Encontro de Lula com lideranças da UE é avanço, mas Brasil precisa correr contra o tempo

O encontro do presidente Luiz Inácio Lula da Silva com a presidente da Comissão Europeia, Ursula von der Leyen, e com o presidente do Conselho Europeu, António Costa, abriu uma nova frente de negociação para tentar evitar o bloqueio às carnes brasileiras no mercado europeu.
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A criação de um grupo de trabalho bilateral representa um avanço político importante. Mas o problema continua sem solução e a restrição da União Europeia segue prevista para entrar em vigor em 3 de setembro de 2026.
O Brasil possui um dos sistemas de produção de proteína animal mais competitivos do mundo e ocupa posição estratégica no abastecimento global de alimentos. O impasse está em outro ponto. A União Europeia afirma que o país ainda não apresentou garantias suficientes de conformidade com suas novas regras sobre o uso de antimicrobianos na produção animal.
Em outras palavras, a Europa exige comprovação documental, técnica e sanitária de que os produtos exportados atendem aos padrões estabelecidos pelo bloco.
Não basta afirmar que a produção é segura. É preciso demonstrar isso de forma clara e verificável.
A Europa define padrões
As normas europeias restringem o uso de antimicrobianos como promotores de crescimento e limitam a utilização de substâncias consideradas essenciais para a medicina humana.
O tema está ligado à crescente preocupação global com a resistência antimicrobiana e vem influenciando regulamentações em diversos mercados.
Por isso, a relevância da União Europeia vai além do volume que comprá do Brasil. O mercado europeu funciona como uma referência regulatória internacional. Quem atende seus padrões fortalece sua reputação. Quem falha corre o risco de enfrentar questionamentos em outros mercados.
O Brasil não pode perder por burocracia
O produtor rural brasileiro investiu em tecnologia, produtividade e qualidade. Os frigoríficos avançaram em rastreabilidade, controle sanitário e eficiência. Seria um erro permitir que falhas de documentação, comprovação ou articulação institucional colocassem em risco um mercado estratégico.O Brasil não pode transformar uma questão regulatória em uma crise de credibilidade.
O grupo bilateral criado após a reunião precisa atuar com rapidez e objetividade. O país terá de apresentar dados, sistemas de controle, rastreabilidade, fiscalização e garantias capazes de atender às exigências europeias.
Pode haver interesses protecionistas por trás de parte da pressão europeia? Sim. A agricultura do continente sempre exerceu forte influência política. Mas isso não elimina a necessidade de o Brasil demonstrar tecnicamente que cumpre os requisitos exigidos.
O agronegócio é um dos pilares da economia brasileira e um dos principais responsáveis pelo superávit comercial do país. Mas, no comércio internacional moderno, produzir bem já não basta. É preciso provar origem, processo, conformidade e segurança sanitária.
A reunião na França abriu uma porta para o diálogo. Agora cabe ao Brasil apresentar as respostas necessárias. Porque o que está em jogo não é apenas o acesso ao mercado europeu. É a credibilidade do país como fornecedor de alimentos para os mercados mais exigentes do mundo.
Miguel Daoud

*Miguel Daoud é comentarista de Economia e Política do Canal Rural
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