Mercado em alerta, campo em risco

O mercado financeiro, muitas vezes, antecipa movimentos que a economia real ainda não conseguiu traduzir com clareza. E o que começa a aparecer agora é um ambiente mais nervoso, mais caro e mais difícil para quem produz.
A guerra no Oriente Médio deixou de ser apenas uma notícia distante. Já entrou no preço do petróleo, contamina o diesel, gás natural e mexeu com os fertilizantes e voltou a pressionar os juros globais. O barril segue elevado, e o mercado passou a rever a expectativa de cortes de juros no curto prazo.
Nos Estados Unidos, o Federal Reserve manteve a taxa, mas o cenário está longe de ser confortável. O comitê está dividido, e a própria autoridade reconhece que os efeitos da crise sobre a inflação ainda são incertos.
O problema é que a curva de juros americana mostra uma leitura mais dura. Os títulos longos seguem pressionados, indicando que o mercado não aposta em queda rápida dos juros e sim uma alta.
Isso importa muito para o Brasil. Quando os juros sobem lá fora, o crédito fica mais seletivo e mais caro. Aqui, o Banco Central até iniciou cortes, mas com cautela, justamente por causa desse ambiente externo mais pressionado.
Ao mesmo tempo, o Tesouro precisou atuar recomprando títulos e, ainda assim, o mercado segue tensionado. Petróleo, risco fiscal e incerteza política continuam andando juntos.
E é nesse ponto que o produtor rural precisa refletir.
O campo já vinha fragilizado por margens apertadas, endividamento elevado e rentabilidade comprimida. Agora, soma-se um choque que atinge diretamente o custo de produção: diesel e fertilizantes.
O Brasil continua exposto ao preço internacional do diesel. Medidas do governo ajudam, mas não alteram a lógica do mercado. Se o preço sobe lá fora, acaba chegando aqui.
Nos fertilizantes, o sinal é ainda mais claro. A guerra afetou rotas importantes, reduziu oferta e elevou preços. Isso chega direto no custo da próxima safra.
Por isso, o risco não está apenas na guerra. Ele está na planilha do produtor.
Se o diesel segue pressionado, o fertilizante sobe e o crédito não se alivia, a margem desaparece. E quando a margem some em um setor altamente financiado, o problema passa a ser de solvência.
E há um ponto estrutural que o Brasil insiste em adiar. A taxa de juros elevada, que historicamente atrai mais capital especulativo do que investimento produtivo, continua sendo um freio para o crescimento. O país precisa de um sinal claro de coordenação entre Executivo, Congresso e Judiciário.
Algo na linha de um pacto nacional, como foi o Pacto de Moncloa na Espanha, que estabeleça um compromisso firme com responsabilidade fiscal, redução de despesas e previsibilidade. Sem isso, o capital não se direciona para produzir; ele apenas gira em torno da renda financeira.
Não adianta apostar em solução rápida. O governo está limitado, com pouco espaço para medidas amplas. Qualquer saída estrutural exigirá tempo e credibilidade, dois fatores escassos hoje.
Por isso, o recado ao produtor rural precisa ser direto. Este é o momento de levantar toda a dívida, contrato por contrato. Entender o tamanho do problema antes que ele cresça. Quem puder alongar prazo e preservar caixa, precisa agir agora.
Em momentos assim, gestão financeira deixa de ser detalhe e passa a ser ferramenta de sobrevivência.
O mercado está avisando: o mundo ficou mais caro. O campo, já pressionado, não pode esperar soluções externas.
Porque, no campo, não existe milagre: quando a margem some, sobra apenas a conta, e ela não espera.

*Miguel Daoud é comentarista de Economia e Política do Canal Rural
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