Gado pode ajudar a recuperar áreas do Cerrado e conter capim invasor, aponta estudo

Um estudo conduzido pelo Instituto de Pesquisas Ambientais (IPA) e divulgado pela Agência Fapesp indica que o gado, quando manejado de forma adequada, pode se tornar um aliado na conservação do Cerrado. A pesquisa revela que o pastejo controlado é capaz de reduzir a presença da braquiária, uma das principais espécies invasoras do bioma, e favorecer a regeneração da vegetação nativa.
O trabalho foi publicado na revista científica Agriculture, Ecosystems and Environment e traz evidências de que práticas bem conduzidas de pecuária podem contribuir para a restauração ambiental.
Braquiária ameaça biodiversidade do Cerrado
Introduzida no Brasil na década de 1960, a braquiária (Urochloa decumbens) se tornou uma das principais ameaças aos campos naturais do Cerrado.
A espécie tem alta capacidade de ocupação e impede o desenvolvimento de plantas nativas, além de ser difícil de erradicar por métodos convencionais, como herbicidas ou capina.
Segundo as pesquisadoras, esse cenário tem levado à perda de biodiversidade e à descaracterização dos ecossistemas naturais.
Pastejo controlado reduz invasora e abre espaço para regeneração
O estudo foi realizado na Estação Ecológica de Santa Bárbara, no interior de São Paulo, onde áreas invadidas por braquiária foram submetidas ao pastejo rotacionado — sistema que alterna períodos de uso e descanso.
Após dois anos de monitoramento, os resultados mostraram:
- Redução de cerca de 50% na cobertura de braquiária
- Aumento do solo exposto, favorecendo a germinação
- Crescimento de aproximadamente 20% na diversidade de espécies nativas
De acordo com a pesquisadora Bruna Helena de Campos, autora principal do estudo, a abertura de espaço no solo é essencial para a recuperação do ecossistema.
“Isso permite que outras espécies germinem e se desenvolvam, contribuindo para a diversidade e manutenção da vegetação típica”, explica.
Gado pode cumprir papel ecológico semelhante ao da fauna extinta
A pesquisa também resgata a relação histórica entre o pastejo e os ecossistemas campestres.
Segundo a ecóloga Giselda Durigan, coautora do estudo, as plantas do Cerrado evoluíram ao longo de milhões de anos convivendo com grandes herbívoros, hoje extintos.
Nesse contexto, o gado pode exercer função semelhante, ajudando a controlar o excesso de biomassa e favorecendo o equilíbrio do sistema.
Solução baseada na natureza exige manejo adequado
Apesar dos resultados positivos, os pesquisadores alertam que o uso do pastejo como ferramenta de restauração exige critérios técnicos rigorosos.
Entre os principais cuidados estão:
- Controle da densidade de animais por área
- Evitar o sobrepastejo, que pode degradar o solo
- Monitoramento contínuo da vegetação
“O excesso de animais pode causar compactação do solo e reduzir a diversidade, gerando efeitos contrários ao esperado”, ressalta Campos.
Política pública e uso sustentável
No Brasil, a legislação ambiental já permite o manejo sustentável da vegetação nativa, incluindo o uso econômico compatível com a conservação.
Em estados como São Paulo, o pastejo é reconhecido como prática sustentável em áreas de Reserva Legal de ecossistemas abertos.
Para os pesquisadores, os resultados do estudo reforçam a importância de integrar ciência, políticas públicas e gestão no campo.
Integração entre produção e conservação
A pesquisa foi desenvolvida por cientistas do IPA e da Unicamp, com apoio da FAPESP e colaboração internacional.
Os autores concluem que o pastejo controlado pode ser uma solução baseada na natureza para restaurar áreas degradadas do Cerrado, desde que aplicado com planejamento e acompanhamento técnico.
A prática abre caminho para uma integração mais eficiente entre produção agropecuária e conservação ambiental, tema cada vez mais estratégico para o futuro do agro brasileiro.
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