O Brasil tinha margem para negociar com os Estados Unidos?

As tarifas impostas pelos Estados Unidos aos produtos brasileiros reacenderam o debate sobre a atuação do Brasil nas negociações comerciais. Para parte da imprensa e de analistas, o governo brasileiro teria sido pouco atuante ou perdido oportunidades para evitar o agravamento das barreiras.
Essa interpretação, porém, desconsidera um fator decisivo: diferentemente de outras economias, o Brasil chegou à disputa em posição de déficit comercial e com reduzida margem de barganha.
Antes de discutir se o país negociou pouco ou muito, é preciso responder a uma pergunta anterior: havia, de fato, espaço para uma negociação capaz de alterar esse cenário?
A resposta depende menos da habilidade diplomática e mais da posição econômica ocupada pelo Brasil na relação bilateral com os Estados Unidos.
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Uma disputa que deixou de ser apenas comercial
Ao contrário de União Europeia, Japão e Coreia do Sul, o Brasil entrou nessa disputa em uma condição estruturalmente menos favorável. Além disso, o conflito deixou de ser apenas comercial e passou a envolver interesses políticos, tecnológicos e geopolíticos.
O impasse começou a ganhar forma em 2025, quando o governo Donald Trump adotou uma política tarifária mais agressiva. Inicialmente, o Brasil permaneceu na menor faixa de tributação. Meses depois, porém, Washington elevou para 50% as tarifas sobre diversos produtos brasileiros e abriu uma investigação com base na Seção 301 da Lei de Comércio de 1974.
A partir desse momento, a discussão deixou de tratar apenas de tarifas. Passou a incluir temas como comércio digital, propriedade intelectual, acesso ao mercado de etanol, questões ambientais e sistema de pagamentos, ampliando significativamente a complexidade das negociações.
Representantes brasileiros participaram de reuniões técnicas e diplomáticas ao longo desse processo, mas surgiram críticas de que o país teria negociado pouco.
O déficit reduzia a margem de negociação
O problema é que essa avaliação costuma ignorar um dado central: o comércio bilateral é deficitário para o Brasil.
Enquanto países com grandes superávits comerciais podem oferecer concessões reduzindo parte desse excedente, economias deficitárias dispõem de muito menos espaço para negociar. Essa diferença ajuda a explicar por que comparar o Brasil com União Europeia, Japão ou Coreia do Sul leva a conclusões equivocadas.
Esses países chegaram às negociações em posição muito mais confortável. A União Europeia utilizou seu superávit para ampliar compras de gás natural americano, aumentar investimentos e flexibilizar regras regulatórias. Japão e Coreia do Sul seguiram caminho semelhante, oferecendo novos investimentos e abertura de mercados em setores estratégicos.
A China, por sua vez, possui um enorme superávit comercial, domina cadeias globais de minerais críticos e exerce influência sobre setores essenciais da economia mundial. Já o Reino Unido, embora registre déficit comercial com os Estados Unidos, dispõe de ativos estratégicos nas áreas financeira, tecnológica e de defesa que ampliam seu poder de negociação.
O Brasil negociava em outra realidade. Sua pauta exportadora permanece concentrada em produtos agropecuários, minerais e bens industriais de média intensidade tecnológica. Além disso, o país já apresentava déficit crescente na balança bilateral, reduzindo ainda mais sua margem para oferecer concessões sem ampliar esse desequilíbrio.
Os temas em jogo iam além das tarifas
Outro fator pouco observado é que a investigação da Seção 301 extrapolou a discussão sobre tarifas. Os Estados Unidos passaram a questionar temas ligados ao ambiente digital, ao Pix, à propriedade intelectual, ao acesso do etanol americano ao mercado brasileiro, ao combate ao desmatamento ilegal e às investigações sobre trabalho forçado.
Cada um desses temas envolve decisões permanentes de política pública e soberania regulatória. Não se tratava apenas de reduzir impostos de importação, mas de discutir regras que afetam o sistema financeiro, a política ambiental, a legislação de propriedade intelectual e setores estratégicos da economia brasileira.
Nesse contexto, qualquer concessão deixava de ser exclusivamente comercial e passava a produzir efeitos internos de longo prazo, tornando a negociação muito mais complexa.
Retaliar resolveria o problema?
Também houve quem defendesse uma retaliação brasileira às medidas americanas. Politicamente, essa posição encontra apoiadores. Economicamente, porém, seus resultados seriam limitados.
As tarifas passaram a ser fundamentadas na Seção 301, instrumento jurídico consolidado na legislação americana. Uma resposta brasileira dificilmente encerraria o conflito e poderia ampliar uma escalada em uma relação comercial na qual Washington dispõe de instrumentos significativamente mais fortes.
Além disso, os Estados Unidos preservaram diversos produtos considerados estratégicos para sua própria economia, demonstrando que o objetivo não era interromper completamente o comércio bilateral, mas aumentar a pressão sobre setores específicos.
Negociar é diferente de ter poder de negociação
Todo esse episódio evidencia uma diferença importante entre negociar e possuir poder de negociação.
A diplomacia continua sendo essencial, mas seus resultados dependem, antes de tudo, da posição econômica de cada país. Nações que acumulam grandes superávits, lideram setores tecnológicos estratégicos ou exercem influência sobre cadeias globais de produção chegam às negociações em condições muito diferentes das enfrentadas por economias deficitárias.
Por isso, a principal questão talvez não seja se o Brasil negociou pouco ou muito, mas se o país vem construindo, ao longo das últimas décadas, uma economia suficientemente competitiva, inovadora e estratégica para negociar em condições de maior equilíbrio com as grandes potências.
O comércio internacional tornou-se cada vez mais um instrumento de política externa, segurança econômica e competição tecnológica. Tarifas passaram a ser apenas uma das ferramentas desse processo.
A diplomacia continuará sendo indispensável. Mas ela produz resultados mais consistentes quando é sustentada por produtividade, competitividade, inovação e relevância econômica.

*Miguel Daoud é comentarista de Economia e Política do Canal Rural
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