Tarifaço dos EUA: socorro primeiro, soluções depois

A entrada em vigor das tarifas impostas pelos Estados Unidos abriu um novo capítulo para a economia brasileira. Empresas que exportavam normalmente passaram, praticamente da noite para o dia, a enfrentar um aumento expressivo de custos para acessar um de seus principais mercados.
Diante desse cenário, o governo federal anunciou um pacote de R$ 18,5 bilhões destinado às empresas afetadas.
Como toda medida econômica, o anúncio provocou reações imediatas. Houve quem elogiasse a rapidez da resposta e houve quem afirmasse que o pacote não resolve o problema. Em parte, ambos têm razão.
O que o pacote realmente faz
É preciso compreender qual é, afinal, o objetivo desse programa.
O pacote não foi criado para eliminar as tarifas impostas pelos Estados Unidos. Isso nenhum programa de crédito seria capaz de fazer.
Sua finalidade é outra: impedir que empresas saudáveis enfrentem dificuldades financeiras apenas porque sofreram um choque externo sobre o qual não tiveram controle. Essa diferença é fundamental.
Quando uma empresa perde receita de forma abrupta, a primeira consequência costuma ser a falta de capital de giro. Em seguida vêm a suspensão de investimentos, a redução da produção e, infelizmente, as demissões.
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É justamente nesse ponto que entram as linhas de crédito, os mecanismos de garantia, o apoio às exportações e os incentivos para investimento anunciados pelo governo.
Esses recursos oferecem aquilo que, em momentos de crise, vale muito: tempo. Tempo para reorganizar as operações. Tempo para buscar novos clientes. Tempo para adaptar produtos e processos.Tempo para atravessar um período de forte instabilidade.
Socorro não é solução definitiva
Naturalmente, surgem críticas. Alguns analistas afirmam que o governo apenas está colocando dinheiro em um problema que continuará existindo enquanto as tarifas permanecerem.
Essa observação merece ser considerada. Mas ela também precisa ser colocada na perspectiva correta.
Quando uma casa está pegando fogo, ninguém começa discutindo como deveria ter sido o projeto elétrico. Primeiro apaga-se o incêndio. Depois investigam-se as causas e corrigem-se os erros.
Na economia acontece algo semelhante. Quando um choque externo ameaça empresas, empregos e cadeias produtivas inteiras, a prioridade é impedir que um problema temporário provoque danos permanentes.
O aperfeiçoamento das políticas públicas é necessário. Mas ele não substitui a necessidade de agir diante da emergência.
O desafio começa agora
O verdadeiro desafio começa agora. As empresas precisarão acelerar a busca por novos mercados consumidores.
Será necessário ampliar exportações para a Ásia, o Oriente Médio, a América Latina e outros parceiros comerciais, reduzindo a dependência de um único destino.
Também será indispensável investir em inovação, agregar valor aos produtos brasileiros e aumentar a competitividade da indústria e da agroindústria.
Ao mesmo tempo, caberá ao governo intensificar as negociações diplomáticas para reduzir barreiras comerciais, ampliar acordos internacionais e preservar o acesso das empresas brasileiras aos mercados externos.
Nenhuma linha de crédito substitui acesso a mercados. Nenhum financiamento elimina uma tarifa. Mas ambos podem impedir que empresas desapareçam antes que uma solução definitiva seja construída.
Proteger empresas é proteger empregos
Há ainda um aspecto que não pode ser ignorado. Por trás de cada empresa existem trabalhadores, fornecedores, transportadores, produtores rurais e milhares de famílias que dependem daquela atividade econômica.
Quando uma empresa fecha as portas, o impacto vai muito além dos seus proprietários. Ele atinge empregos, renda, arrecadação e a economia de municípios inteiros.
Por isso, medidas emergenciais possuem uma lógica econômica clara. Elas não existem para substituir reformas estruturais. Existem para evitar que uma crise conjuntural provoque perdas irreversíveis.
O crédito dá fôlego, a competitividade garante o futuro
O pacote de R$ 18,5 bilhões deve ser analisado exatamente sob essa ótica. Ele não representa o fim do problema. Representa o início da resposta.
O sucesso dessa estratégia dependerá da capacidade de empresas e governo transformarem uma reação emergencial em uma agenda permanente de competitividade.
Diversificar mercados, investir em tecnologia, agregar valor à produção, ampliar acordos comerciais e fortalecer a presença do Brasil no comércio internacional serão os fatores que definirão o resultado dessa crise.
O crédito oferece o fôlego necessário para atravessar a tempestade.
Mas será a combinação entre produtividade, inovação, diplomacia comercial e capacidade de adaptação que permitirá ao Brasil sair desse episódio mais forte, mais competitivo e menos vulnerável a choques externos.

*Miguel Daoud é comentarista de Economia e Política do Canal Rural
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