sábado, abril 4, 2026
News

Sapo que canta como um pássaro? Pesquisadores identificam espécie curiosa


Foto: Divulgação/Redes sociais

Uma espécie de rã-arborícola (Gracixalus weii) que emite vocalizações semelhantes ao tordo-do-peito-preto (Turdus dissimilis) foi identificada recentemente na província de Guizhou, na China. A descoberta foi publicada em artigo na revista científica Herpetozoa.

Além da China, o gênero Gracixalus vive disperso entre Mianmar, oeste da Tailândia, Laos e Vietnã.

A pesquisa, liderada por Caichun Peng da Estação de Observação e Pesquisa do Ecossistema Florestal de Guizhou Leigongshan, busca ampliar dados sobre as vocalizações desses anfíbios, que permanecem escassos e pouco aprofundados.

Atualmente, de 23 espécies identificadas no mundo, somente 10 possuem seu canto descrito. O estudo analisou 182 vocalizações de seis rãs machos G. weii localizadas na Reserva Natural de Leigongshan, na China. A análise considerou altitude, temperatura do ar e umidade.

Como funciona a vocalização de um anfíbio?

A bióloga e professora da Universidade Estadual Paulista de Jaboticabal (Unesp/Fcav), Cynthia Prado, explica que a vocalização dos anfíbios funciona como canto reprodutivo.

“Assim como as aves, os anfíbios, sapos, rãs e pererecas, utilizam muitos sons para comunicação. Na maioria das espécies, são só os machos que cantam. Esse canto tem a função de atrair as fêmeas para reproduzir, e também serve para avisar outros machos de que aquele território é dele”, esclarece.

Além disso, o tamanho da espécie também implica no tipo de vocalização que é reproduzida. De acordo com a professora, se o macho for maior, ele canta em uma frequência mais grave, porém, se for menor, o canto é mais agudo.

Influência do bioma

Foto: Peng et al.

Segundo o estudo, esses anfíbios se encontram em densas florestas de bambu, perto de riachos. E, no momento da vocalização, ficam sobre ou dentro da planta.

“As espécies que moram perto de riacho, que é o caso desse sapo da China, muitas vezes a seleção natural leva elas a ter um canto parecido a de alguns pássaros que vivem também na beira do riacho, com características que fazem com que o canto se sobressaia acima do ruído do riacho”, diz a bióloga.

Ela também explica que essas características se desenvolvem em razão do ambiente e não por necessidade de uma espécie imitar a outra.

“Aqueles machos que conseguem emitir um canto, que conseguem se propagar melhor, mesmo com aquele ruído do riacho, eles vão conseguir atrair mais fêmeas, vão se reproduzir mais e vão passar para frente essas características.”

E a mesma coisa ocorre com pássaros que convivem na mesma região.

“O pássaro, que emite esse canto, também vai conseguir se reproduzir mais. E, ao
longo do tempo, essas características vão sendo passadas e vão sendo selecionadas por causa do barulho do riacho, e não porque um está imitando o outro, tentando se comunicar”, finaliza.

Semelhança com as aves

Foto: Peng et al.

A partir das gravações de campo, os pesquisadores identificaram que o canto de anúncio da espécie G. weii se assemelha ao canto do torrdo-do-peito-preto, pois ambos apresentam uma nota mais longa seguida por duas notas mais curtas.

Entretanto, não é a primeira vez que essa convergência acústica com as aves é registrada.

Em 1984, na Cordilheira do Himalaia, os pesquisadores Alain Dubois e Jochen Martens descreveram a mesma semelhança entre as espécies de rãs do gênero Nanorana e a felosa-de-bico-grande (Phylloscopus magnirostris).

A descoberta mostrou que o fenômeno não depende apenas da identificação de indivíduos das mesmas espécies e da seleção sexual, mas também interações ecológicas mais amplas, como em ambientes acústicos variados.

Porém, o estudo chinês aponta que a “convergência pode gerar erros de identificação e subestima a diversidade de anfíbios em levantamentos de campo”.

Monitoramento de espécies ameaçadas

Além de auxiliar na identificação de espécies, pesquisadores também utilizam a bioacústica como método de monitoramento de animais ameaçados.

“Por exemplo, quando você quer monitorar uma população para saber se ela está aumentando ou está diminuindo, você vai periodicamente naquele ambiente e você pode anotar o número de machos que estão cantando ali para fazer uma estimativa do tamanho populacional”, detalha Cynthia Prado.

De acordo com o Dr. Thiago Silva-Soares, fundador da Biotrips e pesquisador do Instituto Últimos Refúgios, esse controle está ainda mais eficaz com o avanço tecnológico.

“Então se coloca um gravador em campo e deixa gravando passivamente, ou seja, registra tudo que está vocalizando e depois fica ouvindo. A inteligência artificial entrou para ajudar nisso, horas de gravação podem ser analisadas pela inteligência artificial e mostrar se determinada espécie está em certo ambiente”, diz o pesquisador.

Espécies brasileiras

Não é só na China que se pode observar essa convergência. No Brasil, espécies da Mata Atlântica também podem ser associadas a aves, insetos e até mesmo seres humanos.

“Uma perereca (Gastrotheca microdisca) que vive nas copas das árvores na Mata Atlântica, tem um som muito parecido com uma ave que se chama araponga (Procnias nudicollis). Essa araponga tem um canto bem característico, bem alto e um som bem metálico. E essa perereca tem um som muito parecido”, conta a professora.

Ela também conta que as pessoas frequentemente confundem grilos e esperanças com anfíbios.

Segundo Thiago Soares, existem espécies que vocalizam até como humanos. No interior, é popularmente contado que crianças estão perdidas e chorando na mata, mas, na verdade, é só o canto da rã-chorona (rãs do gênero Physalaemus).

Próximos passos

Os pesquisadores da China apresentaram dados básicos sobre comportamento, ecologia e biodiversidade.

Nesse sentido, para futuros estudos, espera-se análises mais abrangentes e com maior precisão, expandindo cada vez mais o conhecimento sobre bioacústica, vocalizações e adaptações estruturais de anfíbios.

*Sob supervisão de Victor Faverin

O post Sapo que canta como um pássaro? Pesquisadores identificam espécie curiosa apareceu primeiro em Canal Rural.



Source link

Deixe um comentário

O seu endereço de e-mail não será publicado. Campos obrigatórios são marcados com *