Fethab no Mato Grosso arrecada muito, mas entrega pouco

Mato Grosso é o coração do agronegócio brasileiro. Produz, exporta e sustenta o superávit do país. Mas, para que essa engrenagem funcione, o produtor aceita pagar o Fethab, um fundo criado para garantir infraestrutura, mas que, na prática, virou um pedágio permanente e cada vez menos transparente.
A arrecadação é bilionária, ultrapassando facilmente os R$ 4 bilhões por ano, dependendo da safra . O produtor paga. E paga muito. O problema é que a estrada, muitas vezes, não aparece.
Arrecadação alta, estrada precária.
O Fethab existe para garantir competitividade via diferimento do ICMS. Em troca, deveria entregar a logística. Mas o que se vê no campo é outra realidade.
A MT-240 e a MT-599 enfrentam dificuldades constantes. Em Paraitinga, o escoamento trava. No norte, a MT-322, entre Peixoto de Azevedo e Matupá, vira um teste de resistência nas chuvas. Já a MT-140, entre Campo Verde e Santa Rita do Trivelato, é o retrato da descontinuidade: começa asfaltada e termina na terra.
Não é exceção. É rotina.
O produtor paga duas vezes.
Sem estrada, o frete sobe, o tempo aumenta e o custo explode. O produtor paga o Fethab e paga novamente pela ineficiência logística.
E o mais grave: muitos trechos já tiveram previsão de obra, já passaram por licitação. O dinheiro existe. A execução não acompanha.
Quando o fundo perde o destino.
Ao longo do tempo, o Fethab deixou de ser exclusivo da infraestrutura. Parte dos recursos passou a atender outras despesas do Estado.
Se o produtor paga por estrada, mas o recurso financia outras áreas, há um descompasso evidente. A conta continua no campo, o retorno, não.
O jogo de empurra.
Uma parte relevante dos recursos vai para os municípios. A função é clara: manter estradas vicinais.
Na prática, o cenário se repete: falta máquina, falta manutenção, sobra justificativa. O recurso se perde entre repasses e execução, e o produtor segue sem estrada.
Sem logística, não há margem.
Estrada ruim encarece tudo. Frete mais caro, perda de eficiência, risco maior. Em um mercado competitivo, isso não é detalhe, é perda direta de renda.
Mato Grosso produz como potência, mas escoa com dificuldade.
A conta precisa fechar.
O problema não é arrecadar. É cumprir o destino do recurso. Sem transparência e sem execução eficiente, o Fethab deixa de ser solução e passa a ser custo.
Enquanto isso não mudar, o agro seguirá avançando com um freio invisível, pago por quem produz e travado na lama da má gestão.

*Miguel Daoud é comentarista de Economia e Política do Canal Rural
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