domingo, junho 21, 2026
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O ciclo está mudando: o capital está deixando as commodities?


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Foto: Pixabay/ Arte: Canal Rural

Durante boa parte dos últimos vinte anos, as commodities viveram um cenário quase perfeito. Juros baixos, abundância de liquidez e o crescimento acelerado da China atraíram bilhões de dólares para mercados ligados a matérias-primas.

Foi o período do chamado superciclo das commodities.

A urbanização chinesa elevou o consumo de energia, minério, alimentos e infraestrutura em uma escala inédita. Os preços responderam com fortes altas e o capital financeiro acompanhou esse movimento.

Mas o ambiente que impulsionou esse ciclo começa a mudar.

O novo destino do dinheiro

A China continuará comprando grandes volumes de soja, milho e carnes. A diferença é que seu ritmo de expansão já não é o mesmo das últimas décadas.

Ao mesmo tempo, surge um novo pólo de atração para o capital global: a inteligência artificial.

Data centers, semicondutores, infraestrutura digital, geração de energia e empresas de tecnologia estão absorvendo investimentos de centenas de bilhões de dólares. Para muitos investidores, a IA representa hoje o que a China representou para as commodities no início dos anos 2000.

O dinheiro está mudando de endereço.

E essa mudança importa para o agronegócio.

Quando os juros sobem, a renda fixa volta a competir fortemente pelo capital. Quando surge um setor capaz de prometer crescimento exponencial, essa disputa se intensifica ainda mais.

As commodities passam a concorrer não apenas com os títulos públicos, mas também com um dos maiores ciclos de investimento tecnológico da história.

A comida continua necessária

Nada disso significa queda da demanda por alimentos.

A população mundial continua crescendo, o consumo de proteína animal avança e a necessidade de produção agrícola permanece intacta.

O que pode mudar é a formação dos preços.

Muitos produtores observam apenas a oferta e a demanda física. Porém, os mercados agrícolas também são fortemente influenciados pelo fluxo financeiro.

Na soja, por exemplo, o volume negociado nos mercados futuros supera várias vezes o volume físico efetivamente produzido. Fundos, bancos e investidores movimentam recursos diariamente em busca de rentabilidade, proteção ou especulação.

Nem sempre é a safra que move o preço. Muitas vezes é o dinheiro.

Quando os investidores enxergam crescimento econômico, inflação ou escassez futura, aumentam posições e impulsionam as cotações.

Quando encontram juros elevados ou oportunidades mais atraentes em outros setores, reduzem exposição e pressionam os preços.

O crédito entra na equação

Existe ainda um segundo efeito que merece atenção.

Os mesmos juros elevados que atraem capital para a renda fixa também encarecem o financiamento da atividade agrícola.

O produtor sente isso diretamente no custo do crédito, nas renegociações de dívidas e na redução das margens financeiras. Em um setor que depende intensamente de capital para custeio, investimento e armazenagem, juros mais altos significam maior pressão sobre o caixa.

Nos últimos anos, essa realidade já começou a aparecer. O aumento do endividamento em diversas regiões produtoras mostra que o problema não é apenas produtivo. É também financeiro.

O produtor não compete apenas por mercados. Compete também por capital.

O alerta para o agro

O mundo não caminha para uma queda da demanda por alimentos.

A questão é outra.

O capital que ajudou a impulsionar o ciclo das commodities durante décadas agora encontra concorrentes poderosos nos juros elevados e na inteligência artificial.

Isso pode significar um mercado menos dependente da liquidez global e mais dependente dos fundamentos agrícolas.

A consequência, produtividade, eficiência, gestão de risco e controle de custos tendem a se tornar ainda mais importantes.

A comida continuará indispensável.

A grande questão é se o capital continuará chegando ao campo com a mesma intensidade do passado.

Nos próximos anos, o produtor não disputará apenas mercados. Disputará também o dinheiro necessário para produzir.

E essa pode ser uma das mudanças estruturais mais importantes para o agronegócio na próxima década.

Miguel Daoud

*Miguel Daoud é comentarista de Economia e Política do Canal Rural


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