Vírus Oropouche já infectou mais de 5 milhões de pessoas no Brasil, aponta estudo

O recente surto do vírus Oropouche, ocorrido em 2023, chamou atenção no Brasil e em outros países da América Latina não só pela magnitude (mais de 30 mil casos registrados no território nacional), mas também pela primeira morte confirmada no país causada pela doença e pela rápida disseminação para todos os estados, deixando de se restringir à região amazônica.
Diante desse cenário, no início do ano, a Organização Mundial da Saúde (OMS) também demonstrou preocupação e fez um apelo para acelerar o desenvolvimento de ferramentas de prevenção e controle contra esse patógeno, até então quase desconhecido.
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Dois estudos publicados nesta terça-feira (24) nas revistas Nature Medicine e Nature Health comprovaram que o impacto do vírus Oropouche é muito maior do que o retratado nos dados oficiais.
Por meio de cálculos matemáticos, dados históricos e análise de sangue de hemocentros, os pesquisadores estimam que, desde 1960, o vírus já tenha infectado cerca de 9,4 milhões de pessoas na América Latina e no Caribe. Só no Brasil, seriam aproximadamente 5,5 milhões de casos.
Sintomas
A doença, que provoca febre e sintomas semelhantes aos da dengue, pode evoluir para complicações graves, incluindo problemas neurológicos (meningite e meningoencefalite) e até microcefalia em casos de transmissão materno-fetal.
“Estimamos que um em cada mil diagnósticos da doença evolua para complicações graves, como doenças neurológicas, microcefalia, abortos e complicações hepáticas, o que eleva o nível de prioridade para saúde pública”, destaca o coordenador do Laboratório de Estudos de Vírus Emergentes (Leve) da Universidade Estadual de Campinas (Unicamp), José Luiz Proença Módena.
Circulação
Os pesquisadores detectaram que o vírus Oropouche está em circulação contínua, embora muitas vezes em níveis tão baixos que se tornam quase indetectáveis pelos sistemas de vigilância comuns. “No trabalho, identificamos duas grandes ondas de Oropouche na capital amazonense, uma na década de 1980 e a de 2023, que infectaram, cada uma, mais de 12% de sua população”, diz Módena.
A partir desse rastreamento, os pesquisadores também identificaram que indivíduos infectados na década de 1980 ainda eram capazes de neutralizar a linhagem viral recente.
Um vírus do mato
A reemergência do vírus Oropouche em 2023 confirmou sua expansão pelo país. O Espírito Santo apresentou a maior taxa acumulada, com 318 casos por 100 mil habitantes. Já a região Sudeste concentrou 57,9% das notificações, tornando-se o novo epicentro da doença.
Diferentemente de outras arboviroses mais conhecidas, ele é transmitido pelo mosquito-pólvora, porvinha ou maruim (Culicoides paraensis), o que faz com que a incidência da doença em áreas rurais seja 11 vezes maior do que nas cidades.
“Ao contrário do Aedes aegypti [mosquito transmissor da dengue, zika e chikungunya], que se reproduz em água parada, o maruim deposita seus ovos em solo úmido e rico em matéria orgânica. É um mosquito do mato, de áreas úmidas. Por isso, a predominância de casos em áreas rurais e não urbanas”, explica o professor da Universidade do Kentucky, nos Estados Unidos, William de Souza.
De acordo com Souza, historicamente, essa doença estava muito ligada a áreas com plantação de banana e cacau, mas ao estudar a ecologia do vírus identificamos que a questão não é a fruta em si, mas a condição ideal de solos úmidos e com bastante matéria orgânica.
Altas temperaturas e chuvas também são condições propícias para a disseminação do maruim
“O combate à doença se torna muito diferente das outras arboviroses transmitidas por mosquitos, que são mais urbanos. Estratégias como a fumigação em praças e ruas asfaltadas são provavelmente pouco úteis contra o Oropouche. O maruim não vive nos ralos das casas, mas na umidade das áreas florestais e na vegetação periférica das cidades”, explica Souza.
Manaus, epicentro da crise
Em Manaus (AM), a maior metrópole da região amazônica, estima-se que 300 mil pessoas tenham sido infectadas entre 2023 e 2024, quase 260 vezes mais que os casos confirmados.
De acordo com os pesquisadores, a prevalência de anticorpos contra o vírus saltou de 11,4% em novembro de 2023 para 25,7% em novembro de 2024, indicando ampla disseminação da doença.
“A capital do Amazonas é uma cidade com mais de 2 milhões de habitantes e considerada a porta de entrada para a região amazônica. A subnotificação ocorreu por vários fatores, principalmente pelo fato do vírus ter circulado silenciosamente antes de atingir as bordas do centro urbano, com muitos casos sendo assintomáticos ou leves, e sem diagnóstico”, explica Souza.
Essa dinâmica ajuda a explicar a disseminação do vírus por todos os estados brasileiros e países vizinhos, além de reforçar o cenário que motivou a OMS a emitir alerta internacional.
Já no caso de pacientes em regiões remotas da Amazônia, os pesquisadores destacam a dinâmica e a logística da região.
“Pacientes em regiões remotas da Amazônia muitas vezes enfrentam tempos de viagem de mais de 24 horas para chegar a uma unidade de saúde. Isso significa que muitos casos provavelmente não foram diagnosticados, permitindo que o vírus circulasse silenciosamente até atingir a borda de um grande centro urbano”, afirma Souza.
Morfologia
Outra característica importante do maruim é que ele é três vezes menor que um pernilongo comum, tamanho ideal para atravessar mosquiteiros. Porém a razão por trás dessa reemergência agressiva não está apenas no clima, mas em uma nova recombinação viral (reassortment).
Controle
No trabalho, os pesquisadores também identificaram a emergência de uma nova linhagem viral, resultado de um processo de rearranjo ou reassortimento genético que ocorre quando dois vírus diferentes infectam uma mesma célula.
“A reemergência do Oropouche nos mostra que não podemos combater todas as arboviroses com a mesma receita, pois o maruim não segue as mesmas regras do Aedes“, diz Módena.
Para ele, embora a imunidade de longo prazo pareça existir para quem já foi infectado, a velocidade com que o vírus se expandiu por todos os estados brasileiros mostra que o sistema de saúde precisa de novos sistemas de detecção, focados, inclusive, na vigilância distante dos grandes centros.
Os pesquisadores ressaltam a necessidade de mudanças estruturais, como a adoção de estudos sorológicos contínuos, o uso de bancos de sangue como alerta precoce e a integração de ferramentas digitais e genômicas para acompanhar surtos e mutações.
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