Europa pode fechar uma porta, a Ásia pode abrir várias

A decisão da União Europeia de manter suspensas as compras de carne bovina brasileira por, no mínimo, dois anos representa um desafio para o setor. O motivo está ligado às exigências europeias sobre o controle de antimicrobianos na produção animal, um tema que ganhou importância crescente no comércio internacional.
É um revés para um mercado tradicional e de elevado valor agregado. Mas seria um erro analisar essa notícia apenas pelo lado negativo.
Ela também reforça uma necessidade que o Brasil já deveria ter transformado em estratégia: ampliar o número de destinos para a carne bovina nacional.
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O centro do mercado mundial mudou
Durante muitos anos, a Europa ocupou posição de destaque entre os compradores da carne brasileira. Hoje, porém, o eixo do consumo mundial está cada vez mais concentrado na Ásia.
A China tornou-se, com ampla vantagem, o maior destino das exportações brasileiras. Ao lado dela estão mercados importantes como Hong Kong, Emirados Árabes Unidos, Arábia Saudita, Israel, Filipinas, Singapura, Malásia, Vietnã, Jordânia, Kuwait, Catar, Omã e Líbano.
Essa mudança não é circunstancial. Ela acompanha o crescimento populacional, o aumento da renda e a expansão do consumo de proteínas em boa parte do continente asiático.
As próximas fronteiras
Dois mercados permanecem como prioridades para a pecuária brasileira: Japão e Coreia do Sul.
São países com elevado poder de compra, consumidores tradicionais de carne bovina e que ainda mantêm restrições sanitárias à carne in natura produzida no Brasil.
A abertura desses mercados reduziria a concentração das exportações na China e ampliaria significativamente as oportunidades para toda a cadeia pecuária.
Outro fator que merece atenção é a situação dos Estados Unidos. O país atravessa um dos menores ciclos de oferta bovina de sua história recente, resultado da redução do rebanho e dos efeitos prolongados da seca. Dependendo da evolução desse cenário e das condições comerciais, os americanos poderão ampliar suas importações de carne, abrindo mais uma oportunidade para o Brasil.
O desafio agora é adaptar-se
O mercado internacional tornou-se cada vez mais exigente.
Questões sanitárias, ambientais e de rastreabilidade deixaram de ser diferenciais para se transformar em requisitos básicos para acessar os principais compradores do mundo.
Nesse aspecto, a pecuária brasileira possui uma vantagem importante. O setor alcançou elevado grau de profissionalização, incorporou tecnologia, aumentou a produtividade e demonstrou capacidade de responder rapidamente às exigências dos mercados internacionais.
Na questão dos antimicrobianos, por exemplo, o Brasil já está reforçando seus controles e adequando seus protocolos para atender às exigências dos países importadores.
Competitividade também se constrói
A discussão não deve ser apenas sobre recuperar o mercado europeu.
Ela deve servir para acelerar a abertura de novos mercados e consolidar a imagem da carne brasileira como uma das mais competitivas, seguras e eficientes do mundo.
Quem depende de poucos compradores fica mais vulnerável às mudanças de regras. Quem amplia mercados ganha estabilidade, reduz riscos e fortalece toda a cadeia produtiva.
A Europa continua sendo importante. Mas o futuro da pecuária brasileira dependerá cada vez mais da capacidade de conquistar novos clientes, atender padrões sanitários cada vez mais rigorosos e transformar qualidade em vantagem competitiva. Esse é o caminho para que o Brasil continue sendo uma potência mundial da carne, independentemente das portas que eventualmente se fechem.

*Miguel Daoud é comentarista de Economia e Política do Canal Rural
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