Fávaro faz duras críticas à Cargill após suspensão de envio de soja à China

Em entrevista exclusiva à CNN Agro, o ministro da Agricultura e Pecuária (Mapa), Carlos Fávaro, criticou a postura da Cargill após a empresa suspender temporariamente exportações de soja brasileira para a China.
A empresa alega que tomou a decisão após mudanças na inspeção fitossanitária adotadas pela pasta. De acordo com o presidente da companhia no Brasil e do Negócio Agrícola na América Latina, Paulo Sousa, o Mapa passou a adotar uma fiscalização mais rigorosa para cargas destinadas ao mercado do gigante asiático após solicitação do próprio governo chinês.
Segundo o executivo, a nova metodologia tem dificultado o cumprimento das normas pelos comerciantes e a obtenção da autorização necessária para o embarque da soja.
Contudo, na entrevista, Fávaro afirmou que a Cargill não foi correta ao atribuir a situação a mudanças de procedimento do Ministério da Agricultura. O ministro afirmou que “não irá precarizar o sistema sanitário brasileiro” por uma postura empresarial, que classificou como “irresponsável”.
De acordo com ele, a soja é o segundo maior produto da balança comercial brasileira e, além de estar no padrão, precisa cumprir os protocolos fitossanitários estabelecidos no comércio global.
‘Empresa mentiu’
À CNN Agro, Fávaro ressalta que não gostou da postura da Cargill quando diz que o Ministério da Agricultura muda os procedimentos. “Isso é mentira. [A Cargill] sabe muito bem que há algum tempo o governo chinês reclama de que há algumas cargas de soja brasileira chegando sem o cumprimento do protocolo”, ressalta.
Para o ministro, o cumprimento do protocolo sanitário é imprescindível, especialmente em relação à presença de sementes de ervas daninhas proibidas pelo país importador. “Existe um protocolo sanitário que restringe sementes de ervas daninhas que não existem do lado comprador. O Brasil se tornou referência mundial no comércio agro pela excelência do seu sistema sanitário”, afirmou.
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Segundo Fávaro, o padrão da soja brasileira tem sido cumprido com excelência, mas recentemente identificou-se 19 navios carregados com soja com sementes com ervas daninhas, o que não prejudica o padrão de qualidade, mas descumpre o protocolo fitossanitário acordado com a China.
‘Faltou responsabilidade’
O ministro afirmou que a solução para o impasse de novo padrão sanitário passa por negociações entre exportadores e compradores, além de diálogo entre os governos dos dois países sobre eventuais ajustes no protocolo.
“Compradores e vendedores brasileiros e chineses precisam intensificar as negociações, e os dois governos podem discutir eventuais ajustes no protocolo, como alguma tolerância. Isso faz parte do jogo”, detalhou à CNN Agro.
“A Cargill deveria ser mais responsável. A postura da empresa não foi legítima. O que precisa ser feito é ajustar a limpeza da soja brasileira”, reforçou o ministro.
O titular do Mapa também fez questão de ressaltar que não há questionamentos sobre a qualidade comercial da soja brasileira. Ele lembrou que o produto atende aos padrões internacionais de classificação, como limites de impurezas, grãos avariados e umidade.
“Não existe problema com a qualidade da soja brasileira no padrão comercial. O padrão é 1, 8, 14 — com tolerância de 1% de impurezas, 8% de avariados e até cerca de 13% de umidade, dependendo do país — e isso está sendo cumprido”, destacou.
Repercussão
A Cargill destacou que, diante das dificuldades para enviar o produto ao principal comprador mundial da oleaginosa, também suspendeu temporariamente a compra de soja no mercado brasileiro.
Em nota conjunta, a Associação Brasileira das Indústrias de Óleos Vegetais (Abiove) e a Associação Nacional dos Exportadores de Cereais (Anec) ressaltaram que acompanham o assunto de forma atenta e com preocupação.
Diante do cenário, ambas reafirmam que seguem atuando de forma colaborativa e mantendo diálogo constante com as autoridades competentes e com as demais entidades da cadeia produtiva para buscar soluções que garantam a fluidez do comércio, a previsibilidade das operações, prezando pela segurança jurídica e fortalecimento das relações comerciais internacionais e pela garantia dos requisitos de fitossanidade.
“A suspensão de compras por parte de uma trading desse porte reduz a demanda por soja no interior e nos portos, o que pode pressionar os prêmios de exportação e os preços pagos ao produtor, justamente em um período em que a colheita avança no país e a oferta interna aumenta rapidamente”, dizem as entidades em nota conjunta.
Para o consultor de agronegócio Carlos Cogo, na prática, quando uma grande exportadora interrompe as compras, há menos compradores disputando a soja no mercado, o que diminui a demanda imediata pelo grão. Com mais oferta chegando da colheita e menos empresas comprando, os preços tendem a ficar pressionados.
Apesar disso, o especialista avalia que o impasse deve ser temporário. “Historicamente, esse tipo de questão técnica costuma ser resolvido por meio de ajustes operacionais e negociações entre autoridades sanitárias, governo brasileiro e tradings exportadoras. Por isso, a tendência mais provável é que a suspensão tenha caráter pontual, limitada a dias ou poucas semanas, até que os protocolos de inspeção sejam alinhados”, avalia.
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