O cabresto de Washington

Quando o governo dos Estados Unidos sinaliza a intenção de classificar o PCC e o Comando Vermelho como organizações terroristas estrangeiras, a primeira reação do público é o aplauso.
Afinal, quem seria contra combater o crime organizado que assola as metrópoles brasileiras? No entanto, o jornalismo de profundidade exige que olhemos para além da superfície. Essa movimentação da Casa Branca não é uma operação de salvação pública. Trata-se de uma jogada de xadrez geopolítico clássico.
O objetivo real não é entrar nas favelas do Rio de Janeiro ou prender criminosos em São Paulo. Essas missões, por sinal, cabem constitucionalmente às polícias estaduais brasileiras. O alvo real e estratégico é a soberania econômica do Brasil.
“A classificação das facções como terroristas não é segurança pública; é uma ferramenta cirúrgica de pressão contra a autonomia de Brasília.”
O ‘incômodo’ de uma potência continental
Para entender o movimento de Washington, é preciso fazer uma retrospectiva das decisões americanas em relação ao nosso país. O Brasil incomoda. Incomoda porque deixou de ser o “quintal” submisso da América Latina para se consolidar como uma liderança independente.
Somos um território continental, autossuficiente em petróleo, que produz alimentos para o planeta de forma ininterrompida. Mais do que isso: a atual diplomacia brasileira desafia diretamente a hegemonia de Washington.
O país fortalece os laços com a China, sua maior parceira comercial, e defende o fim da dolarização no comércio internacional. Ao buscar alinhamentos com o Sul Global, incluindo o mundo árabe, Índia e posições firmes no Brics, o Brasil se projeta de forma autônoma.
A classificação das facções como “terroristas” surge, portanto, como um instrumento de pressão. Um cabresto político desenhado para conter um gigante que tenta andar com as próprias pernas.
O mecanismo da pressão geopolítica
- O gatilho: os EUA classificam as facções brasileiras como “Organizações Terroristas Estrangeiras”.
- A engrenagem: ativam-se leis globais automáticas de combate ao financiamento do terrorismo.
- O impacto direto: o Brasil sofre com sanções unilaterais, explosão nos custos bancários e fuga imediata de investidores estrangeiros.
O efeito cascata: quem paga a conta das sanções?
A engenharia desse “cabresto” funciona por meio de leis internacionais de financiamento ao terrorismo. Na prática, o impacto não será sentido pelos chefes do tráfico, mas sim pelas artérias da economia formal brasileira.
O agro nacional está no alvo. Exportadores de grãos e carnes enfrentarão barreiras alfandegárias disfarçadas. Exigências exaustivas de rastreabilidade serão criadas para provar que o dinheiro das safras não tangencia terras com lavagem de dinheiro, travando o financiamento internacional.
O sistema financeiro nacional também será sufocado por regras rígidas de conformidade (compliance). Bancos americanos poderão cortar linhas de crédito para instituições brasileiras sob o pretexto de risco, encarecendo o crédito interno e desvalorizando o real.
“Do campo aos portos, as sanções americanas disfarçadas de combate ao crime têm o potencial de asfixiar o PIB brasileiro.”
Além disso, o Porto de Santos e os principais terminais do país entrarão em listas de vigilância globais. O custo dos seguros marítimos irá disparar, tornando o produto brasileiro mais caro e menos competitivo no exterior.
Por fim, haverá uma forte retirada de investimentos. Grandes fundos internacionais serão forçados a retirar capital da Bolsa de Valores (B3) por regras que impedem investimentos em áreas associadas ao terrorismo.
A ilusão interna e a cegueira estratégica
O aspecto mais trágico desse cenário é a comemoração de setores da política interna brasileira. Alguns governadores do país correm para aplaudir a medida norte-americana. Essa postura revela um profundo oportunismo.
Durante décadas, as administrações estaduais e o próprio Governo Federal falharam em construir um combate rigoroso e integrado contra essas organizações criminosas.
Ainda que o poder central hoje não apoie o ataque externo promovido por Washington, a Presidência da República e a União carregam a responsabilidade histórica pela vulnerabilidade das nossas fronteiras e portos.
Ao celebrar a intervenção externa hoje, lideranças locais assinam um atestado público de incompetência coletiva de todas as esferas de poder do país. Permitiram que o crime evoluísse e, agora, abrem margem para a tutela estrangeira.
“Celebrar a ingerência americana é o maior recibo de incompetência que governantes e autoridades omissas de todas as esferas poderiam assinar.”
Além do erro administrativo, demonstra-se uma total incapacidade de enxergar o histórico de coerção econômica dos Presidentes Americanos.
Ao aplaudirem a intromissão, essas vozes ignoram a lógica econômica mais básica. Asfixiar o país significa esvaziar os cofres públicos de todas as regiões e do próprio governo central.
Sem arrecadação, faltarão recursos exatamente para o policiamento nacional e local. Essas são tarefas que os EUA jamais virão fazer por nós.
Aceitar é abrir mão da independência
Aceitar passivamente a narrativa de Washington é abrir mão da nossa independência em troca de uma falsa promessa de ajuda. O Brasil tem dimensão, capilaridade de mercado no Mercosul, na Europa e na Ásia, e uma economia diversificada demais para se submeter a essa manipulação.
O problema da segurança pública é nosso, e deve ser resolvido por nossas próprias instituições. O que está em jogo na mesa de negociações global não é o controle das fronteiras ou das favelas brasileiras.
A verdadeira disputa é pela liberdade de o Brasil decidir seus próprios rumos econômicos e seus parceiros comerciais no século XXI.

*Miguel Daoud é comentarista de Economia e Política do Canal Rural
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