Como a biotecnologia ajudou a colocar o Brasil no topo da produção mundial de soja?

A soja brasileira passou por uma das maiores transformações do agronegócio mundial nas últimas duas décadas. Nesse período, o Brasil deixou de ser apenas um importante produtor para assumir a liderança global na produção e exportação da oleaginosa, impulsionado por avanços em biotecnologia, genética, infraestrutura e profissionalização do campo.
Durante workshop sobre biotecnologia e inovação na soja promovido pela Bayer nesta segunda-feira (15), em São Paulo, Fabiano Oliveira, líder de negócios de soja da Bayer Brasil, destacou que a demanda mundial pelo grão praticamente dobrou nos últimos 20 anos, com o Brasil responsável por absorver cerca de 60% desse crescimento.
“Foi muito melhor ser sojicultor no Brasil do que em qualquer outro país nos últimos 20 anos”, afirmou. Segundo ele, o desempenho brasileiro foi construído sobre quatro pilares, que são ambiente institucional, infraestrutura, tecnologia e perfil do agricultor. Entre os pontos citados estão leis ligadas à propriedade intelectual, à proteção de cultivares e à biossegurança, que ajudaram a criar um ambiente favorável à inovação.
“Hoje, o Brasil tem um grande potencial competitivo fundamentado nesses quatro pilares. O ambiente institucional, com leis relacionadas à propriedade intelectual e à proteção de cultivares se junta a esses fatores. Um outro ponto importante é a infraestrutura, com hidrovias, rodovias e outros sistemas logísticos capazes de escoar cerca de 180 milhões de toneladas, algo que poucos países conseguem fazer”, explicou.
O impacto da soja, no entanto, vai além da porteira. Oliveira ressaltou que a cultura contribuiu para o desenvolvimento econômico e social de diversas regiões produtoras. “A soja foi um veículo de progresso nos últimos anos. Onde teve soja, teve desenvolvimento”, afirmou.
Biotecnologia e sementes
A importância da inovação também foi debatida a partir da produção de sementes e do desenvolvimento de novas biotecnologias. Fábio Passos, diretor de soja comercial da Bayer, explicou que uma nova tecnologia pode levar cerca de 15 anos para chegar ao campo, exigindo testes, adaptação genética às diferentes regiões produtoras, avaliação de ciclo, maturação, pacote sanitário e multiplicação de sementes.
Segundo ele, o desafio é desenvolver soluções em larga escala que sejam relevantes para o produtor e adaptadas às condições brasileiras. Tecnologias foram citadas como exemplo de ferramentas que ajudam no manejo da lavoura e na proteção contra desafios fitossanitários.
Representando o setor de sementes, o CEO da Jotabasso destacou que a semente é o principal veículo de entrega da inovação ao agricultor. Para ele, o investimento das sementeiras não se limita a equipamentos, mas envolve também pessoas, processos e controle de qualidade.
“A semente carrega inovação e tecnologia para os produtores”, afirmou. De acordo com o executivo, uma semente de alto vigor pode potencializar a produtividade da lavoura em até 10%, reforçando a importância de materiais certificados e bem manejados.
Pompilio Rocha, vice-presidente da Fundação Chapadão e participante da Aprosoja Mato Grosso do Sul, destacou que a adoção de tecnologias depende da capacidade de avaliar o desempenho dos materiais nas condições específicas de cada fazenda.
Segundo ele, a realização de áreas experimentais é uma ferramenta essencial para identificar quais cultivares apresentam melhor desempenho em cada ambiente produtivo. ”Nem sempre a variedade mais plantada em uma região será a mais adequada para todas as propriedades, tornando a experimentação uma etapa importante no processo de tomada de decisão”, comentou.
Pompilio também enfatizou que a tecnologia no campo vai além da aquisição de máquinas e equipamentos. Para ele, o conhecimento aplicado ao planejamento da safra e ao manejo das lavouras é um dos principais fatores para o sucesso da produção.
Segurança jurídica e combate à pirataria
O debate também abordou os impactos da pirataria de sementes na cadeia produtiva da soja. De acordo com Catharina Pires, diretora de Germoplasma e Biotecnologia da CropLife Brasil, sementes ilegais já representam mais de 28% do mercado de soja no Rio Grande do Sul, acima da média nacional, estimada em 11%.
Segundo ela, a prática gera perdas estimadas em R$ 10 bilhões por ano para a cadeia da soja brasileira, afetando produtores, empresas, exportadores e a arrecadação pública.
Catharina alertou ainda que o uso de sementes de origem ilegal compromete qualidade, vigor, pureza genética, germinação e produtividade. Além do prejuízo econômico, há riscos sanitários, especialmente em regiões de fronteira, com a possibilidade de entrada de pragas e problemas fitossanitários sem fiscalização.
China mira na autossuficiência
Além dos desafios internos, o mercado brasileiro também acompanha os movimentos da China, principal destino da soja nacional. Durante o evento, Fabio Meneghini, um dos fundadores da Veeries, empresa especializada em inteligência de mercado para o agronegócio, afirmou que o país asiático pretende ampliar sua autossuficiência na produção de soja dos atuais 15% para 60% nos próximos anos.
Segundo ele, esse movimento poderia reduzir a dependência chinesa em relação ao mercado internacional e impactar os principais exportadores globais da oleaginosa. Atualmente, a China importa cerca de 112 milhões de toneladas de soja por ano. Pelas projeções apresentadas, esse volume poderia recuar para aproximadamente 99 milhões de toneladas em 2030 e para 82 milhões de toneladas em 2035.
Meneghini explicou que a estratégia chinesa passa pelo aumento da produção doméstica, por ganhos de produtividade e pela busca de maior independência em relação ao mercado externo. Apesar disso, ponderou que metas semelhantes já foram anunciadas em outros momentos pelo governo chinês sem serem plenamente alcançadas.
Na avaliação do especialista, a competitividade da soja brasileira continua sendo um dos principais obstáculos para a execução desses planos.
“O Brasil consegue entregar soja à China com custos bastante competitivos, resultado dos ganhos de produtividade obtidos nas últimas décadas e da evolução da infraestrutura logística”, destacou.
Meneghini observou ainda que, pela primeira vez, a China passou a discutir de forma mais ampla o uso de biotecnologia como ferramenta para ampliar sua produção de soja e alcançar os objetivos traçados para o setor.
Biocombustíveis podem abrir nova frente
Por fim, como alternativa para reduzir a dependência do mercado chinês, Meneghini apontou os biocombustíveis como uma das principais oportunidades para a cadeia da soja brasileira nas próximas décadas. Segundo ele, iniciativas ligadas ao biodiesel, ao combustível sustentável de aviação (SAF) e ao diesel renovável podem ampliar significativamente a demanda doméstica por óleo vegetal.
Na avaliação do especialista, o crescimento do consumo interno tende a ganhar relevância nos próximos anos, complementando o papel desempenhado pelas exportações na expansão da sojicultura brasileira.
Meneghini também destacou que os avanços tecnológicos obtidos no campo permitiram elevar a produção nacional sem necessidade de expansão proporcional da área cultivada. Segundo ele, os ganhos de produtividade registrados nas últimas décadas evitaram a incorporação de aproximadamente 31 milhões de hectares adicionais para alcançar os atuais níveis de produção de soja no país.
Por outro lado, o executivo observou que ainda existem diferenças significativas de desempenho entre os produtores brasileiros. Enquanto os agricultores mais tecnificados seguem ampliando a produtividade acima da média nacional, parte dos produtores de menor porte ainda enfrenta dificuldades para acompanhar a velocidade da evolução tecnológica.
Para ele, reduzir essa diferença será um dos principais desafios da cadeia produtiva nos próximos anos. A ampliação do acesso à tecnologia, à informação e às boas práticas de manejo será fundamental para que um número maior de produtores consiga elevar a produtividade e manter a competitividade da soja brasileira no cenário global.
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