Mudanças climáticas podem aumentar produção de soja, mas reduzir valor nutricional do grão

Um estudo liderado por pesquisadores da Universidade de São Paulo (USP) aponta que as mudanças climáticas podem provocar alterações importantes na composição nutricional da soja. Segundo a pesquisa, o aumento da concentração de dióxido de carbono (CO2), combinado com altas temperaturas e seca, pode elevar em até 50% a produção dos grãos, mas reduzir a qualidade nutricional da cultura.
- Veja em primeira mão tudo sobre agricultura, pecuária, economia e previsão do tempo: siga o Canal Rural no Google News!
O trabalho foi publicado na revista científica Food Research International e utilizou modelagem preditiva por inteligência artificial (IA) para avaliar os impactos simultâneos desses três fatores sobre a soja. A pesquisa foi conduzida pelo Laboratório de Fisiologia Ecológica de Plantas (Lafieco), do Instituto de Biociências da USP.
De acordo com os cientistas, os grãos produzidos sob esse cenário apresentaram redução de 20% no teor de amido e queda de 6% na quantidade de proteína. Em contrapartida, houve aumento de 175% no teor de aminoácidos.
O coordenador do Lafieco, Marcos Buckeridge, afirma que os resultados acendem um alerta para a nutrição animal, já que a soja é uma das principais fontes proteicas utilizadas na alimentação de rebanhos.
“Essa proteína diminui nos cenários drásticos de mudanças climáticas. Além disso, o grão perde amido, o que significa menos energia”, resume o pesquisador.
Efeito do CO2 sobre a planta surpreendeu pesquisadores
Segundo o estudo, o aumento do CO2 atmosférico tende a estimular o crescimento das plantas e aumentar a produção de sementes. Além disso, o gás também ajuda a reduzir os efeitos da seca, já que provoca fechamento parcial dos estômatos das folhas, diminuindo a perda de água.
Os pesquisadores afirmam que o comportamento da soja diante da combinação dos três fatores surpreendeu a equipe.
“Eu esperava que os três fatores de estresse se anulassem e o crescimento da planta não se alterasse muito. Me surpreendeu o fato de ela crescer mais sob três fatores de pressão”, afirmou Buckeridge.
Apesar do aumento na produção, os cientistas observaram que a planta passa a direcionar mais carbono para fibras estruturais, como celulose e hemicelulose, reduzindo o teor de amido no grão.
Inteligência artificial ajudou a prever impactos
O estudo utilizou dados obtidos em experimentos controlados com soja submetida a condições de seca, calor e aumento de CO2. Com essas informações, ferramentas de inteligência artificial foram usadas para prever o comportamento da planta diante do chamado “triplo impacto”.
Os testes foram realizados em câmaras especiais que simulavam concentração elevada de dióxido de carbono, aumento de temperatura em até 5°C e redução da irrigação.
Os pesquisadores utilizaram um cultivar da Embrapa, o MG/BR-46 (Conquista), amplamente estudado para simulações de seca em condições semelhantes às do campo.
Próximo passo será identificar genes ligados à adaptação
Agora, o grupo pretende identificar quais genes estão relacionados às respostas da soja aos diferentes fatores de estresse climático. O objetivo é desenvolver plantas mais adaptadas às mudanças climáticas, sem perda significativa de proteína e energia nos grãos.
Os pesquisadores também querem aplicar a metodologia em outras culturas agrícolas, como a cana-de-açúcar, para aprimorar modelos de previsão dos impactos climáticos sobre a produção agrícola mundial.
O post Mudanças climáticas podem aumentar produção de soja, mas reduzir valor nutricional do grão apareceu primeiro em Canal Rural.
