terça-feira, março 24, 2026

Agro

News

modelo do edital de novo terminal vira disputa técnica no TCU



O novo modelo de licitação do terminal de contêineres Tecon Santos 10, no Porto de Santos, está em análise no Tribunal de Contas da União (TCU) e se tornou o principal ponto de tensão no maior projeto portuário do governo federal. A proposta da Agência Nacional de Transportes Aquaviários (Antaq) prevê duas fases de concorrência e investimentos de R$ 6,45 bilhões ao longo de 25 anos.

O debate gira em torno de como ampliar a concorrência no porto mais movimentado do país, evitar concentração de mercado e garantir condições equitativas para novos operadores.

O que está em jogo

O Tecon 10 é tratado como peça-chave para a expansão da capacidade de contêineres em Santos. O modelo da Antaq limita a participação de empresas que já operam terminais no porto na primeira fase do leilão, com o objetivo de estimular a entrada de novos players. A agência argumenta que a medida cria um ambiente mais competitivo e reduz riscos de concentração no complexo portuário.

A proposta também recebeu pareceres de especialistas, que apontaram conformidade com princípios de isonomia, proporcionalidade e livre concorrência previstos na legislação, especialmente na Lei de Introdução às Normas do Direito Brasileiro (LINDB).

Interesse privado e pressão por definição

O interesse elevado se explica pela dimensão do projeto. O Tecon 10 deve ocupar área de 622 mil m², com quatro berços de atracação e capacidade estimada em 3,5 milhões de TEUs por ano. O governo trabalha para levar o leilão a mercado em 2026, mas as discussões no TCU definem o que será ou não permitido no edital.

A controvérsia também envolve avaliações técnicas divergentes dentro de órgãos do próprio governo. A Subsecretaria de Acompanhamento Econômico e Regulação (Seae), do Ministério da Fazenda, e áreas técnicas do TCU já haviam defendido o modelo em fase única com cláusula de desinvestimento. Já o Ministério de Portos e Aeroportos apoia a proposta da Antaq, que busca garantir pluralidade de operadores no porto.

Duas fases ou concorrência aberta?

O debate se intensificou após a sessão extraordinária do TCU, quando ministros apresentaram posições opostas. O relator, ministro Antonio Anastasia, defendeu uma licitação em fase única e aberta a todos os grupos, com exigência de desinvestimento caso um operador já estabelecido em Santos vença o certame.

A proposta beneficia players incumbentes como Maersk, MSC, CMA CGM e DP World, todos interessados no novo terminal. Para parte do mercado, essa alternativa possibilitaria até a reorganização societária desses grupos no atual BTP, terminal operado por Maersk e MSC.

O voto revisor, do ministro Bruno Dantas, seguiu direção oposta e apoiou o modelo original da Antaq, que prevê duas fases de concorrência. No desenho defendido por Dantas, empresas de navegação – como Maersk, MSC e CMA CGM – ficariam fora da primeira etapa para evitar verticalização e concentração de mercado no porto. Ele argumentou que a presença de armadores como operadores poderia limitar o acesso de outros players e criar barreiras à entrada de novas linhas marítimas.

Dantas afirmou ainda que não há ilegalidade na proposta da Antaq, o que impediria o TCU de substituir a modelagem definida pela agência reguladora.

Próximos passos

Com isso, a discussão foi interrompida após pedido de vista do ministro Augusto Nardes, que solicitou mais tempo para análise. O processo deve voltar ao plenário no dia 8 de dezembro. Mesmo assim, há sinais de maioria em favor do modelo em duas etapas: além de Dantas, os ministros Walton Alencar e Jorge Oliveira indicaram que tendem a acompanhar essa posição.

O TCU ainda avalia as manifestações recebidas e deve se pronunciar sobre a legalidade e a adequação do modelo proposto pela Antaq.



Source link

News

IPCA-15 fica em 0,20% e inflação volta ficar dentro da meta



A prévia da inflação oficial de novembro ficou em 0,20%, resultado que faz o acumulado de 12 meses do Índice Nacional de Preços ao Consumidor Amplo 15 (IPCA-15) marcar 4,5%, limite da meta do governo.

Nos 12 meses terminados em outubro, o IPCA-15 registrava 4,94%. Este é o primeiro acumulado de 12 meses dentro da meta desde janeiro de 2025, quando também estava em 4,5%. Em abril, o ponto mais alto desde então, chegou a 5,49%.

Os dados foram divulgados nesta quarta-feira (26) pelo Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística (IBGE).

A meta do governo é de 3% ao ano com tolerância de 1,5 ponto percentual para mais ou para menos, ou seja, indo no máximo a 4,5%.

Instituições financeiras ouvidas pelo boletim Focus, do Banco Central, divulgado na segunda-feira (24), estimam que o IPCA deve terminar o ano em 4,45%, dentro da tolerância da meta.

Influências

Em outubro, o IPCA-15 havia sido de 0,18%. Dos nove grupos de produtos e serviços pesquisados pelo IBGE, sete tiveram alta na passagem de outubro para novembro:

  • Alimentação e bebidas: 0,09%
  • Habitação: 0,09%
  • Artigos de residência: -0,20%
  • Vestuário: 0,19%
  • Transportes: 0,22%
  • Saúde e cuidados pessoais: 0,29%
  • Despesas pessoais: 0,85%
  • Educação: 0,05%
  • Comunicação: -0,19%

A alta do grupo despesas pessoais representou o maior impacto no IPCA-15, 0,09 ponto percentual. Dentro do grupamento, as maiores pressões foram exercidas pela hospedagem (4,18%) e pacote turístico (3,90%).

Avião e gasolina

No grupo dos transportes, a principal influência para aumento dos preços ficou com as passagens aéreas, que subiram 11,87%. Dessa forma, de todos os 377 produtos e serviços pesquisados pelo IBGE, o bilhete de avião foi o subitem que mais forçou para cima o IPCA-15.

Por outro lado, os combustíveis tiveram queda no mês (-0,46%). A gasolina, produto que mais pesa na cesta de consumo dos brasileiros, recuou 0,48%, sendo o subitem que mais ajudou a segurar o IPCA-15 (impacto de -0,02 ponto percentual), ao lado do leite longa vida, arroz e energia elétrica residencial.

Alimentos

A alta do grupo alimentação e bebidas interrompe uma sequência de cinco esses de queda. No entanto, especificamente a alimentação no domicílio recuou 0,15%. Essa é o sexto recuo seguido desse item. Em 12 meses, apresenta alta de 3,61%, abaixo do IPCA-15 geral.

Os principais impactos para esse resultado de baixa no preço da alimentação no domicílio na passagem de outubro para novembro foram:

  • leite longa vida: -3,29%
  • arroz: -3,10%
  • frutas: -1,60%

Na outra ponta, subiram:

  • batata inglesa: 11,47%
  • óleo de soja: 4,29%
  • carnes: 0,68%

Prévia x mês cheio

O IPCA-15 tem basicamente a mesma metodologia do IPCA, a chamada inflação oficial, que serve de base para a política de meta de inflação do governo.

A diferença está no período de coleta de preços e na abrangência geográfica. Na prévia, a pesquisa é feita e divulgada antes mesmo de acabar o mês de referência. Em relação à divulgação atual, o período de coleta foi de 14 de outubro a 13 de novembro.

Ambos os índices levam em consideração uma cesta de produtos e serviços para famílias com rendimentos entre um e 40 salários mínimos. Atualmente o valor do mínimo é R$ 1.518.

O IPCA-15 coleta preços em 11 localidades do país (as regiões metropolitanas do Rio de Janeiro, de Porto Alegre, Belo Horizonte, do Recife, de São Paulo, Belém, Fortaleza, Salvador e Curitiba, além de Brasília e Goiânia.); e o IPCA, em 16 localidades (incluindo Vitória, Campo Grande, Rio Branco, São Luís e Aracaju). O IPCA cheio de novembro será divulgado em 10 de dezembro.



Source link

News

Com preço ainda em queda generalizada, margens do arroz são negativas



O mercado de arroz em casca do Rio Grande do Sul vem sendo marcado, há vários meses, por custos de produção elevados, preços internos em queda e margens de produtores negativas.

Segundo pesquisadores do Cepea, registros recentes de volumes sendo destinados à exportação e de certa demanda de outros estados por arroz de maior rendimento foram insuficientes para sustentar as cotações. Assim, os valores do arroz em casca seguem recuando de forma generalizada nas principais regiões produtoras nesta reta final de novembro.

Segundo os dados mais recentes da Equipe de Custos Agrícolas do Cepea, considerando-se as aquisições de todos os insumos realizadas em outubro/25, o preço de nivelamento sobre o custo operacional (desembolso) calculado pelo Cepea para a região de Uruguaiana (RS) fechou em R$ 66,71/saca de 50 kg e, sobre o custo total, em R$ 93,19/sc. Em Camaquã (RS), esses custos ficaram em R$ 61,73/sc e R$ 87,88/sc, respectivamente.

Já quanto às médias de preços de venda do arroz, na parcial de novembro (até o dia 21), foram de R$ 54,85/sc na região de Uruguaiana e de R$ 58,40/sc na de Camaquã. Ou seja, os atuais patamares de preços estão 38,34 Reais/sc e 29,48 Reais/sc abaixo dos respectivos custos totais calculados em outubro, sendo o 10º mês consecutivo de margem negativa aos produtores de Uruguaiana e o 9º aos de Camaquã, conforme apontam dados do Cepea.

*Sob supervisão de Luis Roberto Toledo



Source link

News

No Dia Mundial da Oliveira, conheça mitos e verdades sobre cultivo e azeite



No Dia Mundial da Oliveira, comemorado nesta quarta-feira (26), informações técnicas e curiosidades sobre a cultura que dá origem a produtos como a azeitona e o azeite, ganham destaque. A data reforça a importância da árvore que sustenta a produção global de azeite, uma cadeia que envolve agricultura, processamento e tradição.

A oliveira é reconhecida por sua longevidade. De desenvolvimento lento, começa a produzir a partir do quinto ano e pode permanecer ativa por mais de 150 anos. Em algumas regiões, árvores milenares seguem em produção.

Maturação e impacto no azeite

Todas as azeitonas nascem verdes e escurecem à medida que amadurecem — por isso não existem variedades “verdes” ou “pretas” na origem. O estágio de maturação define o padrão sensorial do azeite: frutos verdes tendem a gerar sabores mais amargos e picantes; os maduros, notas mais suaves.

Como ocorre a produção

A extração do azeite combina práticas tradicionais e tecnologia. Entre cinco e seis quilos de azeitonas são necessários para produzir um litro do produto. Em operações agrícolas como a conduzida pela Andorinha em Portugal — marca pertencente ao Grupo Sovena — a colheita é mecanizada, e o envio ao lagar ocorre poucas horas após a retirada do fruto, etapa essencial para preservar frescor. A Sovena é uma empresa global do setor de azeites e óleos vegetais, com atuação agrícola e industrial em vários países.

Para explicar a relação entre campo e qualidade, o diretor-geral da Nutrifarms, que é braço agrícola do grupo, destaca a importância das etapas iniciais. “Clima, momento da colheita e rapidez da extração são vitais para a qualidade do que chega à mesa. A oliveira é a verdadeira protagonista dessa história”, afirma Vasco Martins.

Mitos e verdades sobre a oliveira e o azeite

A data também trouxe esclarecimentos sobre práticas e percepções ligadas à cultura da oliveira:

  • Clima: é verdade que o ambiente mediterrâneo favorece o desenvolvimento da oliveira.
  • Consumo in natura: é mito que a azeitona colhida do pé tenha sabor agradável — o fruto é muito amargo e exige cura.
  • Uso na cozinha: é mito que o azeite não possa ser usado para fritar; é uma das gorduras mais estáveis para altas temperaturas.
  • Acidez: é verdade que se trata de um parâmetro químico e não sensorial.
  • Tempo de prateleira: é mito que o azeite melhora com o tempo — quanto mais novo, mais preserva aromas e benefícios.
  • Armazenamento: é mito que deva ser guardado na geladeira; o ideal é mantê-lo em ambiente fresco e protegido da luz.



Source link

News

‘Alguns sojicultores vão plantar até sem adubo’, aponta presidente da Aprosoja Maranhão



A produção de grãos no Maranhão deve enfrentar uma safra marcada por fortes desafios. Em entrevista ao Soja Brasil, o presidente da Aprosoja Maranhão, José Carlos Oliveira, afirmou que o estado ainda tem “um percurso muito grande a ser percorrido”, especialmente devido às longas distâncias e à falta de estrutura logística.

Segundo Oliveira, a expectativa é que o Maranhão plante 1,6 milhão de hectares de soja, somando áreas de sequeiro e irrigadas por pivô. Para o milho, a projeção é de 200 mil hectares na primeira safra e entre 600 mil e 1 milhão de hectares na segunda safra.

  • Fique por dentro das novidades e notícias recentes sobre a soja! Participe da nossa comunidade através do link! 🌱

“Alguns sojicultores vão plantar até sem adubo porque não têm dinheiro. Não houve financiamento na maior parte dos casos, porque os bancos hoje exigem hipoteca, e o agricultor já vem trabalhando há anos com outras hipotecas”, afirmou.

De acordo com o presidente, a falta de recursos deve resultar em queda na produtividade, com estimativa de redução entre 10% e 20%, levando a uma baixa na produção.

Os custos elevados também pressionam o produtor. “Os fertilizantes e os herbicidas estão em patamar elevado. Sem contar o frete, que vem subindo a cada dia e diminuindo o preço das commodities”, disse.

Outro entrave citado por Oliveira são as novas exigências das tradings para viabilizar a comercialização. “Hoje as trades fazem a troca, mas pedem mais garantias. Além da CPR financeira, em que o agricultor se compromete a entregar 45 sacas, ele já fica com toda a safra travada”, explicou.

Apesar das dificuldades, o presidente acredita que as tradings continuarão tendo papel decisivo. “A trade vai seguir em um patamar parecido com o de outros anos para manter a nossa produção no Maranhão”, concluiu.



Source link

News

Preço interno do algodão se mantém firme com exportações intensas



Vendedores brasileiros de algodão estão focados no cumprimento de contratos, se mantendo afastados do mercado spot nacional.  De acordo com os dados do Centro de Estudos Avançados em Economia Aplicada (Cepea).

Essa retração vendedora e a maior paridade de exportação têm dado suporte aos preços internos do algodão em pluma. Do lado da demanda, agentes de indústrias consultadas pelo Cepea mostram maior interesse por lotes de qualidade superior, mas as compras são realizadas apenas quando há necessidade.

Segundo pesquisadores do Cepea, enquanto o ritmo de negócios envolvendo algodão em pluma segue lento no mercado spot nacional, os embarques da commodity para o exterior estão intensas.

O volume escoado pelo Brasil nesta parcial de novembro já soma 323,1 mil toneladas, superando em 7,9% a quantidade exportada em todo mês de novembro do ano passado e sendo quase 10% acima do volume embarcado em outubro/25, conforme apontam dados da Secex. Se seguirem neste ritmo, os embarques podem atingir o maior volume mensal deste ano, superando 438 mil toneladas.

*Sob supervisão de Luis Roberto Toledo



Source link

News

Retirada das tarifas americanas deve favorecer exportação do café brasileiro



Após anunciar, no dia 14 de novembro, a retirada da tarifa de 10%, aplicada em abril deste ano, o governo dos Estados Unidos comunicou, no último dia 20, a retirada do café da lista de produtos com sobretaxa de 40%.

Pesquisadores do Cepea indicam que a medida, que era aguardada pelo setor exportador brasileiro, foi recebida com muito otimismo. Vale lembrar que os embarques brasileiros de café estavam registrando lentidão na atual safra e isso vinha gerando preocupações entre agentes diante da possível perda de mercado para concorrentes.

Contudo, enquanto o grão in natura foi isento, o café solúvel segue com a sobretaxa de 50%, mesmo tendo os Estados Unidos como um dos principais destinos da produção brasileira. Assim, as negociações entre representantes brasileiros e norte-americanos devem continuar no intuito de tentar incluir o café solúvel na lista de isenções.

Quanto aos preços, mesmo com a notícia, os mercados externo e interno ainda vêm sendo influenciados pela menor oferta de café e pelos baixos estoques globais. Esses fatores seguem dando suporte às cotações, indicam pesquisadores do Cepea.

*Sob supervisão de Luis Roberto Toledo



Source link

AgroNewsPolítica & Agro

Novembro reduz preço de paridade do algodão



Imea alerta para cautela nas negociações do algodão



Foto: Divulgação

Segundo a análise semanal do Instituto Mato-Grossense de Economia Agropecuária (Imea), divulgada na segunda-feira (24), o mês de novembro tem sido marcado pela queda nas paridades de exportação do algodão em Mato Grosso. O instituto informou que, “ao longo de out/25, a média da paridade de dez/25 ficou em R$ 111,05/@, com pouca variação diária”, mas que o movimento mudou no início de novembro, quando a tendência baixista se intensificou.

O Imea destacou que a paridade atingiu R$ 104,71/@ em 14 de novembro, “o menor valor para uma paridade de dezembro desde set/20”. No mesmo período, a paridade de julho de 2026 chegou a R$ 117,66/@, aproximando-se das mínimas do ano. Segundo a análise, “o cenário segue ligado à desvalorização dos contratos do algodão na bolsa de NY”, que recentemente operaram nos níveis mais baixos dos últimos anos.

A instituição acrescentou que a tendência de queda nas cotações do dólar desde meados de outubro de 2025 também influenciou o comportamento das paridades. Para o Imea, “o panorama desfavorável dos preços contrasta com os custos de produção mais elevados para a safra 2025/26”, o que reforça a necessidade de cautela nas negociações do algodão.





Source link

News

o Brasil fingiu que não viu, agora a conta explodiu


O estudo do Banco Central confirma o óbvio: o produtor foi espremido por juros altos, preços em queda e políticas tardias. A inadimplência recorde não é acidente, é consequência.

O estudo apresentado pelo Banco Central à Comissão de Agricultura do Senado apenas oficializou aquilo que o campo já gritava há meses: o modelo de financiamento rural do Brasil quebrou. A inadimplência recorde não é um fenômeno isolado, nem uma surpresa técnica. É o resultado direto de decisões políticas equivocadas, da negação da realidade e de uma economia que penaliza justamente quem produz.

Os números falam por si. No primeiro trimestre de 2025, a inadimplência entre pessoas físicas no crédito rural chegou a 7,9%. Entre os grandes produtores do Centro-Oeste, Paraná e São Paulo, passou de 10,7%. No Banco do Brasil, a taxa saltou de 0,96% em 2023 para 5,34% em 2025, um aumento de 456%. No Rio Grande do Sul, devastado por extremos climáticos, três em cada dez operações estão comprometidas.

E o mais simbólico: 74% dos inadimplentes nunca haviam atrasado uma parcela antes. Isso desmonta a narrativa de “má gestão individual”. O problema não está no produtor, está no sistema.

O dado mais grave do estudo é este: Quem financia 100% do custeio teve prejuízo médio de 2,6% na safra 24/25.

Ao mesmo tempo:

  • Arrendatários sem financiamento lucraram 14,8%.
  • Proprietários tiveram margens entre 22,6% e 35,7%.

Isso mostra que o Brasil criou um paradoxo cruel:
só dá lucro para quem não precisa de crédito. Quem depende de financiamento afunda.

O crédito rural, que deveria sustentar o crescimento, virou fator de quebra.

A equação que destrói o fluxo de caixa está formada:

  • Juros elevados por tempo excessivo (Selic alta, crédito comercial ainda mais caro).
  • Preços das commodities despencando — A rentabilidade da soja caiu 36,7%, no milho 92%.

Custos de produção subindo com fertilizantes, logística e arrendamento pressionando margens. Nessas condições, não se trata de “risco de mercado”: é uma armadilha econômica fabricada.

O produtor é o primeiro elo a sangrar. Mas não é o único:

  • Revendas reduzem vendas e crédito interno.
  • Cooperativas assumem inadimplência e alongam prazos perigosamente.
  • Bancos fazem provisões bilionárias, e cortam novas linhas.
  • O país arrisca diminuir sua capacidade de produzir na safra 2025/26.

A rachadura é estrutural. E, no limite, afeta o superávit comercial, que depende do agro para existir.

O Banco Central fala em “reavaliar equalização” e recomendar renegociações mais rígidas.
Mas o problema não é burocrático; é estratégico. O governo demorou para agir, o Congresso ignorou alertas técnicos e o BC restringiu renegociações justamente quando o produtor mais precisava delas.

A MP 1314, recém-lançada, tenta reorganizar dívidas, mas chega tarde e com adesão baixa. O Brasil quer um produtor competitivo no mundo, mas o trata como consumidor de crédito caro e pagador de crises fiscais. Não há agro resiliente com juros incompatíveis com a atividade agrícola.

A inadimplência recorde não é acidente. É consequência. Consequência de um país que exige produtividade europeia com infraestrutura africana; que quer alimentos baratos, câmbio valorizado e crédito caro; que transfere sua instabilidade fiscal para o bolso do produtor.

O estudo do Banco Central não revela um problema. Revela um fracasso coletivo de política econômica. E o alerta final: se o Brasil não reorganizar o crédito rural com urgência, juros, seguro, hedge e arrendamento, em 2026 pode registrar a maior quebradeira agrícola desde os anos 1990.

O campo está dizendo: “a conta não fecha”. E quem insistir em ignorar isso, cedo ou tarde, vai pagar a fatura, junto com o país inteiro.

Miguel Daoud

*Miguel Daoud é comentarista de Economia e Política do Canal Rural


Canal Rural não se responsabiliza pelas opiniões e conceitos emitidos nos textos desta sessão, sendo os conteúdos de inteira responsabilidade de seus autores. A empresa se reserva o direito de fazer ajustes no texto para adequação às normas de publicação.



Source link

News

Inadimplência rural sobe a 7,9% e grandes produtores lideram endividamento, aponta Banco Central



Durante audiência pública no Senado, realizada na quarta-feira (19), que discutiu medidas do Governo Federal para apoiar produtores rurais do Rio Grande do Sul afetados por enchentes e secas, o chefe do Departamento de Regulação, Supervisão e Controle das Operações do Crédito Rural e do Proagro (Derop) do Banco Central, Cláudio Filgueiras Pacheco Moreira, apresentou um diagnóstico preocupante sobre o endividamento no campo e os riscos crescentes para a sustentabilidade financeira do setor.

Filgueiras afirmou que visitou pessoalmente propriedades atingidas no estado e destacou o peso dos produtores rurais gaúchos no endividamento coberto pela Medida Provisória (MP) 1.314/2025, que liberou R$ 12 bilhões para novas linhas de crédito rural. Segundo ele, “o Rio Grande do Sul representa quase 98% da parte do endividamento da MP”.

Ao apresentar estudo do Banco Central sobre o envidamento do setor, Filgueiras afirmou que a inadimplência no crédito rural vem crescendo de forma acelerada, e que o problema não pode ser atribuído somente aos eventos climáticos extremos.

“Nós tivemos problemas climáticos sim, mas também tivemos situações onde os produtores rurais perderam em um ano, perderam no ano seguinte e apostaram muito mais, perderam de novo e apostaram muito mais no terceiro ano. Ao invés de tratar com cautela, houve uma situação que aumentou demais o endividamento e ficou muito difícil os produtores pagarem essa dívida.”

Ele classificou o cenário como preocupante, destacando que muitos produtores passaram a operar fora de sua capacidade financeira.

Números

Filgueiras apresentou números inéditos sobre margens financeiras na safra 2024/25, com destaque para a situação dos arrendatários:

  • Arrendatário com 100% dos custos financiados: –2,6% de margem (prejuízo);
  • Arrendatário sem financiamento: 14,8% de margem positiva;
  • Proprietários com financiamento: 22,6%;
  • Proprietários sem financiamento: 35,7%.

Para ele, os números mostram um problema estrutural no modelo de financiamento e devem recalibrar as políticas públicas. “Talvez esse dado nos leve a refletir um pouco sobre como a política pública deveria tratar o financiamento do crédito rural”, opinou.

Filgueiras reforçou ainda que o arrendatário que financia 100% dos custos hoje não consegue pagar qualquer operação que venha a fazer, mesmo com recursos com equalização, no teto do Conselho Monetário Nacional.

“O arrendatário que financia tudo hoje, mesmo que use todas as taxas disponíveis, não consegue ter resultado na sua produção. É hora de parar e pensar se a política está sendo feita da forma que deveria.”

Inadimplência

O chefe do Derop explicou que a inadimplência entre produtores pessoas físicas chegou a 7,9% no primeiro trimestre de 2025, acima dos 7% registrados no ano anterior.

Os grandes produtores são os mais afetados, com taxa de 10,7%, especialmente no Centro-Oeste, além de Paraná e São Paulo.

Filgueiras também destacou que a inadimplência é maior nas operações realizadas com recursos obrigatórios, como custeio. “Recurso obrigatório é custeio e operações curtas, é onde tem mais problema. É algo para se pensar sobre a distribuição.”

Já os financiamentos com origem na poupança rural registram menor inadimplência, por serem destinados a investimentos de prazo mais longo. No agregado nacional, aproximadamente 15% das operações de crédito rural estão inadimplentes, prorrogadas ou renegociadas. No Rio Grande do Sul, o índice dobra, chegando a 30,6%.

“Há um crescimento significativo de operações em atraso, inadimplentes, prorrogadas e renegociadas, com impacto em diversos estados”, afirmou Filgueiras.



Source link