De pior café a grão premiado ‘fora da cartilha’: indicação geográfica redime Caparaó

O nome é chique, mas o objetivo do Connection Terroirs é singelo: mostrar como produtos com indicação geográfica (IG) traduzem a essência de um país e podem alavancar o turismo, desenvolver regiões carentes e conferir identidade a um território e a um povo.
O evento, que ocorre em Gramado, na Serra Gaúcha, até 13 de junho, traz um exemplo concreto do ideal que busca transmitir: o Café Caparaó, antes afamado como o pior do Brasil e produzido em uma das regiões com o Índice de Desenvolvimento Humano (IDH) entre os mais baixos do país, mas agora portador de selo de origem e vencedor de prêmios.
“Nós produzimos entre a Zona da Mata Mineira e o Espírito Santo, e diziam que fazíamos o pior café possível. Quando algum produtor conseguia produzir um ‘melhorzinho’, tinha de dizer que era colhido em outra região, do contrário, não conseguia vender. Éramos realmente o ‘patinho feio’ do café”, lembra Cecília Nakao, diretora-presidente da Associação de Produtores de Cafés Especiais do Caparaó (Apec).
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A qualidade inferior ocorria pela florada e maturação irregulares, típicas de lavouras em áreas montanhosas. A região de Caparaó é composta de dez municípios capixabas e seis mineiros, localizados a mais de 1.200 metros de altitude. “Há 10, 15 anos, nossos produtores colhiam na época de chuva, sem estrutura, sem cobertura ou secador, em terreno de terra, ou seja, tudo convergia para um resultado essencialmente ruim na xícara.”
Tudo começou a mudar em 2013, com o que Cecília chama de “convergência cósmica”, um acontecimento que surpreendeu a todos: a vitória do produtor José Alexandre de Lacerda, de Espera Feliz, Minas Gerais, na 9ª Edição do Concurso Nacional Abic de Qualidade do Café (Safra 2012). “Quem espalhou a história da vitória do prêmio foi o pai do produtor, mas ninguém acreditou nele. Todos acharam que ele tinha se enganado ou interpretado errado o resultado”, conta Cecília, aos risos.
Segundo ela, com esse reconhecimento, os produtores da região se juntaram para entender mais sobre cafés especiais, realizando cursos de torra, de barista e de classificação.
“A partir de então, surgiu o movimento coletivo com o desejo de criar a associação. Em seguida, chamamos o Sebrae, que já trabalhava com a gente na questão do turismo, para um diagnóstico de nosso produto. Eles acreditaram em nosso café mais do que nós mesmos. Já tínhamos um levantamento informal dos produtores que tinham mais consistência na produção e as coisas foram fluindo”, relembra.

Em meio a todo o processo, técnicos agrícolas passaram também a enxergar o potencial dos produtores, ministrando treinamentos e capacitações. “Inicialmente, o plano era ir de um café muito ruim para um pouco ruim, tentando sair da categoria de bebida rio/riada para a bebida dura. Mas ninguém estava pensando em conquistar mercado.”
Hoje, a Apec possui cerca de 170 produtores, com mais de 100 marcas de cafés especiais, um universo ínfimo diante dos mais de dois milhões de produtores do grão no país, mas o suficiente para a conquista de oito entre os dez melhores cafés arábica do país no prêmio Coffee of the Year 2025 e cuja exclusividade ajudou a região a conquistar a indicação geográfica de denominação de origem, categoria que foca na qualidade superior ligada ao terroir.
O selo reconhece as condições naturais que favorecem a produção de grãos superiores. Assim, altitude, clima, relevo e solo formam a combinação que proporciona as características únicas ao café na região, trazendo uma bebida caracterizada pela alta doçura, acidez equilibrada e notas sensoriais frutadas.
Cecília conta que 95% dos produtores de Caparaó são pequenos e cultivam em parcelas exíguas de terra, com mão de obra familiar. “Quase nada é mecanizado porque as lavouras são em locais muito íngremes. O terreiro de secagem do café é, em muitos casos, no quintal das casas dos produtores, quase que encostado na parede da casa”, detalha.
Café “fora da cartilha”
Após a conquista da IG de denominação geográfica em 2021 após sete anos de processo junto ao Instituto Nacional da Propriedade Industrial (Inpi), o objetivo da vez é atrair mais olhares para a região, trazendo melhora no IDH – ainda entre os mais baixos de Minas Gerais e Espírito Santo – por meio do turismo.
“Temos entre 30 e 40 produtores que estão investindo em turismo, atraindo visitantes para suas propriedades e mostrando o modo de produzir no Caparaó. Já entendemos que não conseguimos transformar o território todo de uma vez, por isso, focamos em núcleos onde se despontam alguns produtores empreendedores que se envolvem mais, fortalecem sua marca e a região, indo a eventos, gerando quase que um ‘fator de inveja’ aos outros cafeicultores para que se envolvam e façam o mesmo”.
Cecília também acredita que a fama de “rasgador de cartilha” do Caparaó é outro fator que tende a impulsionar ainda mais a região. “Não seguimos a cartilha de como produzir cafés especiais, temos a nossa própria, o que acaba dando muito certo. Em algumas regiões do Caparaó não recolhemos o café colhido para o terreiro no mesmo dia, sendo que essa questão é aplicada até mesmo na prova da certificação de café. Eu mesma já levei o café para o terreiro somente após dez dias e ele não sofreu qualquer alteração”, conta.
De acordo com ela, tal comportamento ilustra o sentimento de inovação que tem tomado conta de Caparaó, com produtores que acreditam não importar a quantidade de erros cometidos, mas sim a chegar na solução adequada para cada caso. “Em essência, não gostamos de seguir padrões.”
Afinal, ninguém embarca em navios, aviões ou cruza montanhas para provar uma xícara de café. O que faz um território ser inesquecível são as histórias que o café conta e o ambiente em que ele está inserido.
*O jornalista viajou para Gramado (RS) a convite da organização do Connection Terroirs
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