Abelha ‘camaleão’: inseto surpreende cientistas ao mudar de cor

De camaleões até polvos, a capacidade de mudar de cor no reino animal é uma característica que soa curiosa para os humanos, mas é questão de sobrevivência para os bichos. Nesse contexto, a Agapostemon subtilior, espécie denominada por cientistas como “abelha do suor”, apresentou uma característica que surpreendeu pesquisadores: a alteração de tom conforme a umidade do local.
A descoberta foi recém-publicada na revista científica Biology Letters, onde pesquisadores do Reino Unido e dos Estados Unidos mostram que em um novo experimento laboratorial a umidade relativa afeta a cutícula — ou esqueleto externo, estrutura que protege e oferece sustentação aos animais invertebrados — dessa abelha.
A pesquisa avaliou espécimes de uma coleção que estava há anos no museu e outras adquiridas em campo recentemente. Em 24 horas, o inseto revelou uma alteração drástica: de um azul-esverdeado intenso em baixa umidade (menor que 10%) para um verde-alaranjado em alta umidade (95%).
Segundo a pesquisa, espécies mais velhas mostraram mudanças de coloração em maior magnitude o que, possivelmente, indica que a degradação das cutículas amplia a permeabilidade da água e os efeitos da umidade.
Como funciona a coloração animal?
Segundo o professor de Fisiologia Animal no Instituto de Biociências da USP Michael Hrncir, os seres humanos percebem a faixa de radiação emitida pela luz solar como luz branca e, dependendo da superfície, ela pode absorver uma parte dessa radiação e refletir o restante.
“Isso acontece porque, nos animais e também nas plantas, temos vários pigmentos. Pigmentos são proteínas que estão inclusas, ou podem ser inclusas, nas superfícies externas.”
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Ele exemplifica que a pele de um animal tem várias camadas e, em uma determinada camada, dependendo do organismo, pode conter esses pigmentos. Dessa forma, os pigmentos vão absorver parte dessa radiação e devolver a outra.
No entanto, no caso da classe de Cefalópodes — que reúne lulas e polvos — é possível observar a mudança de cores voluntária. Existem células especializadas com esse pigmento que, de acordo com contração da membrana celular, a proteína vai estar mais próxima ou mais distante à superfície e, assim, os animais modificam suas cores.
Cores metálicas
O professor explica que a A. subtilior é um inseto translúcido, ou seja, não absorve nenhuma luz. Nesse sentido, sua aparência metálica não é produzida a partir de pigmentos — apesar de estarem presentes ao fundo — mas pela combinação entre células translúcidas e a refração da luz.
“Você tem em cima dos insetos, em cima da cutícula, várias camadas dessas células translúcidas. E, devido ao fato de que você tem várias camadas disso, dependendo do ângulo que a luz vai atravessar, ela vai ser refletida de várias maneiras diferentes”, conta o professor da USP.
Mudanças dinâmicas
O especialista também detalha que a mudança de cor pode ou não ser voluntária. No caso de polvos, lulas e camaleões, a coloração animal é voluntária e desempenha diversas funções na comunicação, autodefesa, camuflagem, estratégia predatória, entre outros.
“As abelhas não fazem isso de forma voluntária. É um simples efeito físico”, esclarece Hrncir.
O professor ainda ressalta que as mudanças dinâmicas voluntárias ocorrem devido ao fato de o animal, através de processos neurofisiológicos, se ajustar às próprias necessidades, obtendo vantagem evolutiva ao possuir essa mudança de cores voluntária. No entanto, com as abelhas, a situação é um pouco diferente.
“E, no caso dessas abelhas, ela também é dinâmica, mas não é voluntária. Ela tem uma dinâmica devido ao fato de responder a mudanças de umidade relativa.”
Efeitos da umidade

De acordo com a pesquisa, a alteração ocorre em razão do inchaço induzido pela umidade nas estruturas celulares das abelhas (A. subtilior).
“Os insetos são os animais mais adaptados a ambientes secos porque eles simplesmente não perdem água. A cutícula é super resistente contra a entrada ou saída de água. Mas existem algumas pequenas fendas por onde a água ainda pode evaporar, dependendendo, logicamente, da espessura dessa cutícula”, detalha o professor.
Segundo Hrncir, a água não entra para dentro do animal, apenas nas camadas celulares translúcidas.
“Então, a água consegue entrar nessas fendas e mudar a estrutura, ou seja, ela afasta uma placa da outra, como se fossem placas de vidro. Com isso, muda completamente a física da refração e, assim, a aparência dessas abelhas muda conforme existe uma umidade relativa mais alta ou mais baixa.”
Além disso, o estudo mostra que essa alteração pode ser reversível. Quando expostas novamente a baixa umidade retornam a tonalidade mais azulada.

Resultados e ocorrência no Brasil
Ressalta-se que os pesquisadores são cautelosos quanto aos resultados, pois a pesquisa interpreta abelhas preservadas e, não necessariamente, refletem aspectos em vida.
Também é desconhecido se as mudanças induzidas pela umidade podem trazer alguma vantagem evolutiva ou ecológica para as abelhas. Hrncir sugere que a alteração de cor pode ter conexão com a atração das fêmeas pelos machos.
“A coloração, com frequência, traz alguma informação para a fêmea. E devido ao fato que essas abelhas em ambientes diferentes, elas têm uma aparência diferente podem apresentar uma determinada vantagem.”
No Brasil, o professor da USP diz que a presença de abelhas metálicas no país é significativa e que, possivelmente, apresentam o mesmo fenômeno. Ao todo, são pelo menos 500 espécies que alternam entre abelhas do suor (Halictidae) e abelhas das orquídeas (Euglossini).
“Devido ao fato de que a física por trás dessa cor metálica, dessa parte estrutural, é muito parecida, pode ser que isso não seja uma característica exclusiva dessa espécie. O princípio da coloração é sempre uma coloração estrutural. Então, existe uma certa probabilidade de que o efeito seja o mesmo.”
*Sob supervisão de Victor Faverin
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