Tabelamento ‘disfarçado’ do diesel pode causar desabastecimento

Materiais do Canal Rural já começam a mostrar, em diferentes regiões, relatos de produtores enfrentando dificuldade para encontrar diesel. Não é só o preço alto. Em alguns casos, há racionamento, cotas limitadas e atraso na entrega. É o tipo de sinal que o campo percebe antes de todo mundo, e que normalmente indica que algo está saindo do eixo.
Tenho conversado com produtores nos últimos dias e recebo informações: o diesel já não chega como antes. E isso não acontece por acaso.
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Os dados mais recentes mostram uma queda forte na importação de diesel, uma das maiores dos últimos tempos. E o Brasil depende dessa importação para complementar a oferta interna. Quando ela recua, é porque a conta deixou de fechar para quem opera nesse mercado.
Aí está o ponto central.
Quando o governo sinaliza controle de preços, segura reajustes ou interfere de forma indireta, o efeito pode até parecer positivo no primeiro momento. Mas o mercado reage rápido. Se o preço interno não cobre o custo real, dólar, frete, risco, o importador sai. E sem importador, a oferta diminui.
E quando a oferta diminui, o diesel começa a faltar.
Ao mesmo tempo, o governo tenta aliviar a pressão reduzindo tributos federais, como PIS e COFINS, e passa a pressionar os estados para que também reduzam o ICMS. O problema é que os estados vivem uma situação fiscal delicada. Abrir mão de receita não é simples, e, em muitos casos, não é viável. E aqui vale um alerta: nós já vimos esse filme no passado, e sabemos exatamente como ele termina.
No fim, o problema apenas muda de lugar.
A União reduz um pouco, pede que os estados reduzam mais, mas ninguém resolve a origem da pressão: o custo do combustível, que continua subindo lá fora e chegando aqui dentro.
Não existe milagre fiscal. Alguém sempre paga essa conta.
Enquanto se tenta segurar o preço de um lado, o mercado responde do outro. A queda na importação é o primeiro sinal. A dificuldade de abastecimento começa a aparecer logo depois.
O governo até tenta compensar com bônus, subsídios pontuais e medidas emergenciais. Isso ajuda? Ajuda, mas só por um tempo. Não sustenta o sistema. Porque o custo continua lá, pressionado pelo petróleo, pela logística global, pelo câmbio e até pelos fertilizantes, que também seguem em alta.
Não dá para tabelar uma cadeia inteira.
Uma saída mais organizada seria um mecanismo transparente de compensação, um fundo, por exemplo, que use receitas do petróleo para suavizar os preços sem desmontar o mercado. Mas isso exige dinheiro, previsibilidade e disciplina fiscal.
Sem isso, vira improviso.
E improviso, em energia, costuma terminar em escassez.
Para quem está no campo, o risco é imediato. Diesel não é opcional. É o que move a colheita, o transporte, a produção. Sem ele, para tudo.
Preço artificial pode até aliviar hoje. Mas falta de diesel paralisa amanhã.
No fim das contas, a discussão precisa ser mais direta. O problema não é o preço na bomba. É o custo estrutural do Brasil, logística cara, dependência externa e insegurança nas regras.
Tabelar combustível é tentar resolver tudo isso com uma canetada.
E a história já mostrou, mais de uma vez, como isso termina.

*Miguel Daoud é comentarista de Economia e Política do Canal Rural
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