Tratar a doença, não os sintomas: O que falta para o Brasil governar o próprio futuro

O Brasil padece de uma cegueira estratégica crônica. Somos uma potência continental por natureza e uma promessa adiada por escolha política. Dispomos de segurança alimentar garantida o ano todo, matriz energética invejável, vastas reservas de petróleo e os minerais críticos e terras raras que o mundo disputa para a transição tecnológica.
Ainda assim, patinamos em taxas de crescimento medíocres, juros escorchantes e uma concentração de renda que sufoca o mercado interno. Por que um país que tem tudo continua sem entregar o básico?
“O debate econômico em Brasília se resume a uma eterna e ineficiente redistribuição de fatias de um bolo que não cresce.”
A resposta está na incapacidade do nosso Executivo e do nosso Legislativo de diferenciarem a causa da consequência. O debate econômico em Brasília se resume a uma eterna e ineficiente redistribuição de fatias de um bolo que não cresce.
De um lado, criam-se puxadinhos tributários, isenções fiscais para setores corporativos amigos e subsídios temporários. Do outro, aumenta-se a carga de impostos sobre quem produz e consome para fechar as contas de um Estado que gasta mal. Essas medidas são placebos. Tratam os efeitos colaterais de uma doença estrutural, mas mantêm o paciente na UTI.
O X da questão reside na governança e na qualidade do nosso debate público. Enquanto o Parlamento for dominado pelo populismo de engajamento, onde fenômenos de votos vazios de conteúdo orgulham-se de não saber o que faz um deputado, as reformas de base serão preteridas por pautas de curtíssimo prazo e forte apelo digital.
O voto folclórico custa caro. Ele cobra o seu preço na ausência de projetos de Estado e na incapacidade de planejar o país para as próximas décadas, limitando o horizonte nacional ao próximo ciclo eleitoral.
“Atacar a raiz da doença brasileira exige estabelecer regras do jogo que mirem a essência dos nossos gargalos.”
Atacar a raiz da doença brasileira exige estabelecer regras do jogo que mirem a essência dos nossos gargalos. Isso significa focar em três pilares inegociáveis:
- Segurança Jurídica e Simplificação Real: O investidor, nacional ou estrangeiro, foge de regras que mudam no meio do caminho. Reduzir o Custo Brasil não é dar benefício para uma empresa escolhida, mas sim criar um ambiente onde qualquer empreendedor gaste tempo inovando, e não decifrando burocracias.
- Infraestrutura e Integração Logística: Não basta produzir alimentos e minérios se o escoamento consome a margem de lucro em estradas esburacadas e ferrovias inexistentes. A expansão dos setores promissores depende de investimentos pesados e de longo prazo em logística.
- Educação Voltada para a Produtividade: A riqueza de uma nação moderna não está apenas no subsolo, mas na cabeça do seu povo. Sem mão de obra qualificada para processar nossas terras raras e tecnologia para verticalizar nossa produção, continuaremos exportando matéria-prima bruta e importando produtos de alto valor agregado.
“O Brasil não precisa de mais remendos; precisa de diagnóstico correto e cirurgia estrutural.”
O Executivo e o Congresso precisam parar de gerenciar o caos com analgésicos fiscais. O Brasil não precisa de mais remendos; precisa de diagnóstico correto e cirurgia estrutural.
É hora de o Parlamento assumir a responsabilidade de formular uma estratégia de Estado que transforme o nosso gigantismo geográfico em prosperidade real e compartilhada. Chega de tratar os sintomas. Precisamos, urgentemente, curar as causas da nossa estagnação.

*Miguel Daoud é comentarista de Economia e Política do Canal Rural
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