sábado, maio 9, 2026
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Cocaína e analgésicos: pesquisa identifica contaminação no sangue de tubarões


tubarões
Foto: Pixabay

Grande vilão na cultura pop, o tubarão é um dos animais mais ameaçados pela ação humana. E a contaminação dos oceanos afeta da fisiologia à reprodução de diversas espécies, além de impactar ecossistemas inteiros, já que o animal ocupa o nível mais alto da cadeia alimentar.

Um artigo recém-publicado no periódico Environmental Pollution documentou, pela primeira vez, a presença de contaminantes de preocupação emergente no soro sanguíneo de tubarões das Bahamas.

A professora Natasha Wosnick, colaboradora do Programa de Pós-Graduação em Zoologia da Universidade Federal do Paraná (UFPR), que integra o Instituto de Cabo Eleuthera, centro de estudos ambientais localizado na ilha de Eleuthera, nas Bahamas, coordenou a pesquisa.

Cientistas identificaram resíduos de cocaína, cafeína e analgésicos, como paracetamol e diclofenaco, no organismo de três espécies que habitam regiões costeiras: o tubarão-caribenho-de-recife (Carcharhinus perezi), o tubarão-lixa (Ginglymostoma cirratum) e o tubarão-limão (Negaprion brevirostris).

Identificação

Wosnick e sua equipe coletaram e analisaram o soro sanguíneo de 85 tubarões de cinco espécies de habitats. As drogas foram identificadas por meio da técnica chamada de cromatografia líquida acoplada à espectrometria de massas em série (LC–MS/MS).

Primeiro, ela separa as substâncias da amostra e depois identifica cada uma pelo peso e padrão, possibilitando o reconhecimento de compostos mesmo em quantidades pequenas.

A análise das substâncias coletadas nas Bahamas aconteceu no Brasil, em colaboração com a professora Rachel Ann Hauser-Davis, da Fundação Oswaldo Cruz (Fiocruz).

Diante do risco para espécies ameaçadas, o estudo adotou métodos não letais e minimamente invasivos, como análises estatísticas para relacionar níveis de contaminantes a marcadores fisiológicos, em vez de experimentos tradicionais de exposição.

Estudo vai além da detecção de contaminantes

A pesquisa foi a primeira a relatar presença de cafeína e paracetamol em qualquer espécie de tubarão no mundo, além de ser o primeiro registro de diclofenaco e cocaína em tubarões nas Bahamas. O estudo não se limitou a demonstrar a presença desses contaminantes nos animais, mas buscou avaliar também o que a exposição tem causado na saúde deles.

“Grande parte dos estudos ainda está focada em identificar substâncias no ambiente e nos tecidos dos organismos. Embora esse seja um passo fundamental, ele não responde à pergunta mais importante do ponto de vista ecológico e de conservação: quais são os efeitos biológicos dessa exposição?”, argumenta Wosnick.

A pesquisadora explica que, embora os tubarões sejam organismos evolutivamente antigos, compartilham vias fisiológicas com outros vertebrados. Assim, substâncias desenvolvidas para o corpo humano também podem interferir em processos essenciais nesses animais.

“Em pessoas e modelos laboratoriais, já sabemos que esses compostos podem afetar o sistema endócrino, o fígado e o sistema nervoso, o que levanta preocupações sobre efeitos semelhantes em tubarões”, diz.

O estudo analisou estresse, função metabólica e saúde geral dos bichos. De acordo com o artigo, os contaminados apresentaram variações nos níveis de triglicerídeos, ureia e lactato em comparação aos não contaminados.

E será que contaminantes como a cafeína e a cocaína renderam algum efeito estimulante, como mostram filmes e documentários por aí? A pesquisadora afirma que não há evidências científicas robustas que sustentem essa associação.

“Ela só tende a reforçar um medo historicamente exagerado em relação aos tubarões, que contribui para a sua perseguição”, destaca.

Contaminantes no ambiente marinho

Analisar a presença de contaminantes no ambiente marinho é importante por várias razões. A começar pelo fato de que eles ainda não possuem regulamentação específica para monitoramento, limites seguros ou estratégias de controle e mitigação, diz Wosnick.

E, de acordo com a professora, a lista de substâncias encontradas em animais marinhos não para de crescer. Inclui fármacos, produtos de higiene pessoal, protetores solares e cocaína, detectada na costa do Rio de Janeiro por um grupo com o qual a pesquisadora colabora.

Em regiões costeiras dos Estados Unidos, pesquisas também já acharam tubarões com hormônios derivados de anticoncepcionais e antidepressivos.

“Eles chegam ao ambiente marinho por diferentes vias, como o tratamento inadequado de esgoto, descarte incorreto e até excreção humana, já que muitos químicos são eliminados pela urina”.

Problema pode terminar no prato

Além dos danos diretos à saúde dos animais e aos ecossistemas em que estão inseridos, esses contaminantes podem se concentrar ao longo da cadeia alimentar, levando ao acúmulo de substâncias em tubarões, predadores de topo, que, em algumas regiões, são consumidos por humanos. Ou seja, além de um problema ambiental, também se trata de um problema de saúde pública.

É nesse sentido que a pesquisadora reforça a importância de abordar o tema dentro do conceito de uma só saúde, para o qual é impossível dissociar a saúde humana da ambiental e da fauna.

No Brasil, por exemplo, muitas comunidades dependem dos recursos costeiros para subsistência e segurança alimentar. Nesse sentido, há impactos ecológicos, mas também de implicações sociais e de saúde pública.

“Mais do que um espelho, o cenário observado no Caribe pode ser um indicativo de um problema que, no Brasil, tende a ser ainda mais complexo e urgente, reforçando a necessidade de investimentos em saneamento, monitoramento ambiental e políticas públicas voltadas à redução da poluição química”, conclui.

*Sob orientação de Victor Faverin

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