Brasília vive ‘faz de conta’ institucional enquanto crise avança no Brasil

O Brasil vive hoje uma espécie de alucinação coletiva institucional. Nos salões de mármore da capital, a prioridade é o próximo palanque, a próxima emenda ou a próxima retaliação entre tribunais e plenários.
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Do lado de fora, o país real lida com um cenário de terra arrasada. Esse abismo não parece figurar na agenda de prioridades do poder.
O teatro das instituições
Vivemos a era do “faz de conta”. Faz de conta que as instituições estão em harmonia enquanto o Legislativo sequestra o Orçamento.
Faz de conta que o Executivo governa, quando, na verdade, ele apenas reage. O país funciona hoje em modo de campanha eleitoral permanente.
A realidade, porém, é brutal. O endividamento no Brasil atingiu níveis alarmantes e não escolhe CPF ou CNPJ.
O peso de um Estado sem freios
Nesse cenário, o governo gasta demais e parece não medir as consequências do amanhã. A conta da expansão desenfreada de gastos públicos chega rápido, seja via inflação ou pela manutenção de juros altos que travam o setor produtivo.
Não é apenas o Estado que está no limite. São famílias que não fecham o mês e empresas que operam no sufoco, esmagadas por uma política fiscal que ignora o rigor necessário para o país crescer.
A euforia que não chega à mesa
O descolamento da realidade é gritante quando olhamos para os indicadores financeiros desta quarta-feira (15).
Enquanto o Ibovespa flerta com a marca histórica dos 200 mil pontos e o dólar recua para a casa dos R$ 4,98, a Faria Lima parece viver em um país diferente daquele que habita os subúrbios.
O rali das bolsas, impulsionado pelo capital externo, é um espasmo de otimismo que não chega à mesa do cidadão comum.
Para quem deve ao cartão de crédito, o dólar baixo é uma abstração. Ele não reduz o peso dos juros, nem o custo de vida que segue corroendo o consumo.
Um comando voltado para o umbigo
Para piorar, o mundo lá fora não está para amadores. O cenário externo é de gravidade extrema, com conflitos geopolíticos que exigem um comando firme.
Mas o Brasil parece olhar apenas para o próprio umbigo. O governo perdeu a capacidade de conexão com as urgências práticas.
A comunicação oficial e a articulação política miram o eleitor de 2026. Ignoram o cidadão que precisa de respostas hoje. A gestão virou refém do marketing e da sobrevivência política imediata.
O risco do vácuo de confiança
Essa desconexão cria um vácuo perigoso. O cidadão percebe que o Estado gasta energia em brigas de poder enquanto sua vida financeira desmorona.
Com isso, a confiança nas instituições derrete. Instituições fortes não são aquelas que ocupam espaço na mídia com conflitos de autoridade.
São aquelas que entregam estabilidade. O que temos hoje é um teatro de sombras: muita movimentação, muito barulho, mas nenhuma solução para o abismo sob os pés dos brasileiros.
O Brasil não precisa de mais um capítulo de briga entre poderes. Precisa, urgentemente, voltar para a realidade. Antes que o “faz de conta” se torne um ponto de não retorno.

*Miguel Daoud é comentarista de Economia e Política do Canal Rural
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