domingo, julho 26, 2026
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A rentabilidade do agro está sendo comprimida, e o juro alto faz parte do problema


Durigan atribui pressão sobre juros no Brasil ao cenário global
Foto gerada por IA

O agronegócio brasileiro vive hoje um paradoxo. Continua aumentando a produção, investindo em tecnologia e sustentando boa parte das exportações do país. Mas, para muitos produtores, produzir mais já não significa ganhar mais.

Essa realidade pode ser resumida por uma imagem simples: uma prensa.

O produtor rural está no centro de duas forças que comprimem sua rentabilidade. De um lado, os preços internacionais das commodities perderam parte do impulso observado na última década. De outro, o custo do dinheiro aumentou e passou a pesar cada vez mais sobre a atividade.

O resultado é uma rentabilidade menor justamente em um setor que depende intensamente de crédito para produzir.

O capital mudou de destino

Durante muitos anos, os mercados financeiros apostaram fortemente nas commodities.

O crescimento da China e de outras economias emergentes sustentava a expectativa de uma demanda crescente por alimentos, proteínas e matérias-primas. Esse ambiente atraía investimentos e ajudava a sustentar os preços agrícolas.

Hoje, parte desse capital mudou de direção.

A inteligência artificial abriu uma nova fronteira tecnológica. Empresas ligadas à inovação, à infraestrutura digital e ao processamento de dados passaram a concentrar grandes volumes de investimentos, atraindo recursos que antes também abasteciam mercados como o das commodities.

Essa migração não explica, sozinha, a formação dos preços agrícolas. Mas ajuda a entender por que o cenário internacional se tornou menos favorável à valorização desses produtos.

Quando a rentabilidade diminui

A queda dos preços internacionais seria menos preocupante se os custos acompanhassem esse movimento.

Mas acontece exatamente o contrário.

Os custos de produção continuam elevados.

E há um deles que pesa sobre todos os demais: o custo do crédito.

Muita gente acredita que a Selic seja o juro pago pelo produtor rural.

Não é.

A Selic é apenas a taxa básica da economia.

Quando o dinheiro chega ao campo, ele já incorpora custo de captação, despesas operacionais, margem financeira e, principalmente, o risco da operação.

É aí que a pressão realmente começa.

É aqui que nasce o juro alto

O Banco não empresta dinheiro olhando para o retrovisor.

Empresta olhando para a capacidade futura de pagamento.

Se a rentabilidade diminui, a percepção de risco aumenta.

E quanto maior o risco, maior tende a ser o custo do crédito.

No agronegócio existe um agravante: o clima.

Secas, geadas, excesso de chuvas e outros eventos extremos podem comprometer uma safra inteira.

O papel estratégico do seguro rural

Por isso, o seguro rural deixa de ser apenas uma proteção ao produtor e passa a ser um dos pilares da política agrícola.

Quando existe um sistema de seguro robusto, parte das perdas provocadas pelo clima é absorvida pelas seguradoras. Isso reduz o risco da atividade, aumenta a segurança para quem financia a produção e permite oferecer crédito em condições mais favoráveis.

Os Estados Unidos são um bom exemplo. Mesmo com praticamente toda a área agrícola protegida por um sistema de seguro fortemente apoiado pelo governo, os produtores já enfrentam dificuldades provocadas pelo aumento dos custos e pela redução das margens de rentabilidade.

Se essa preocupação já existe em um país com ampla cobertura securitária, é fácil imaginar o desafio brasileiro, onde o seguro rural ainda alcança apenas uma parcela da produção e grande parte do risco continua nas costas do produtor.

Sem um programa consistente de seguro rural, o crédito tende a ficar mais caro, mais restritivo e mais seletivo.

Fortalecer o seguro rural não significa apenas indenizar perdas provocadas pelo clima. Significa reduzir o risco da atividade, ampliar o acesso ao crédito e criar condições para diminuir, de forma estrutural, o custo do capital no campo.

O círculo que aperta o campo

É exatamente aqui que surge a prensa.

A rentabilidade diminui.

O risco aumenta.

O crédito fica mais caro.

O custo financeiro sobe.

E a rentabilidade diminui novamente.

Forma-se um círculo vicioso que aperta cada vez mais a atividade rural.

 A redução da rentabilidade aumenta a percepção de risco. O risco eleva o custo do crédito. Juros mais altos ampliam os custos financeiros e reduzem novamente a rentabilidade do produtor, formando um círculo vicioso que comprime toda a atividade agropecuária.

Como romper esse ciclo

Nenhum setor prospera quando o custo do capital cresce continuamente.

Romper essa dinâmica exige um ambiente econômico mais previsível.

Quando o mercado percebe responsabilidade fiscal, controle das despesas públicas e estabilidade da dívida, as expectativas melhoram.

Com menor percepção de risco, os juros futuros tendem a recuar.

O crédito torna-se mais acessível.

O investimento volta a crescer.

E a pressão sobre o produtor começa, gradualmente, a diminuir.

Ao mesmo tempo, ampliar o seguro rural significa reduzir um dos principais fatores de risco da atividade e criar condições para que o crédito chegue ao campo com menor custo.

Muito além da porteira

O problema do agro brasileiro hoje não é falta de competência dentro da porteira.

É o excesso de custo fora dela.

Os desafios do setor também passam pelo ambiente macroeconômico, pelo mercado financeiro e pela forma como o risco é precificado.

O produtor administra diariamente o clima, o câmbio, os custos, a tecnologia e o mercado.

Mas nenhuma atividade consegue sustentar investimentos por muito tempo quando sua rentabilidade é comprimida e o custo do dinheiro sobe continuamente.

Fortalecer o agronegócio não significa apenas aumentar a produção.

Significa criar condições para que essa produção seja economicamente sustentável.

O fortalecimento do seguro rural, aliado a um ambiente de maior estabilidade fiscal e juros compatíveis com a realidade da produção, deixou de ser apenas uma reivindicação do campo.

Tornou-se uma necessidade estratégica para o Brasil.

Quando o produtor perde capacidade de investir, toda a cadeia sente os efeitos.

A oferta de alimentos torna-se mais vulnerável, os custos aumentam e a inflação chega à mesa do consumidor.

Por isso, proteger a renda de quem produz significa proteger também a segurança alimentar, a estabilidade econômica e a competitividade do agronegócio brasileiro.

Mais do que uma política para o campo, o seguro rural deve ser tratado como um investimento estratégico para o país.

O produtor aprendeu a conviver com o clima.

O que ele não consegue enfrentar sozinho é um ambiente econômico que comprime sua rentabilidade.

Aliviar essa pressão não interessa apenas ao campo. É uma condição para preservar a competitividade do agronegócio e fortalecer a economia brasileira.

Miguel Daoud

*Miguel Daoud é comentarista de Economia e Política do Canal Rural


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