segunda-feira, março 9, 2026
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Instituto Butantan inaugura insetário para fortalecer combate a doenças virais


O Instituto Butantan inaugurou um insetário de mosquitos para criação de Aedes aegypti e Aedes albopictus, com nível 2 de biossegurança (NB2), destinado à criação controlada e ao estudo de vetores de doenças como dengue, zika e chikungunya.

A estrutura permitirá realizar ensaios exigidos pela Comissão Técnica Nacional de Biossegurança (CTNBio), produzindo dados para comprovar a segurança ambiental e a ausência de risco de transmissão do vírus vacinal por mosquitos vetores na pesquisa e no desenvolvimento de vacinas contra arboviroses (doenças causadas por mosquitos).

O novo espaço integrará às plataformas de vigilância e diagnóstico do Centro para Vigilância Viral e Avaliação Sorológica (CeVivas) e aos núcleos de Bioinformática e Genômica do Centro de Desenvolvimento Científico (CDC) do Butantan, consolidando um ambiente multidisciplinar que une ciência, inovação e saúde pública.

“Com isso, o Instituto ganha autonomia científica e regulatória, pois passaremos a gerar internamente evidências que sustentam o processo de liberação de novas vacinas. Sem dúvida esse avanço acelera o desenvolvimento, garante biossegurança e fortalece a resposta nacional frente às arboviroses”, afirma a diretora do CDC, Sandra Coccuzzo.

Segundo a diretora, o insetário representa a soberania científica do Butantan e reforça o compromisso da organização com a produção de vacinas seguras, eficazes e desenvolvidas com base na excelência. 

Como funciona um insetário

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Foto: Renato Rodrigues

Com nível de biossegurança 2 (NB2), o insetário apresenta as medidas necessárias para lidar com organismos de risco moderado, como mosquitos infectados por vírus, que podem afetar humanos.

Esse tipo de instalação possui acesso restrito, portas duplas com vedação, pressão negativa no ar e filtros específicos nos sistemas de ventilação, além de protocolos de descarte e descontaminação rigorosos.

“Essas condições garantem que mesmo que os mosquitos estejam infectados com vírus selvagens, não haja risco de liberação para o ambiente externo. É o padrão internacional exigido para pesquisas com arbovírus”, explica o virologista e responsável técnico pelo projeto, Tiago Souza Salles.

O centro de pesquisa planejou cada módulo do insetário para manter um controle rigoroso de temperatura, umidade e fluxo de ar, simulando as condições ideais para o desenvolvimento dos mosquitos, mas sem risco ambiental.

As salas têm pressão de ar negativa e sistemas de filtragem que impedem qualquer fuga. O descarte é feito de forma segura, com autoclaves e tratamento térmico, garantindo que nenhum material biológico seja liberado para o ambiente externo.

Já os mosquitos são criados a partir de ovos obtidos em colônias mantidas dentro do próprio insetário. As larvas se desenvolvem em bandejas com água e alimento específico, e, após o estágio de pupa, os pesquisadores transferem os adultos para gaiolas apropriadas.

“Os insetos são alimentados com uma mistura de solução açucarada e, no caso das fêmeas, sangue artificial, que simula a alimentação natural. Esse controle garante que os mosquitos tenham vida saudável e comportamento natural, condições fundamentais para estudos de infecção e transmissão de vírus”, detalha o virologista.

Importância do espaço

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Foto: Renato Rodrigues

O espaço permitirá que cientistas investiguem como os mosquitos se infectam, transmitem e respondem ao contato com vírus vacinais, ajudando a determinar se a imunização impede ou reduz a circulação viral.

Além disso, esses testes também fornecem informações valiosas para análises de eficácia vacinal, verificando se o vírus atenuado ou inativado presente na vacina é capaz (ou não) de ser transmitido pelo vetor.

“A infraestrutura do insetário já está pronta e o cultivo dos mosquitos já foi iniciado. No momento, a equipe realiza ensaios de infecção utilizando vírus selvagens não modificados”, esclarece a diretora do Laboratório de Ciclo Celular do Instituto, Carolina Sabbaga.

No entanto, o Butantan ainda aguarda a aprovação da CTNBio para trabalhar com os vírus vacinais (geneticamente modificados).

A diretora ressalta que é muito importante entender todo o processo de transmissão do vírus e da proteção conferida pela vacina – não só a interação do vírus com o organismo humano, mas também com o vetor, porque ele faz parte desse ciclo.

“Por isso, achamos que era o momento de criar um insetário e começar as pesquisas, evoluindo o conhecimento científico para que possamos pensar em novos desenvolvimentos e responder questões regulatórias para a comercialização das vacinas”, afirma.

A CTNBio é uma instância federal de formulação, atualização e implementação da Política Nacional de Biossegurança de organismos geneticamente modificados (OGM).

Pesquisas com vírus selvagens e vacinais

Com a estrutura pronta, os pesquisadores já iniciaram ensaios de infecção com vírus selvagens não modificados, como o da dengue e chikungunya.

Esses estudos buscam entender como o vírus se replica dentro do mosquito e se a vacina impede essa replicação, oferecendo dados diretos sobre a eficácia e segurança dos imunizantes.

De acordo com Tiago Souza Salles, o processo para verificar se há mosquitos infectados após o contato com a vacina, ocorre através da coleta de saliva deles.

Os pesquisadores anestesiam os mosquitos e encaixam um aparelho bucal em uma ponteira com meio de cultura, simulando a alimentação. Nesse processo, ao se alimentar, o mosquito libera a saliva necessária para análise.

O grau de infecção do vetor é verificado por RT-qPCR (Reação em Cadeia da Polimerase com Transcrição Reversa quantitativa) e testes de biologia molecular, que identificam o material genético do vírus na saliva.

“Com o insetário, conseguimos avaliar se o mosquito que entra em contato com uma pessoa vacinada ainda consegue transmitir o vírus. É uma etapa fundamental para garantir a segurança das vacinas e responder a exigências de órgãos reguladores”, explica Carolina Sabbaga.

Estrutura pronta para novas pesquisas

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Foto:

Além do Aedes aegypti, o insetário poderá abrigar estudos com outros vetores e patógenos no futuro.

“Vamos trabalhar com dengue, chikungunya e outros vírus que tenham interação com mosquitos. Também temos linhas de pesquisa envolvendo o Trypanosoma cruzi, causador da doença de Chagas, transmitido por barbeiros. O insetário é versátil e pode atender a diferentes demandas”, comenta o virologista.

Maria Carolina Sabbaga ressalta a importância do espaço para acompanhar o avanço das pesquisas feitas no Butantan.

“Os vírus geneticamente modificados são a tendência do futuro, pois trazem muitas vantagens para a pesquisa e o desenvolvimento de vacinas. E o insetário garante que o Butantan esteja preparado para esse cenário”, conclui.

*Sob supervisão de Victor Faverin

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