existir, mas não impactam diretamente o nosso negócio neste primeiro momento.”, disse Piccoli
Concorrência e suporte técnico ao produtor
Apesar do otimismo, a ascensão do Brasil no topo do mercado internacional traz novos desafios na relação com concorrentes históricos. A presidente da Abapa, Alessandra Zanotto, destacou que a liderança brasileira reconfigurou o xadrez do comércio mundial.
“A nossa posição como maior exportador tem incomodado bastante os concorrentes norte-americanos, o que gera preocupação no curto prazo”, ponderou Zanotto.
“O papel da Abapa é atuar como ponte de informação e suporte técnico para que o produtor possa reagir com agilidade a essas transformações permanentes do mercado.”, disse Zanotto.
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