Agrishow 2026: o peso da cadeira vazia

A abertura da 31ª edição da Agrishow, em Ribeirão Preto, repete um cenário que se tornou comum: o vácuo deixado pelo presidente da República. No maior palco tecnológico do setor, o silêncio do Planalto é preenchido pelo discurso da oposição.
- Veja em primeira mão tudo sobre agricultura, pecuária, economia e previsão do tempo: siga o Canal Rural no Google News!
Enquanto o vice-presidente Geraldo Alckmin representa o governo, os holofotes se voltam para o governador Tarcísio de Freitas e o senador Flávio Bolsonaro. Eles capitalizam sobre a principal dor do setor: a insegurança no campo.
Memória do “desconvite”
A relação entre Lula e o agronegócio congelou em 2023, após o polêmico “desconvite” ao ministro Carlos Fávaro. Na época, Lula chamou organizadores de “fascistas”, criando uma cicatriz que o setor não esqueceu.
Essa mágoa não é apenas política, é ideológica. O produtor vê com temor a proximidade histórica do governo com o Movimento dos Sem Terra (MST) e o incentivo a agendas que colidem com o direito de propriedade.
Invasões e a insegurança jurídica
Um dos maiores pontos de atrito é a preocupação com a concessão de terras indígenas e a onda de invasões de propriedades produtivas. Para o produtor, o apoio de Lula a esses movimentos é um sinal de alerta sobre a estabilidade jurídica no campo.
O setor enxerga uma conivência que ameaça o direito de propriedade. Enquanto o governo foca na reforma agrária, o médio e o grande produtor temem perder o controle de suas terras para novas demarcações ou ocupações lideradas por movimentos sociais.
O divórcio entre o bolso e o coração
O paradoxo é evidente: o governo injeta recursos, mas o foco tem endereço certo. O Plano Safra da Agricultura Familiar 25/26 atingiu o recorde de R$ 89 bilhões, priorizando quem garante a comida no prato do brasileiro.
Infelizmente, não há como atender plenamente ao grande produtor, pois os recursos estatais são finitos e a prioridade social do atual governo fala mais alto. Diante da escassez orçamentária, o governo fez uma escolha clara pela base social da pirâmide produtiva.
A força do pequeno
A Agricultura Familiar representa 77% dos estabelecimentos do país e produz quase 85% da produção nacional de alimentos básicos. Enquanto o grande foco na exportação para mover o PIB, o pequeno garante a segurança alimentar interna.
Entretanto, ao ignorar a Agrishow para evitar vaias, Lula entrega o microfone para quem promete “tolerância zero” com invasões. No agro, quem não garante a segurança da terra, dificilmente conquista a confiança de quem nela trabalha.
Oportunidade perdida?
A cadeira vazia em Ribeirão Preto simboliza um governo que optou por um lado. No entanto, o comportamento hostil de parte do agronegócio também pode ser lido como um grande erro estratégico. Ao fechar as portas para o diálogo e transformar uma feira de tecnologia em um palanque puramente político, o setor arrisca perder a chance de negociar melhorias estruturais e garantias jurídicas diretamente com quem detém a caneta.
Enquanto a política tratar o campo apenas como palco de disputas e o setor responder com intransigência, a reconciliação será impossível. No campo, a confiança é como a safra: demora a crescer, mas pode ser prejudicada em uma única tempestade política.

*Miguel Daoud é comentarista de Economia e Política do Canal Rural
O Canal Rural não se responsabiliza pelas opiniões e conceitos emitidos nos textos desta sessão, sendo os conteúdos de inteira responsabilidade de seus autores. A empresa se reserva o direito de fazer ajustes no texto para adequação às normas de publicação.
O post Agrishow 2026: o peso da cadeira vazia apareceu primeiro em Canal Rural.

