Menos seguro rural, mais risco para o campo

O governo federal voltou a cortar recursos do Programa de Subvenção ao Prêmio do Seguro Rural (PSR), principal instrumento de apoio à contratação de seguro agrícola no país.
Em junho de 2026, foram cancelados mais de R$ 56,3 milhões do orçamento do programa. Somado ao bloqueio anterior de R$ 461,7 milhões, os recursos disponíveis caíram para cerca de R$ 473,8 milhões, menos da metade dos R$ 1,01 bilhão previstos originalmente.
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A decisão ocorre justamente em um período de crescente instabilidade climática, quando secas, enchentes, geadas e outros eventos extremos têm provocado prejuízos bilionários ao setor.
O seguro rural não protege apenas o produtor. Ele reduz riscos para bancos, cooperativas, agroindústrias e ajuda a manter a estabilidade da produção de alimentos.
Quando funciona bem, permite que o agricultor invista com mais segurança e tenha condições de se recuperar após uma perda climática. Apesar de sua importância, o seguro rural ainda cobre uma parcela muito pequena da área agrícola brasileira.
Isso não acontece porque o produtor desconhece seu valor. O problema é que, muitas vezes, o seguro combina custo elevado, subvenção insuficiente e coberturas que não acompanham a dimensão dos riscos enfrentados no campo.
Em muitos casos, o agricultor paga caro por uma proteção limitada. Diante dessa realidade, acaba assumindo o risco por conta própria.
Não por acaso, a contratação permanece concentrada principalmente em estados como Paraná e Rio Grande do Sul. Em grandes regiões produtoras, como Mato Grosso, a adesão continua relativamente baixa.
Talvez o maior paradoxo esteja justamente aí. O Brasil discute hoje mecanismos para renegociar dívidas de produtores afetados por secas, enchentes e outras adversidades climáticas. Ao mesmo tempo, reduz recursos de uma ferramenta que poderia evitar parte desses problemas antes mesmo que eles acontecessem.
Em países concorrentes, programas robustos de subvenção permitem que grande parte da área cultivada esteja protegida. Aqui, o seguro continua sendo exceção quando deveria ser regra.
A economia obtida com os cortes pode se transformar em uma conta muito maior no futuro.
Perdas de safra significam aumento da inadimplência, renegociação de dívidas, redução da arrecadação e novos pedidos de ajuda emergencial ao governo.
Em outras palavras, o país economiza na prevenção e depois paga mais caro nas consequências. Talvez tenha chegado a hora de discutir um novo modelo para o seguro rural brasileiro.
Uma alternativa seria vincular a contratação do seguro às operações de crédito rural, acompanhada de uma política permanente de subvenção que garanta custos acessíveis ao produtor. O objetivo não seria criar mais uma obrigação, mas ampliar a base segurada, diluir riscos e fortalecer toda a cadeia produtiva.
O mercado segurador e ressegurador, tanto nacional quanto internacional, possui capacidade para participar dessa estrutura. O que falta é escala, previsibilidade e uma política consistente de longo prazo.
O Brasil precisa decidir se continuará gastando bilhões para renegociar prejuízos depois das perdas ou se passará a investir mais na prevenção dos riscos.
O agronegócio brasileiro não pede privilégios. Pede instrumentos compatíveis com os desafios que enfrenta diariamente.
Talvez esteja na hora de abandonar a cultura da renegociação após a tragédia e avançar para uma cultura de prevenção antes da perda. Para um país que depende cada vez mais da força de sua agropecuária, essa pode ser não apenas uma escolha inteligente, mas uma necessidade.

*Miguel Daoud é comentarista de Economia e Política do Canal Rural
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