Posição de rebanho bovino nos EUA, na Austrália, Argentina e UE coloca Brasil em destaque

O ano de 2025 é histórico para a bovinocultura de corte brasileira. Trata-se do ápice dos investimentos realizados no setor, que resultaram em um impressionante salto de produtividade. O Brasil alicerçou sua pecuária de alta performance em dois pilares centrais: precocidade e biosseguridade.
O terceiro pilar está em formação: a rastreabilidade. Trata-se de uma demanda de mercados mais exigentes, como a União Europeia. O trabalho para que todo o rebanho bovino brasileiro seja rastreado é árduo e esbarra em questões culturais. No entanto, o status de país livre de febre aftosa sem vacinação — também fruto de um esforço significativo — foi conquistado em 2025.
A partir do momento em que a rastreabilidade for plenamente alcançada, o Brasil deixará de ser apenas um fornecedor de volume e passará a contar com um selo adicional de qualidade, ampliando a perspectiva de exportação de cortes de maior valor agregado. É interessante observar como as exigências da demanda global moldaram os meios de produção no Brasil. A demanda chinesa exigiu precocidade, e pecuaristas e indústria passaram a entregá-la, o que resultou também em um encurtamento do ciclo pecuário no país.
Os investimentos realizados no Brasil maturaram e tornaram a pecuária de corte muito mais competitiva em comparação à década passada. Essa maturidade também se reflete nas estratégias de comercialização, cada vez mais sofisticadas, oferecendo previsibilidade e boas margens setoriais.
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Pecuaristas focados em recria e engorda têm conseguido obter bons ganhos nos últimos dois anos. A combinação de custos baixos com a expansão da produção brasileira de carne bovina, em um ambiente pautado por uma moeda relativamente enfraquecida, ofereceu inúmeras oportunidades ao produto brasileiro no mercado internacional.
O momento se torna ainda mais oportuno ao se avaliar a posição dos rebanhos bovinos em nossos principais concorrentes e também em nosso principal mercado consumidor, a China.

Mesmo em um ano que tende a ser marcado por menor produção de carne bovina no Brasil, em função do processo de inversão do ciclo pecuário, as oportunidades seguirão presentes. A seguir, o cenário para cada um dos mercados relevantes para a carne bovina:
- Estados Unidos: o lento processo de recuperação dos rebanhos terá início em 2026. Ainda assim, a expectativa inicial do Departamento de Agricultura dos Estados Unidos (USDA) é de produção menor na próxima temporada, tornando inevitável o aumento das importações. Nesse contexto, o produto brasileiro deverá ocupar papel relevante no abastecimento norte-
americano em 2026; - União Europeia: o quadro produtivo segue delicado, em mais um ano de encolhimento do rebanho. Apesar dos ruídos e do firme posicionamento francês contra a assinatura do acordo União Europeia–Mercosul, o continente europeu necessita da carne bovina da América do Sul, especialmente do Brasil, para atender suas necessidades de consumo;
- China: este mercado é o ator central na formação de tendências para as exportações globais de carne bovina. O ano de 2026 deve marcar um importante encolhimento do rebanho bovino chinês e, por consequência, uma menor produção de carne. As estimativas do USDA corroboram o posicionamento do setor produtivo local, que alega impossibilidade de competir com o produto importado, especialmente o brasileiro. As investigações de salvaguarda seguem em andamento e, caso sejam impostas cotas muito restritivas, a dinâmica das exportações globais poderá mudar significativamente. Em uma análise ainda incipiente, a China pode deixar de ser um mercado de volume e se tornar um mercado de qualidade, exigindo atenção redobrada do Brasil;
- Argentina: observa-se um lento processo de recuperação dos rebanhos. O país deve apresentar avanços em seus embarques, figurando como uma alternativa relevante no fornecimento de cortes do traseiro bovino para os Estados Unidos e a União Europeia;
- Austrália: o país se consolida como o segundo maior exportador global de carne bovina. Mesmo com um rebanho menor, os australianos produzem com elevada eficiência. A expectativa para 2026 é de volumes de produção e exportação muito próximos aos registrados em 2025. Trata-se de um exportador que prioriza qualidade, com embarques de cortes de maior valor agregado.
Quando se trata de volume, o Brasil segue insuperável. O processo de encolhimento dos rebanhos ao redor do mundo coloca o país em posição de destaque. Fica o alerta para a decisão chinesa em torno das salvaguardas no próximo dia 26. Nesse sentido, a busca por novos mercados segue imprescindível para mitigar os efeitos de uma eventual mudança de postura da China no mercado global.

A expectativa geral é que o Brasil continue estabelecendo novos recordes de exportação na segunda metade da década, apostando em novas tecnologias — manejo, genética e gestão —, resultando em aumentos de produção em áreas cada vez menores.
O contexto global é amplamente favorável ao Brasil. O setor trabalha de forma consistente para atender às exigências de mercados relevantes e conviver com receitas de exportação cada vez mais robustas. Esse cenário se traduz em avanços nas margens de pecuaristas e indústrias. Resta, contudo, o fortalecimento do mercado doméstico, que ao longo da década se consolidou como o calcanhar de Aquiles do setor.

*Fernando Henrique Iglesias é coordenador do departamento de Análise de Safras & Mercado, com especialidade no setor de carnes (boi, frango e suíno)
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